CLOROQUINA NOS MERCADOS DE RISCO
Alvaro Bandeira é sócio e economista-chefe do banco digital modalmais

A cloroquina pode ainda não estar tecnicamente comprovada como eficaz para combater a pandemia instaurada pela covid-19. Mas os mercados de risco já estão fazendo uso da sua cloroquina, qual seja, a grande liquidez financeira e retomada das economias, para agitar e garantir o rali de alta dos preços dos ativos. Vejamos:

– Desde o início da crise, todo o mundo tentara proteger seus investimentos atuando de forma moderada e com aversão ao risco. Nesses momentos, o dólar é sempre o “porto seguro” das aplicações e os mercados emergentes são os que mais sofrem. Aqui mais ainda, por conta de sermos um mercado de maior liquidez e permitir saídas rápidas;

– Bancos centrais e governos foram bastantes ágeis em compreender o tamanho da crise sanitária, com sérias implicações sobre a economia e sistema financeiro. Passaram a prover fortes estímulos monetários e fiscais, inundando o mercado internacional de liquidez e já num patamar de juros extremamente baixo ou negativo. Tanto isso é verdade que, o FED sai de um balanço de ativos de cerca de US$ 3,7 trilhões, rapidamente para mais de US$ 7 trilhões e com cara de que possa extrapolar a faixa de US$ 10 trilhões;

– Empresas mais ágeis logo saíram tomando recursos para proteger seus caixas do longo processo que seria a recuperação, mais sem destinação imediata. Governos também fizeram o mesmo, recorrendo também aos organismos multilaterais como FMI e Banco Mundial. Daí surgiu um temor com o nível de endividamento de empresas e governos que pode chegar no final de 2020 com dívidas da ordem de US$ 255 trilhões, quase duas vezes e meia o PIB mundial.

Só para encurtar a história, mais recentemente a curva de contágio e óbitos no mundo começou a infletir, e governos começaram a preparar a reabertura de suas economias, especialmente os desenvolvidos e com maior austeridade fiscal, já trabalhando a retomada dos investimentos. Só para exemplificar, a China já começa a mostrar forte recuperação e seu PIB não deve nem figurar com retração na lista daqueles 127 países que o FMI projeta com PIB negativo.

A partir da reabertura das economias e avanços no desenvolvimento de vacinas e em medicamentos para conter a covid-19, os investidores passaram a trasmudar sua postura de aversão ao risco para apetite ao risco. Desde o final de maio, já era possível diagnosticar esse movimento dos investidores, invertendo o comportamento do câmbio no mercado internacional e forçando as Bolsas no sentido da alta, depois de forte reajuste em queda dos ativos. Nem é preciso dizer que os juros baixos aceleraram esse movimento na busca por melhor remuneração para os recursos. A divulgação de resultados do primeiro trimestre de empresas deu maior consistência, na medida em que permitiu detectar que empresas e setores poderiam ser menos atingidos.

Começou, então, a busca por moedas e ativos de maior risco, alguns investidores atuando com maior conhecimento de causa e outros indo no “efeito manada”. Isso explica, por exemplo, a sequência de altas nos mercados especialmente nesse início do mês de junho. A explicação clássica é de que “contra o fluxo de recursos canalizados, não há argumentos”

Muitos investidores e até o “público interno” do mercado, olhando para o Brasil e seus inúmeros problemas que tem e terá pela frente, ficam atônitos. Mas no curto prazo, essa é uma explicação que tem fundamento. A cloroquina dos mercados chama-se dinheiro querendo ser aplicado e fugindo dos juros baixos. Enquanto houver cloroquina no mercado mais que suficiente para absorver realizações de lucros de curto prazo, os mercados de risco seguirão se recuperando.

Mas calma, precisa ter cuidado nas escolhas e aproveitar alguns momentos de realizações não tão bem absorvidas para constituir carteiras.
Isso nos faz lembrar a peça escrita por Luigi Pirandello, “Assim é (se lhe parece)”, onde se questiona a verdade.

Alvaro Bandeira