Carlos Drummond escreveu um poema que diz: “e agora José, a festa acabou, a luz apagou e a noite esfriou”. O day after das manifestações do 7 de setembro podem se prolongar por muito tempo num país institucionalmente conturbado.

Não muito como fugir. O dia está e será marcado pelos desdobramentos das manifestações de ontem e fala do presidente em seus discursos de Brasília e São Paulo. Em Brasília, por ato falho ou não, o presidente disse que convocaria para hoje reunião do Conselho da República, onde teoricamente poderia tentar oficializar um golpe. A reunião não acontecerá, pois, nem membros designados irão e pode ser somente uma reunião de ministros.

Depois, em São Paulo, disparou cobras e lagartos contra o STF e TSE e, principalmente sobre o ministro Alexandre de Moraes, que será o presidente do TSE nas próximas eleições, dizendo que não acatará decisões do ministro. Também voltou a criticar governadores (Dória principalmente), as urnas eletrônicas e eleições limpas, assunto já enterrado no Legislativo.

Mas felizmente as manifestações foram pacíficas (incluindo as da oposição) e infelizmente amanhecemos hoje com os mesmos problemas do país e adicionado das manifestações de partidos sobre possível impeachment do presidente. O STF fez ontem reunião virtual de seus ministros para formatar uma resposta (os membros ficaram mais unidos), Rodrigo Pacheco suspendeu as sessões remotas de hoje e amanhã, enquanto Arthur Lira ainda não se posicionou, mas certamente está sendo instado para tal.

No mercado, o clima será ruim, apesar da alta ontem dos ADRs de Petrobras e do ETF mais conhecido do Brasil, o EWZ. Mas os mercados foram de queda ontem e também estão dessa forma na sessão de hoje, o que exige ajustes na abertura.

No Japão, o PIB do segundo trimestre mostrou alta de 0,5% e na comparação anual com expansão de 1,9%, mas o presidente do BOJ (BC japonês) Kuroda disse que manterá política monetária acomodatícia até que a inflação chegue aos 2,0% da meta. Já o presidente regional do FED de ST. Louis, Bullard, defendeu a retirada rápida de estímulos (tapering), mesmo com o emprego ainda lento e fraco.

No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em NY, mostrava alta de 1,21%, com o barril cotado a US$ 69,18, após queda de 1,31% na sessão de ontem. O euro era transacionado em queda para US$ 1,182 e notes americanos de 10 anos com taxa de juros em queda para 1,35%. O ouro e a prata tinham altas na Comex e commodities agrícolas com viés positivo na Bolsa de Chicago. O minério de ferro ontem registrou alta de 4,22%, com a tonelada em US$ 137,97, o que garantiria bom desempenho hoje para vale e siderúrgicas.

Aqui, além dos ajustes necessários na abertura, teremos que avaliar o clima das respostas e as movimentações políticas. Mas certamente, tudo isso só piora a situação para reformas essenciais, crise hídrica, inflação, taxa cambial, juros e também para a expansão do PIB.

Na agenda do dia teremos o IGP-DI de agosto, o IPC-S da primeira semana de setembro e a produção de veículos pela Anfavea. Nos EUA, dados do Livro Bege (síntese da economia dos EUA), o crédito ao consumidor de julho e discursos de dirigentes regionais do FED. Na China, durante a noite sai a inflação pelo CPI (consumidor) e PPI (atacado).

Expectativa para o dia de Bovespa fraca, mas mercados externos buscando recuperação, dólar forte (ontem foi assim no exterior) e juros também com viés de alta.

Bom dia e bons negócios!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais