Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do modalmais

A semana se mostra bastante complicada para os mercados de risco aqui e no exterior. Antes de tudo, uma semana curta, pois envolve feriado da Independência dos EUA, com comemorações de 04/07, e ferido regional da Revolução Constitucionalista no Brasil, com a B3 fechada. Isso retira boa parte da liquidez dos mercados e impulsiona perda de referencial de preços para os ativos.

Mas não ficamos só nisso. A semana é recheada de indicadores importantes aqui e no exterior, com capacidade de afetar o comportamento dos mercados de câmbio, juros e também as Bolsas de Valores. A agenda da semana embute a divulgação da ata da última reunião do FOMC do FED, indicadores PMIs, que estão saindo logo na segunda-feira, a decisão da OPEP+ sobre a meta de produção de óleo para os países-membros e outros. Permeando tudo, ainda temos o espectro da covid-19 atacando novamente pela variante Delta que, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), já atinge quase 100 países.

Aqui, a semana traz o IPCA de junho, que pode ficar perto de 0,60%, o IGP-DI e a crise hídrica para elevar as bandeiras tarifárias da conta de luz e comprometer a inflação de 2021. Ajustes estão induzindo queda das projeções de inflação para 2022, mas não podemos esquecer que o ano será de eleições e, portanto, haverá gastos descontrolados e postura mais populista. Vamos ter também as vendas no varejo de maio, que devem mostrar recuperação do setor, e seguimos dependentes de reformas que podem novamente ser adiadas pelo recesso, além da forte oposição contra a elevação da carga tributária, apesar das declarações de Paulo Guedes, que afirma que vai rever alíquotas se isso acontecer. Ainda assim, existe forte rejeição. O mesmo pode ser inferido para a reforma administrativa.

No que tange a ata do FED, teremos que avaliar as pressões de alguns membros para iniciar discussões sobre tapering, com dirigentes regionais querendo mudar um pouco e acelerar alterações na política monetária para evitar maior pressão inflacionária, que pode subir até cerca de 3%. As pressões para mudanças na política monetária não param por aí. Christine Lagarde, do BCE (BC europeu), defende políticas acomodatícias e manutenção da política de estímulos, mas a pressão vai aumentando. Na última sexta-feira, o presidente do Bundesbank (Alemanha) fez carga, sugerindo antecipar discussões. No BoE (BC inglês), a situação não é muito diferente.

Bancos Centrais tendem sempre a ser mais duros e proativos em ancorar a taxa de inflação, mas os governos estão temerosos com a variante Delta da covid-19, que pode voltar a desacelerar a recuperação econômica, atrapalhando a redução da taxa de desemprego. Essa dicotomia no posicionamento pode interferir no melhor ajuste das políticas monetária e econômica, trazendo maior volatilidade aos mercados e indecisão por parte dos investidores quanto ao futuro.

Alguns indicadores da atividade de serviços já mostraram desaceleração da expansão, com destaque para o PMI de serviços da China, que caiu de 55,1 pontos para 50,3 pontos, confirmando indicação já detectada. O mesmo aconteceu com o Reino Unido, enquanto a Alemanha e a zona do euro como um todo ainda mostram aceleração. A decisão complicada da OPEP+ sobre elevação da meta de produção pelos países-membros, com a Arábia Saudita rechaçando pretensão dos Emirados Árabes, mostra que as dúvidas sobre equilíbrio e oferta de óleo se mantêm por lá.

Pois bem, tudo nos leva à situação de que fechamos o semestre com muitas dúvidas e incertezas, claramente demonstradas na vitrine da Bolsa de Valores, onde a Bovespa registrou performance de quase a metade dos índices americanos e segue mais fraca neste início de julho.

O Brasil tem pressa e não pode esperar por mudanças. Também não pode conviver com insegurança jurídica que retarda e/ou afasta investimentos de maior curso para retorno. Seguimos acreditando que o essencial seria o entendimento entre os três poderes em prol de um país mais bem ordenado. Mais isso parece cada vez mais difícil de acontecer.

Alvaro Bandeira