Qualquer coisa que se faça no país acaba sempre no STF, no TCU ou descobrem que é inconstitucional. As coisas não andam muito em função disso, e um ex-ministro chegou a exemplificar que eles fazem tudo certo e, na hora de apertar o botão, nada acontece. Como se diz, sempre há alguém para incorporar soluções simples para problemas complexos, mas quase sempre errados. Assim vamos vivendo.

O presidente não ajuda muito a clarear essa situação, muito na linha do Chacrinha, que dizia que “se complicando vai, para que simplificar”. Na ânsia de proteger seus amigos próximos e filhos, acaba por se expor a situações que a oposição sempre aproveita. Podemos citar as mudanças na polícia federal, os imbróglios da “rachadinha” com sua família, as declarações diárias e quase sempre intempestivas, o orçamento secreto e a postura com relação ao clima. Tem sempre “um rabo” para a oposição pisar e declarar ser inconstitucional e/ou passível de processo de impeachment.

O mais novo lance foi deflagrado com a consulta de levar o bispo e ex-prefeito Crivella a ser embaixador do Brasil na África do Sul, para atender ou satisfazer seu amigo e chefe bispo Macedo. Isso, mesmo conhecendo todos os problemas políticos e com a justiça de Crivella. Além disso, Bolsonaro mistura religião com política, o que podemos estender para declarações pretéritas de nomear para o STF um grande evangélico em vez de um nome de peso da advocacia geral.

O orçamento secreto, sendo verdade, também traz enorme constrangimento. Partidos de oposição deram entrada no STF para barrar a distribuição de benesses e pedindo total disclosure do que teria sido feito com os tais R$ 3 bilhões, coisa que o TCU também já tinha feito e, com isso, quem sabe, ter mais alguns pedidos de impeachment do presidente pendurados no Legislativo.

O presidente ora quer governar com o parlamento, ora quer se juntar ao povo. Nesse vai e vem, acaba que não andamos e as munições gastas viram festim. Para governar em harmonia com o Legislativo, é preciso ser condescendente e oferecer recursos para programas, quase sempre assistencialistas. Para governar com o povo, é preciso mostrar resultados inequívocos na economia e em programas sociais perenes.

Com o orçamento engessado em quase 95%, resta muito pouca margem de manobra para ceder ainda mais aos parlamentares, além de observar o teto de gastos, a LRF (lei de responsabilidade fiscal) e a regra de ouro de não se endividar para cobrir despesas correntes. Já para o povo, é preciso reduzir a taxa de desemprego, fazer a economia crescer, ter bons programas de renda mínima, casas populares, crédito barato e abundante com consistência temporal, entre outras coisas.

Exposto dessa forma, acabamos andando em círculos e misturando tudo, o que compromete a visão retilínea que já deveria estar traçada para o período de pandemia e suas ondas, mas, principalmente, o que fazer quando toda essa complicação for acabando. Nos falta a visão de futuro e sobram discursos canhotos sobre meio ambiente e clima, matéria na ordem do dia dos países mais desenvolvidos, exatamente aqueles com recursos para investir no Brasil, mas um Brasil com “pegada” alinhada às preocupações globais.

Precisamos mudar o discurso e trocar pessoas no governo por outras sintonizadas com o mundo. Precisamos fazer reformas, mas também saber como executá-las com o processo eleitoral já totalmente antecipado. Precisamos ajudar os invisíveis, mas essas ajudas temporárias acabam sempre sendo definitivas num país que gasta muito com a pandemia e tem questões fiscais severas para serem resolvidas.

Quase ia esquecendo da crise hídrica, uma vez que o governo diz que não haverá racionamento, mas o acionamento da bandeira vermelha nível 2 por um bom tempo vai mexer com empresas intensivas em energia e com a população pagando contas altas e, provavelmente, assumindo os “jabutis” colocados na MP da capitalização da Eletrobras com as térmicas a gás.

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do banco modalmais