No soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes (nenhum parentesco com Alexandre de Moraes), há uma frase que diz: “que seja eterno enquanto dure”. É assim que encaramos os recuos do presidente Bolsonaro no meio da semana passada, após os excessos cometidos em Brasília e São Paulo, quando disse que não cumpriria determinações do STF, falou em canalha e, novamente, versou sobre voto impresso e auditoria.

Ficamos esperando a ação dos “bombeiros” de prontidão, que trouxeram o ex-presidente Michel Temer para conversas com Bolsonaro e confecção da carta em que o presidente recuava de suas ações no Sete de Setembro no clamor da manifestação, chegando mesmo a manter contato com Alexandre de Moraes, agora, um grande jurista.

Mas o presidente, logo na última sexta-feira (10/09), voltou a falar, no “cercadinho” do Alvorada para apoiadores, que o Sete de Setembro não foi em vão, e que ainda não tinha errado em seu governo, próximo de fazer três anos. Isso acabou dando uma ducha fria nos mercados, que buscavam alguma recuperação depois de perdas pesadas. Só para dimensionar isso, as ações negociadas na Bovespa perderam, na sessão de 08/09 (quarta-feira), cerca de R$ 195 bilhões em valor de mercado, e os investidores estrangeiros sacaram liquidamente da Bovespa R$ 1,65 bilhões em dois pregões (08/09 e 09/09). O dólar pressionado voltou a ultrapassar a cotação de R$ 5,33 e as taxas de juros dos DIs dispararam em alta.

Assustado com a repercussão, o presidente se retratou perante a opinião pública sobre os excessos. O fim de semana, normalmente tumultuado por palavras e atitudes do presidente, acabou sendo bem mais tranquilo, com as manifestações clamando pelo impeachment de Bolsonaro pouco expressivas.

Apesar disso e do astral bem melhor que estamos começando o novo período, ainda persistem as dúvidas se o presidente conseguirá manter a atitude pacificadora, afastando toda uma vida de beligerância. Mas, por ora, temos a equipe econômica mais animada em retomar contatos com o Legislativo e o Judiciário, forçando a discussão e a aprovação de matérias importantes, tais como definição sobre o pagamento de precatórios de cerca de R$ 90 bilhões (deve prevalecer a proposta de Fux e CNJ), o orçamento de 2022 e até a aprovação pelo Senado da reforma do Imposto de Renda, votada recentemente pela Câmara. Para tal, vão contar também com o empenho do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, com forte penetração no Senado.

Porém, temos que lembrar que a equipe econômica está sendo pressionada para começar a mostrar resultados, e o ambiente ainda não está apaziguado. Ao mesmo tempo em que surgiram bombeiros, ainda existem incendiários dentro do governo, especialmente no núcleo político que quer ter o que apresentar para a reeleição de 2022.

No nosso modo de ver, o efeito da crise política na economia já é algo inevitável. A janela para aprovação de medidas está cada vez mais estreita e segue complicada. Os juros estão em alta e seguirão assim em pelo menos parte de 2022, e isso barra o crescimento previsto para o próximo ano. Basta ver as previsões que estão sendo anunciadas por diferentes gestores de recursos. O dólar valorizado eleva o preço dos alimentos e combustíveis, o desemprego vai cair, mas seguirá ainda bem alto, a crise hídrica está batendo na porta, o custo de energia continuará alto por muitos meses e a agricultura também não será de grande ajuda, agora com a safra prevista encolhendo. Isso, sem contar todos os ruídos políticos e polarizações com as eleições de 2022.

Em suma, o astral melhorou bem desde a semana passada, mas as incertezas perduram e o Brasil acordou na semana com todos os velhos problemas. Mas, então, que seja eterno enquanto dure, e os mercados possam reagir e manter a capitalização das empresas, de extrema importância para atravessar a fase e reiniciar investimentos fundamentais para o crescimento futuro.

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do modalmais