Eleições são sempre um fator a ser comemorado pelos países, não pelo exercício democrático da maior importância, mas principalmente por dar chance para um arejamento das políticas com o novo governo, seja o dirigente reeleito ou não. Porém, o calendário tornou a época terrível, não só para os EUA, como também para o Brasil.

 

Esta terça-feira (3/11) é a data limite para que os americanos escolham quem irá comandar o país pelos próximos quatro anos e, aqui, em breve escolheremos quem irá dirigir as prefeituras de milhares de municípios, quase todos (ou todos) teoricamente quebrados. Não podemos abstrair como pano de fundo a pandemia, que grassa em todo o mundo, com destaque para os EUA e Europa, mas também no Brasil, que pela abertura produzida pode, a exemplo de outros países no mundo, ter que conviver com nova contaminação ascendente.

 

Como consequência das eleições, não raro a pandemia está sendo tratada com viés político, o que certamente não é o ambiente mais adequado. A covid-19 se tornou o centro das disputas entre Biden e Trump nos EUA, e isso não é bom para domar a expansão do vírus.

 

Aqui, então, nem se fala. Nas principais cidades e até pelo presidente Bolsonaro, a política acaba se misturando com postura mais técnica sobre a covid-19. Podemos citar o caso recente de Bolsonaro contrariando as declarações de seu vice Mourão sobre compra de vacinas originárias da China, dizendo que “é ele próprio quem possui a caneta BIC, e não irá comprar”. O presidente esquece, no entanto, que as vacinas distribuídas no Brasil para combate do vírus H1N1 são fornecidas pela China.

 

Deveríamos estar falando sobre eficiência no Brasil, pronto atendimento com doses e custos. Mesmas vertentes para determinar quem será o fornecedor dos equipamentos para 5G, mais um problema para as operadoras resolverem e, eventualmente, não há melhora na tecnologia e atrasos na implantação. Não esquecendo que alguns equipamentos da gigante Huawei chinesa (objeto da discussão) já estão no país, o que exigiria tecnologia aberta ou perda de investimentos já feitos.

 

Agora mesmo, o Brasil já estuda junto com os EUA e o Japão uma declaração contra a posição da China, ignorando que somos emergentes e, portanto, com muito menor grau de barganha, e que a China é o nosso maior cliente. Temos então três questionamentos com a China seguindo os EUA, que podem restringir nossas exportações para aquele país e possíveis retaliações.

 

Nos EUA, o resultado da eleição pode ficar adiado por algum tempo, caso haja judicialização por um ou outro candidato. Trump disse já ter acionado seus advogados para questionar resultados em estados onde a votação foi muito apertada, principalmente sobre interferências externas ou votos que podem ter sido fraudados. Já Biden, afirma que Trump não será declarado vencedor antecipadamente, sugerindo também questionamento.

 

Enquanto a eleição não tem um vencedor, nos EUA não se chega a um acordo sobre pacote fiscal cada vez mais necessário, e aqui passamos o mês de outubro em branco no Congresso, sem votações absolutamente fundamentais de temas cruciais, obstrução de pautas (inclusive pela própria base de apoio do presidente), clima político carregado, Bolsonaro fazendo campanha para filho e outros, sem conseguir formatar a CMO (Comissão Mista do Orçamento) e sua liderança ainda com todas as disputas que ocorrem por conta das presidências da Câmara e do Senado. O próprio Tesouro Nacional já alertou que terá a execução prejudicada, caso não seja votado o orçamento, que já sofre com questões levantadas pelo TCU.

 

Ou seja, perdemos muito tempo para nada, com a política dominando o cenário. Não custa lembrar que temos indefinições ainda mais graves sobre reformas necessárias, teto de gastos, regra de ouro, lei de responsabilidade fiscal (LRF), e, como coordenar e equacionar, dívidas, déficit primário e tudo mais no pós-pandemia? Como dissemos, as eleições estão atrapalhando tudo nesse momento.

 

Alvaro Bandeira