O último pregão da semana mostrou a Bovespa na contramão dos principais mercados do mundo, que conseguiram ter mais um dia de alta expressiva, com direito a novos recordes de pontuação do Nasdaq e S&P. Uma explicação pode encontrar eco na performance de queda do minério de ferro na China, que acumulou perdas de 9% na semana, e no petróleo, que passou boa parte do dia no negativo, afetando as ações da Vale, siderúrgicas e Petrobras.

Apesar disso, a maior explicação reside no ambiente político interno instável durante toda a semana e no que pode surgir ainda durante o fim de semana. Isso sim tem feito mais preço para os ativos locais, mesmo considerando que o Congresso Nacional está em recesso, e que boa parte da equipe palaciana falou muito durante todo o período, nem sempre na direção correta, como o comunicado do ministro da Justiça. Há ainda as mudanças já conhecidas em ministérios e os eventuais anúncios.

O dia foi de divulgação de indicadores PMI da atividade de indústria e serviços no mundo, com uma parte já analisada no comentário da manhã, mas, nos EUA, o indicador da indústria subiu para o recorde histórico de 63,1 pontos, vindo de 62,1 pontos. Porém, os serviços encolheram para 59,8 pontos, caindo de 64,6 pontos; mas ainda assim mostrando boa expansão. A secretária do Tesouro, Jante Yellen, pediu que o Congresso americano aprove logo a alta do teto da dívida de forma ordenada, para que não haja paralisação de algumas atividades do Estado. Além disso, Biden quer aprovar o pacote de infraestrutura bipartidário ainda na próxima semana.

O grupo do G-20 (maiores economias), em cúpula do clima, reafirmou o Acordo de Paris e reconheceu a ligação entre clima e energia. A OMC (Organização Mundial do Comércio) registrou que os serviços globais retrocederam 9% na comparação do primeiro semestre com igual período de 2020. Já o Banco Central da Rússia elevou a taxa básica de juros em +1%, para 6,5%.

No mercado internacional, o petróleo WTI, negociado em NY, oscilou bastante entre positivo e negativo, operando quase estável em alta de 0,17%, com o barril cotado a US$ 72,03. O euro era transacionado também próximo da estabilidade em US$ 1,177, e notes americanos de 10 anos com taxa de juros de 1,302%. O ouro e a prata tinham quedas na Comex, e commodities agrícolas com viés mais para positivo na Bolsa de Chicago. O minério de ferro, transacionado em Qingdao, na China, teve semana ruim e fechou com nova queda de 0,64%, com a tonelada já em US$ 201,33.

Aqui, o IBGE divulgou o IPCA-15, uma prévia da inflação oficial de julho em desaceleração para 0,72% (anterior em 0,83%), maior que a mediana das previsões dos analistas, acumulando alta de 4,88% no ano e de 8,59% em 12 meses. Por dentro dos números, citamos preços livres em alta para 0,65% (de 0,55%), e administrados em queda de 0,90% (anterior em 1,74%) e índice de difusão também em queda para 62,4% (de 65,67%). Isso não muda muito as expectativas de alta da Selic de 0,75% na reunião da próxima semana, mas abre espaço maior para elevação de 1%.

Sachsida, da equipe de Paulo Guedes, disse que vão “passar a faca” no Sistema S e tirar dinheiro deles, mas garante que o orçamento de 2022 vai respeitar o teto de gastos. O presidente Bolsonaro também admitiu que o voto impresso não tem apoio do Congresso e enviou projeto para alterar a LOA (Lei Orçamentária Anual) para permitir a abertura de crédito suplementar. Aliás, uma das preocupações dos investidores é com relação exatamente aos gastos, depois da arrecadação ter vindo maior que o prevista.

Cabe lembrar que a confluência de situações positivas (comparação com fraco período anterior, inflação aumentando receitas e preço das commodities) pode não seguir assim nos próximos períodos, já que os problemas de desequilíbrio do Brasil não mudaram muito. Além disso, o Brasil tem um passado de que quando a situação melhora, há um descanso natural e os gastos aumentam, até por conta das eleições que estão batendo à porta. Há ainda a crise hídrica, que pode retardar a recuperação econômica, e a greve dos caminhoneiros, que o governo projeta como um movimento isolado, mas assusta.

No mercado, dia de dólar fechando estável e cotado a R$ 5,21, novamente com volatilidade. No segmento Bovespa da B3, os investidores estrangeiros na sessão de 21/07 alocaram recursos no montante de R$ 509,1 milhões, deixando o saldo negativo de julho em R$ 4,95 bilhões, mas com o ano de 2021 ainda bem positivo em R$ 43,06 bilhões.

No mercado acionário, a Bolsa de Londres fechou com alta de 0,85%, Paris com +1,35% e Frankfurt com +1,00%. Madri e Milão também com altas de respectivamente 1,11% e 1,29%. No mercado americano, o Dow Jones com alta de 0,68% e Nasdaq com +1,04%. Na Bovespa, dia de -0,87% e índice em 125.052 pontos.

A próxima semana está lotada de indicadores com capacidade de alterar o comportamento dos mercados e também a continuidade da safra de balanços, inclusive aqui. Além disso temos que estar sempre em alerta para as questões políticas domésticas.

RESUMO DA SEMANA 

IBOVESPA: -0,72%

DOW JONES: +1,07%

NASDAQ: +2,83%

DÓLAR: +1,95%

PETRÓLEO WTI: +0,63%

Bom fim de semana!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais