Diz o ditado popular que é preciso ir “devagar com o andor, que o santo é de barro”. Lembramos essa expressão ao pesquisar o noticiário local sobre as operações de IPOs e Follow-ons que estão em curso, saindo das prateleiras da CVM.

Não tem uma semana que um grupo de analistas formados na década de 70 e 80, reunidos no WhatsApp, sob o título “veteranos da Abamec”, no sentido de lembrar situações de mercado antigas, foram nominando empresas que sucumbiram, foram extintas ou incorporadas por outras empresas nesses últimos quarenta anos. A quantidade lembrada, até para afastar o Alzheimer, foi enorme, uma lista quilométrica, o que mostra a dinâmica da economia, onde verdadeiras potências empresariais simplesmente morreram.

A lista de empresas feitas por esses profissionais do primeiro time do mercado de capitais foi enorme e nos fez lembrar um outro episódio ocorrido, com o que se convencionou chamar de a “crise das pontocom” que aconteceu no ano 2000 nos EUA, onde os excessos da nova economia deixaram um rastro de quebras, fechamentos, compras e fusões de empresas de internet e de telecom. Em apenas três anos, essa crise apagou do mapa quase 5 mil companhias e algumas das maiores corporações do setor de telecom, por conta de escândalos contábeis. Nessa época, o FED se viu obrigado a reduzir juros em 0,5%. Podemos fazer referência ao “novo normal” que a pandemia deve trazer e também as startups locais.

Pois bem, o que o passado tem a nos ensinar sobre o presente e o futuro? Acredito que muita coisa! Mais recentemente, no segmento local, lá pelos idos de 2004, um case de sucesso chamado Natura decidiu abrir o capital, teve forte adesão dos investidores e deflagrou uma onda de IPOs, inicialmente também bem-sucedidos e depois declinou e alguns lançamentos se tornaram retumbantes e verdadeiros fracassos.

Citamos tudo isso para mostrar nossa preocupação com a onda de operações de IPOs e Follow-ons que começa a acontecer por aqui, e diante de enorme quadro de investidores neófitos que chegaram a Bovespa desde o ano passado. A sedução de participar dessas operações está diretamente correlacionada com as performances dessas ações no início de negociação. Não nego que tivemos alguns sucessos de vulto, como aquela que em apenas dois pregões valorizou mais de 33%. Os investidores, principalmente aqueles que buscam ganho rápido ficam alucinados por “flipar” essas operações (vender nos primeiros momentos de negociação), alavancando posições e eventualmente ganhando sem sequer ter posto recursos na operação.

Não precisamos versar sobre o risco que isso representa caso algo ocorra e, na abertura dos negócios, a ação caia, e não consiga mais retornar pelo menos ao valor original de bookbuilding. A pergunta que fica é se esse investidor estudou a companhia, vislumbrou os riscos e dimensionou sua alavancagem até onde conseguiria absorver impactos. Será que se informou antes sobre a administração da empresa, grupo controlador, potencial de crescimento, etc. Nessa época de pandemia, muitos estão buscando recursos não exatamente para expandir seus negócios, mas para sobreviver no ambiente hostil dos próximos meses. Portanto, as perspectivas não são assim tão claras e maravilhosas.

Antes que me preguem o cartaz de ser contra o desenvolvimento do mercado de capitais, me credencio como um profissional que em meio século sempre lutou exatamente por isso e sempre de forma ao desenvolvimento saudável, para que, na medida do possível, não haja interrupção de crescimento. Portanto, principalmente para aqueles que estão chegando agora para investir em renda variável e egressos da renda fixa, vale explicitar de forma clara os riscos envolvidos e sempre alertar que investir em ações é sempre com horizonte de médio e longo prazo, muito embora exista a possibilidade de ganho excepcional de curto prazo.

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do banco digital modalmais