Após uma semana com sinalização relevante do Banco Central dos EUA (FED), temos agora expectativa elevada em relação à decisão do Banco Central do Brasil. O cenário para o COPOM é complexo, mas dada comunicação recente, a expectativa é de elevação da SELIC em torno de 0,75%.

Os preços de mercado são frutos de uma busca constante de investidores em torno de equilíbrio entre oferta e demanda global por todos os bens e serviços negociados. Como qualquer investidor sabe, esta não é uma tarefa simples, ainda mais se consideramos que as curvas de oferta e demanda podem mudar ao longo do tempo por conta de notícias, eventos políticos, etc.

Ante tamanha complexidade, é comum que modelos econômicos e financeiros, que tentam explicar preços de ativos, passem por algumas premissas de simplificação. De fato, seria possível argumentar que, se tivéssemos de reduzir as indicações de juros globais para somente uma taxa que efetivamente impactasse a totalidade dos ativos financeiros negociados do mundo, chegaríamos sem muita dificuldade à taxa de juros dos EUA.

Justamente por isso que a condução da política do FOMC é tão relevante e olhada sob minucia pelo mercado global. Isto se intensifica por conta das surpresas em termos de atividade e mercado de trabalho das últimas semanas. É razoável supor que o FED terá de rever seu cenário para uma aceleração mais agressiva da demanda agregada no curto prazo. Tudo mais constante, isto geraria antecipação das pressões inflacionárias previstas. Logo, espera-se que o FED tenha de começar a discutir em breve a normalização da política monetária.

Como previsto, o comitê alterou o comunicado para reconhecer o ganho de momento da economia. Já durante a conferência de imprensa, Jerome Powell foi muito enfático em afirmar que o FOMC ainda não discute alterações nas compras de 120ni mensais de títulos. Assim, nossa projeção contempla um longo processo de comunicação em direção à redução no ritmo de compras. As indicações iniciais viriam na reunião de junho, com o comitê indicando em direção ao final do ano que as reduções começam em dezembro ou em janeiro de 2022. Assim, mantemos inalterada a projeção de elevação da taxa de juros ao final de 2023.

O impacto disso para o Banco Central do Brasil é positivo. Se o FED está tranquilo, isto resulta em um canal a menos de pressão sobre os juros brasileiros.

Ao mesmo tempo, temos sinais divergentes para o cenário do COPOM: por um lado, as discussões orçamentárias evidenciaram os riscos em torno da política fiscal. Por outro lado, a passagem da discussão trouxe alívio nos ativos de risco e possibilitou apreciação da moeda, o que tira pressão inflacionária à frente.

Em termos de inflação realizada, o IPCA-15 mostrou continuação da dissipação do choque visto no final do ano passado, enquanto também trouxe algum alívio em termos de preços administrados. Assim, seguimos com projeção de IPCA próximo a 5% no final do ano e um pouco acima da meta de 3,5% no final do ano que vem.

Tendo em vista que o desemprego segue elevado e há riscos consideráveis em torno da atividade e dos determinantes da inflação, sustentamos que o Banco Central manterá a retórica de “normalização parcial” na reunião da próxima quarta-feira. Para isto, elevará a taxa SELIC novamente em 0,75%, indicando que há chance de uma elevação subsequente da mesma magnitude. A projeção de SELIC para o final do ano segue em 5%.

Em suma, a próxima semana trará notícias relevantes para os preços de ativos no Brasil. O cenário segue determinado pela dinâmica política e fiscal, enquanto a política monetária permanece como pano de fundo. Enquanto ela permanecer em território abaixo do neutro, nossas projeções para desempenho das classes de ativos não se alteram de forma significativa.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.