Vamos começar o segundo semestre do ano com muitas indefinições e investidores entre a cruz e a espada. De um lado, parece claro que as economias vão se recuperando, mesmo que de forma desigual. De outro, já se fala abertamente na quarta onda da covid-19 pela variante Delta, o que poderia adiar um pouco essa recuperação, ainda mais com a inflação subindo em todo o mundo. Portanto, é justo supor que os investidores estejam indecisos na gestão de seus patrimônios.

Hoje pareceu ser um dia desses, com mercados tendendo para o negativo, mas sem muita vontade de mostrar quedas mais acentuadas. A diferença é que a liquidez internacional segue elevada, os juros muito baixos em todo o mundo e todos buscando alternativas. Consequência disso, a volatilidade nos mercados de risco prossegue, com alternância de humor ao sabor do noticiário diário.

Mas os bancos centrais de países desenvolvidos começam a se movimentar com relação à retirada de estímulos. O BoE (BC inglês) declarou que a retirada lenta dos estímulos (quantitative easing) pode deixar o balanço de ativos insustentável e perigoso para o sistema de metas de inflação, e há certo desconforto com o balanço de ativos em 1 trilhão de libras. O BIS (banco de compensações internacionais) acredita que o pior da crise ainda está por vir nos países em desenvolvimento. Nos EUA, o FED de NY tem batido recordes diariamente em operações de repo reversas e, hoje, tomou US$ 991,9 bilhões nessa operação.

Nos EUA, a pesquisa ADP sobre criação de vagas no setor privado surpreendeu positivamente com a criação de 692.000 postos de trabalho em junho, após previsão de 550.000. Mas Kaplan, do FED de Dallas, disse que deveriam iniciar a retirada de estímulos (tapering), pois o problema agora é de oferta e não de demanda, e que incertezas sobre a dinâmica da inflação devem permanecer. Ainda nos EUA, o ISM da atividade industrial de Chicago declinou para 66,1 pontos, o menor dos últimos quatro meses, com previsão que ficaria em 70 pontos (anterior em 75,2 pontos). As vendas pendentes de imóveis de maio cresceram 8% e os estoques de petróleo declinaram 6,8 milhões de barris na semana anterior.

No mercado internacional, dia de petróleo em alta, o óleo WTI, negociado em NY, em alta de 0,67% e com o barril em US 73,47. O euro era transacionado em queda para US$ 1,185 e notes americanos de 10 anos com taxa de juros de 1,44%. O ouro e a prata com boas altas na Comex e commodities agrícolas com viés positivo na Bolsa de Chicago. O minério de ferro é que teve dia de alta, em Qingdao, na China, de 0,82%, com a tonelada em US$ 214,08.

No segmento doméstico, o IBGE anunciou dados da PNAD contínua do trimestre encerrado em abril, com a taxa de desemprego em 14,7% e a renda real em queda de 1,5% contra igual trimestre do ano anterior. Já a massa de renda encolheu 5,4% na mesma base, mostrando perda de poder de compras e atrasando recuperação. Faltava trabalho para 33,2 milhões de pessoas, os desalentados somaram 6 milhões (+18,7% em um ano), desocupados em 14,8 milhões e a população ocupada mostrando queda de 3,3 milhões, em 85,9 milhões. O país perdeu 112 mil empregadores e a informalidade está em 39,8%.

Já o Bacen anunciou que a dívida líquida do setor público atingiu 59,7% do PIB, em queda, e a bruta em 84,5% do PIB, vindo de 85,6%. O crescimento do PIB nominal e o câmbio foram os responsáveis pela queda. O déficit primário de maio foi de R$ 15,5 bilhões, gastos com juros de R$ 21,9 bilhões e déficit nominal de R$ 37,4 bilhões. No ano, o déficit nominal atinge R$ 75 bilhões e, em 12 meses, soma R$ 724,3 bilhões, cerca de 9,2% do PIB. O leilão de transmissão de energia garante R$ 1,3 bilhão em investimentos para expansão do setor.

No plano político, Bolsonaro voltou a discursar em cerimônia e disse que não vai ser a CPI com sete bandidos que vai tirar ele do poder. Mas foi protocolado na Câmara um superpedido de impeachment de Bolsonaro. A Abimaq disse que as reformas tributárias previstas não atendem às necessidades do setor, aumentando a celeuma sobre a proposta, sugerindo que as empresas estrangeiras possam deixar de investir aqui.

No mercado, dia de dólar pressionado, como tínhamos projetado, fechando com alta de 0,63% e cotado a R$ 4,97. Na B3, na sessão de 28/06, os investidores estrangeiros alocaram recursos no montante de R$ 240,1 milhões, deixando o saldo positivo de junho em R$ 16,2 bilhões e o ano com ingresso líquido de R$ 47,6 bilhões.

No mercado acionário, dia de queda de 0,71% na Bolsa de Londres, Paris com -0,91% e Frankfurt com -1,02%. Madri e Milão com perdas de 1,05% e 1,01%, respectivamente. No mercado americano, o Dow Jones fechou com +0,61% e Nasdaq com -0,17%. Na Bovespa, dia de queda de 0,41% e índice em 126.801 pontos. O mês fechou com variação de +0,46% e, no ano, acumula alta de 6,54%.

Na agenda de amanhã, teremos IPC-S e saldo da balança comercial de junho. Teremos ainda o PMI industrial de junho para diferentes países e, nos EUA, os pedidos de auxílio desemprego da semana anterior, os investimentos em construção de maio e as vendas de veículos de junho.

Boa noite!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais

Fonte: https://www.modalmais.com.br/blog/falando-de-mercado