Começando a curta semana que antecede as festas de Natal e os mercados acordaram com forte aversão ao risco. Durante o final de semana, o noticiário internacional deu grande ênfase a contaminação pela covid-19 em sua segunda onda em diferentes países, com destaque para a Índia com mais de 10 milhões de contaminados e 313 mil óbitos nos EUA. Porém, o susto maior ficou mesmo pelos casos de reinfecção anotados (inclusive no Brasil), e principalmente no Reino Unido, onde foi descoberta nova cepa da covid-19, com a previsão de que é 70% mais transmissível que o original da China que se espalhou pelo mundo.

Resultado disso é que, até agora, uma dúzia de países já fecharam seus aeroportos para voos iniciados no Reino Unido, enquanto o próprio primeiro-ministro Boris Johnson endurecia ainda mais as restrições de convívio social. A França, por exemplo, fechou também as fronteiras de comércio, e há massiva propaganda no mundo europeu visando as festas de Natal e Ano Novo, pedindo que as pessoas se reúnam o mínimo possível, e quando feito, restritas ao núcleo familiar e com uso de máscaras.

Essa segunda onda do vírus deflagrou ações de bancos centrais na semana passada, com o BOJ ampliando compras de ativos, BCE ampliando também e o FED indo na mesma direção. Também deve ter sido o grande motivador de republicanos e democratas terem chegado ao acordo sobre pacote de estímulo fiscal no montante de cerca de US$ 900 bilhões, contemplando auxílio de US$ 300 por semana e abrangendo com US$ 600, com entrega direta às pessoas, bem próximo do que chamamos de “Helicopter Money”.

Também farão uma segunda rodada de auxílio aos negócios mais afetados pela pandemia. Destaque que a imunização por vacinas autorizadas emergencialmente começou muito forte desde o final da semana passada, com pelo menos três farmacêuticas já autorizadas a distribuir. No Reino Unido, que também começou a imunizar a população, veio a boa notícia que, apesar da nova cepa do vírus, aparentemente as vacinas que estão sendo aplicadas também seriam eficazes nessa mutação.

No Brasil, Bolsonaro faz discursos dizendo que não tomará a vacina, prestando grande desserviço para a população e esquecendo que os relatos de reinfecção vão surgindo e a mutação genética do vírus. E ainda diz que não politizou a vacina. Resultado disso por aqui, ficamos atrasados nos contratos com farmacêuticas, a verba de R$ 20 bilhões só saiu no final da semana passada e o presidente segue dizendo que a pandemia está acabando, minimizando o problema, exatamente quando as estatísticas no mundo e no Brasil mostram o contrário.

Bem fizeram o ministro Paulo Guedes e o presidente do Bacen Campos Neto em explicitar que a recuperação e normalização da economia passa pela rápida e massiva imunização da população, contradizendo as declarações de Bolsonaro e seu ministro da Saúde que indicam não terem pressa e cria interpretação dúbia com relação à rapidez que os recursos deveriam ser liberados. Por tudo isso, é perigoso o Brasil ficar na rabeira da imunização, quando o número de óbitos já passa de 185 mil, e com mais de 7 milhões de infectados.

Estão querendo tapar o sol com a peneira de uma crise mundial e fazer crer à população que tudo há de passar no curto prazo, quando no mundo já se extrapolam problemas para 2021 e até 2022. Estamos literalmente entre a cruz e a espada, errando no planejamento para mitigar a pandemia em nosso solo.

Quem irá pagar essa conta? Será que vamos ter que esperar que o consórcio Covax montado pela OMS, que vai fornecer 2 bilhões de doses aos países pobres se apiede de nós? Notem que a população brasileira, pelo menos nas grandes capitais, teve como primeira derivada dessas declarações relaxar o convívio e justamente no período de festas. Isso significa que lá para meados de janeiro possivelmente estaremos colhendo esses frutos daninhos.

Não falamos de economia e mercados, mas falamos, pois isso também afetará a performance e vai custar mais caro.

 

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do banco digital modalmais