Sempre que começa um novo ano surgem alguns questionamentos inevitáveis e, neste 2021, com ainda maior razão, dadas todas as incertezas provocadas pela pandemia que assolou o mundo e mudou completamente a expectativa de desempenho dos setores de atividade e das empresas negociadas em Bolsa.

 

O mercado acionário estaria ainda barato ou caro? Há espaço para maiores altas em 2021? Quais os setores mais convidativos para investimento? Depois de a Bovespa contrair quase pela metade com a pandemia, saindo de perto de 120.000 pontos para quase 60.000 pontos, houve também forte recuperação, chegando mesmo a vazar a casa dos 125.000 pontos, para voltar recentemente para a faixa de 120.000 pontos novamente.

 

Algumas empresas e setores registraram movimentações ainda mais fortes. Outro fato curioso foi a atuação dos investidores locais via operações direcionadas diretamente para a Bovespa, fundos multimercados e fundos de ações, fazendo a recuperação inicial, enquanto investidores estrangeiros sacaram fortemente recursos durante quase todo o ano, só retornando (e também de forma forte) no último trimestre de 2020, estendido aos primeiros dias desse mês de janeiro. Até 13/01, os investidores estrangeiros já tinham alocado liquidamente R$ 16,55 bilhões.

 

Bom, e o espaço para 2021? Antes de entrar diretamente nisso, algumas considerações precisam ser feitas. Aparentemente, a vacinação massiva das populações em países tende a arrefecer a pandemia ao longo dos próximos meses, com destaque para o segundo trimestre/semestre. O Brasil está bem mais atrasado nisso. A liquidez internacional tende a permanecer ainda por muitos meses ou anos com taxas de juros ainda muito baixas ou negativas, antes que bancos centrais comecem a enxugar os mercados e governos a encerrar estímulos fiscais.

 

Aqui tudo é um pouco mais complicado dada a situação frágil do quadro fiscal, atraso na imunização, disputas políticas acentuadas e falta de planejamento de mais longo prazo. Como tenho insistido, o governo precisa endereçar melhor o que fará em termos de quadro fiscal, observância do teto de gastos, auxílio emergencial ou bolsa família turbinada, privatização PEC do pacto federativo, reformas estruturantes, macros regulatórios factíveis e segurança jurídica; dentre outras coisas. Portanto, existem muitas incertezas e perguntas a serem respondidas, todas praticamente levadas para depois das eleições para a Câmara e Senado, enquanto outras, inevitavelmente adiadas para os próximos anos, tendo em vista que a janela para medidas de impacto vai terminar lá para outubro, já que depois estaremos discutindo a sucessão presidencial com muitos meses de antecedência.

 

De qualquer forma, mercados de risco operam olhando para o futuro e projeções têm de serem feitas. Então, vamos a elas. Aparentemente, o segmento de varejo já precificou anteriormente e a alavancagem pode ter ficado mais restrita, exceto por uma ou outra empresa mais eficiente do setor. Portanto, a escolha terá que ser criteriosa. Empresas ligadas ao segmento de commodities parecem ser boas alternativas, por conta das exportações, moeda real desvalorizada e mercado internacional ávido por compras de proteínas, celulose e papel e minerais, com preços em alta. Além disso, algumas das empresas representativas têm tradição de serem boas pagadoras de dividendos, até acima do rendimento da renda fixa. Podemos listar Vale, JBS e Marfrig, Suzano, e mesmo Petrobras. O setor financeiro também se mostra como atrativo dando tração para a recuperação com espaço para as instituições mais tradicionais e outras mais agressivas ou em via de IPOs. O mesmo se passa com o setor de construção civil e sua retomada, onde despontam empresas como Cyrela, Eztec e MRV, essa num segmento mais popular. Podemos falar também de setor que estão em processo de consolidação como saúde e educação, cujo desempenho e sinergias podem ser capturados. Atenção também para as empresas ESG, com compromisso ambiental social e econômico, pois devem ser privilegiadas.

 

Falamos disso, mas atenção! Estamos tratando de mercados de risco que exige cuidado na seleção e comparação relativa das alternativas. Portanto, se você não sabe selecionar ou não tem tempo, busque estudar ou se assessorar com quem sabe, ou ainda aplicar seus recursos com que tem boa tradição de gestão.

 

Uma coisa é certa: o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário. Ou ainda, fica rico quem poupa e investe, e não exatamente quem trabalha muito e gasta tudo.

 

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do Banco Digital modalmais