O mês de julho encerrou com a última sessão bastante pressionada na venda de ativos de risco, com investidores buscando maior proteção. Os últimos dias do mês foram de tensão no ambiente externo e, principalmente, no interno. No exterior, seguem as preocupações com o aumento de contágio pela variável Delta da covid-19 e a expectativa que bancos centrais possam acelerar mudanças na política monetária, em função da aceleração da inflação. Aqui, além de absorvermos esses efeitos, ainda fomos obrigados a conviver com nossas próprias idiossincrasias, notadamente a reforma do Imposto de Renda e o ambiente político desgastado. Tudo isso culminou na sessão de hoje com movimentos ampliados em relação ao exterior, seja na Bovespa ou no câmbio, também estressado.

A semana também foi pesada na divulgação de resultados do segundo trimestre de empresas líderes, afetando pontualmente a precificação dos ativos. Também pesou bastante sobre as commodities (com destaque para as metálicas) a interferência do governo chinês no segmento privado de tecnologia e educação, assim como na elevação de tarifas de produtos siderúrgicos e exportações de aço. Isso afetou diretamente o preço do minério de ferro e as ações brasileiras do setor.

No plano político local, com o término do recesso parlamentar, é lícito supor que a pressão deva continuar, principalmente depois de Bolsonaro não ter mostrado provas de fraudes nas eleições com urnas eletrônicas. As pesquisas de opinião sobre o governo seguem ruins e as pressões pelo impeachment podem continuar. Resta ver se o novo titular da Casa Civil conseguirá contornar esses temas.

O dia foi marcado pela divulgação de PIBs do segundo trimestre em diferentes países (já comentado no texto de abertura), e a percepção era até positiva, mas a Amazon e outras empresas chamaram realizações e jogaram os mercados no campo negativo. A China, por sua vez, admitiu que a recuperação econômica está instável e desigual e que segue sendo necessário apoiar com liquidez empresas de pequeno e médio porte. A SEC (a CVM americana) também paralisou o registro de IPOs por lá, colocando mais estresse no mercado.

Nos EUA, depois do PIB de ontem crescendo 6,5% (menos que o previsto, mas ainda assim bom), hoje tivemos o anúncio da renda crescendo 0,1% em junho e gasto com consumo positivo em 1%. Já o deflator de preços do consumo (PCE) de junho subiu 0,5% e, na comparação anual, 4%, com núcleo em 3,5%. O índice ISM da atividade de Chicago subiu para 73,4 pontos em julho, bem melhor que a previsão de 64,1 pontos, e a confiança do consumidor de Michigan de julho caiu para 81,2 pontos, mas a previsão era de 80,8 pontos. Os mercados quase não reagiram.

Não reagiram muito por conta de declaração do presidente do FED regional de St. Louis, defendendo a redução de compras de ativos a partir do fim de setembro. Já o FED de NY anunciou hoje compras de títulos conhecidas como repo reversas, em montante superior a US$ 1 trilhão, o maior valor diário até aqui.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) disse ter detectado 132 países já com a variante Delta, com aumento da doença nas ultimas quatro semanas, mas, felizmente, sem ampliação de óbitos. Na visão da organização, o contagio deve atingir 200 milhões de pessoas, mesmo com a subnotificação. No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em NY, mostrava alta de 0,33%, com o barril cotado a US$ 73,86. O euro era transacionado em queda para US$ 1,186, e notes americanos de 10 anos com taxa de juros em queda (proteção) para 1,23%. O ouro e a prata com quedas na Comex, e commodities agrícolas com fortes quedas na Bolsa de Chicago. O minério de ferro, negociado em Qingdao, na China, registrou perda durante a madrugada de 7,39%, com a tonelada em US$ 181,57, afetando as empresas brasileiras ligadas ao setor.          

No segmento doméstico, o IBGE anunciou dados da PNAD contínua do trimestre encerrado em maio. A taxa de desemprego ficou em 14,6%, com população desocupada de 14,7 milhões e 75,8 milhões de inativos. A renda média real de maio encolheu 3,22% na comparação com igual trimestre de 2020. Faltou trabalho para 32,9 milhões de pessoas e foram registrados 29,8 milhões de empregados com carteira assinada. O IBGE teve direito a comentário de Paulo Guedes dizendo que está na idade da pedra lascada.

Aliás, o ministro da economia, em entrevista no RJ, disse ter fumaça no ar (sem especificar) sobre a necessidade de gastos inesperados de R$ 25 bilhões ou R$ 30 bilhões para o novo Bolsa Família turbinado, podendo reabrir o orçamento de 2022. Já o Bacen anunciou o déficit primário de junho em R$ 5,2 bilhões, o déficit do governo central de R$ 58,1 bilhões, algo como 1,34% do PIB. O déficit nominal de junho (inclui juros) foi de R$ 75,6 bilhões, no semestre de 150,6 bilhões e em 12 meses em R$ 589 milhões, cerca de 7,36% do PIB. A dívida bruta atingiu R$ 6,73 trilhões, caindo para 84% do PIB.

No mercado, dia de dólar em alta de 2,95%, encerrando cotado a R$ 5,22. No segmento Bovespa da B3, na sessão de 28/07, os investidores estrangeiros sacaram recursos no montante de R$ 888,7 milhões, deixando o saldo negativo de julho em R$ 7,1 bilhões, mas com o ano positivo em R$ 40,9 bilhões.

No mercado acionário, dia de queda da Bolsa de Londres de 0,65%, Paris com -0,32% e Frankfurt com -0,61%. Madri e Milão com quedas de 1,26% e 0,60%, respectivamente. No mercado americano, dia de Dow Jones com -0,42% e Nasdaq com -0,71%. Na Bovespa, mercado fechando com queda de 3,08% e índice em 121.800 pontos.

RESUMO DA SEMANA

BOVESPA: -2,60% (MÊS -3,94% E ANO +2,33%)

DOW JONES: -0,35%

NASDAQ: -1,07%

DÓLAR: +0,19% (R$ 5,22)

PETRÓLEO WTI: US$ 73,86 (+2,54%)

Bom fim de semana!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais