O dia pode ser caracterizado como de grande incerteza no cenário externo e também interno, afetando o comportamento dos mercados de risco. Com isso, o dólar se apresenta como a melhor proteção, o porto seguro; e os mercados acionários sofrem.

Foi dia de queda em praticamente todos os mercados acionários importantes do mundo, começando pela Ásia, durante a madrugada, passando pela Europa (melhorou levemente em relação ao início) e chegando ao mercado americano, Bovespa e alta do dólar no segmento local.

O pano de fundo segue sendo a ampliação da infecção pela covid-19 e variante Delta, mas os investidores ficaram arredios com a reunião e declaração amanhã do presidente do FED, em Jackson Hole, sobre a retirada de estímulos monetários. Sobre isso, tivemos posicionamentos hoje de Esther George (Kansas) e de Bullard (St. Louis), acreditando em tapering ainda neste ano, e Bullard adicionalmente falando de bolha no mercado imobiliário. De qualquer forma, nada deve ser resolvido na reunião, mas investidores vão buscar nas entrelinhas. Também no BCE, existe a leitura possível de tapering, mas um pouco mais distante ou até que a inflação esteja no patamar de 2%, e de forma duradoura. Por enquanto, os estímulos permanecem.

Ainda nos EUA, tivemos o anúncio do PIB do segundo trimestre na segunda leitura, mostrando expansão anual de 6,6% (previsão era de 6,7%), com os gastos com consumo que representam 1/3 do PIB, crescendo 11,9%. Já o deflator de preços do consumo cresceu 6,5%. Tivemos também os pedidos de auxílio desemprego da semana passada com mais 4.000 pedidos e indo para 353.000 (previsão era 350000), e pedidos continuados (defasado em mais uma semana) com queda de 3.000 posições para total de 2,86 milhões de pedidos. O governo dos EUA também relatou que quatro fuzileiros americanos foram mortos em explosão hoje na redondeza do aeroporto de Cabul, no Afeganistão.

No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em NY, quase zerou as perdas do dia por ameaça de furacão no Golfo do México. Mas, no fim do dia, voltava a cair 0,67%, com o barril cotado a US$ 67,90. O euro era transacionado em queda para US$ 1,175, e notes americanos de 10 anos com taxa de juros de 1,34%, depois de leilão de títulos de 7 anos com demanda acima da média. O ouro em alta e a prata em queda nas negociações da Comex, e commodities agrícolas com desempenho misto na Bolsa de Chicago. O minério de ferro, negociado em Qingdao, na China, durante a madrugada, voltou a mostrar alta de 2,87%, com a tonelada em US$ 152,92.

No segmento local, a inflação em alta, a crise hídrica cada vez mais próxima, perspectiva fura–teto para acomodar precatórios e Auxílio Brasil espantam os investidores e trazem de volta a proteção dos investimentos. Além disso, enorme expectativa com relação às possíveis manifestações em 7 de Setembro. Aliás, Bolsonaro declarou que democracia e liberdade, acima de tudo, são os itens da agenda. Mas o temor é que haja distúrbios e outras pautas que o presidente tem cultivado nas últimas semanas.

Ainda na política, correm notícias que Ciro Nogueira e Arthur Lira estariam descontentes com a postura beligerante de Bolsonaro e que parlamentares do centrão estariam se desligando do grupo de apoio, pois as chances de Bolsonaro ser reeleito diminuem com essa postura e os resultados fracos na economia em 2022.

Enquanto isso, representantes dos três poderes costuram solução para os precatórios pela adoção de sublimite atualizado pela correção anual do teto de gastos pelo valor pago em 2016, que daria algo como R$ 40 bilhões, e não os R$ 90 bilhões estimados para 2022. Já Rodrigo Pacheco (Senado) segue com resistência ao pacote de reforma do Imposto de Renda, que sofre inúmeras críticas. O projeto de autonomia do Bacen segue em votação no STF, mas já formando maioria pelo Bacen autônomo. O ministro Paulo Guedes disse hoje que o Bacen autônomo ajuda a inflação transitória a não se tornar permanente. Concordamos, mas é preciso sentir a pressão presidencial sobre o Bacen.

Na economia, os dados do Caged de julho vieram positivos com a criação líquida de 316,5 mil vagas formais, depois de alta no mês anterior de 304,7 mil. O ano acumula criação de 1,85 milhão de vagas, sendo que 2,59 milhões são de empregados com garantia provisória pelo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego.

No mercado, dia de dólar voltando a subir ao longo do dia com os DIs, para encerrar com +0,95% e cotado a R$ 5,26. No segmento Bovespa da B3, na sessão de 24/08, os investidores estrangeiros voltaram a sacar recursos no valor de R$ 106,8 milhões, deixando o saldo positivo de agosto em R$ 7,24 bilhões e o ano com entradas líquidas de R$ 47,0 bilhões.

No mercado acionário, dia de queda de 0,35% na Bolsa de Londres, Paris com -0,16% e Frankfurt com -0,42%. Madri e Milão com quedas de respectivamente 0,94% e 0,76%. No mercado americano, o Dow Jones com -0,54% e Nasdaq com -0,64%. Na Bovespa, dia de queda de 1,73% e índice voltando para o patamar de 118.723 pontos, com destaque negativo para bancos e varejistas. A aceleração de queda nos EUA empurrou a Bovespa.

Na agenda de amanhã, teremos a confiança da indústria de agosto, o IPP (preço do produtor) de julho, a nota de política monetária e a bandeira tarifária que vigorará em setembro. Nos EUA, o saldo da balança comercial de julho, a renda, gasto pessoal e PCE de julho e a confiança do consumidor de Michigan de agosto. Além disso, a fala de Jerome Powell no simpósio de Jackson Hole.

Boa noite!

Alvaro Bandeira
Economista-chefe do banco digital modalmais