O mercado secundário de ações no Brasil tem mais um dia de contramão em relação à alta observada em outros mercados importantes do exterior. Começamos com altas nos mercados da Ásia durante a madrugada, passamos por fechamentos positivos na Europa (exceção para Madri) e chegamos ao mercado americano positivo durante todo o dia, com novos recordes de pontuação. Aqui, começamos em queda e lá ficamos. Com isso, o Ibovespa voltou a ficar negativo no ano de 2021 em quase 2%. Podemos fazer ideia do que pode acontecer se os mercados externos entrarem em tendência de baixa. Enquanto isso, o maduro mercado americano mostra valorizações da ordem de 20%.

Hoje, começamos o dia tendo que reverberar o risco fiscal e inflacionário que pressiona o câmbio e DIs, que acaba ficando mais claro no mercado acionário. Além disso, investidores teriam que avaliar a aprovação do texto-base da reforma do Imposto de Renda, que, como disse Marcos Cintra, hoje acaba sendo traição e deslealdade com o povo. No cenário externo, mesmo com a alta do mercado acionário, investidores se resguardam da contaminação pela covid-19 e expectativa com payroll americano, que sai amanhã.

No exterior, o BOJ (BC japonês) tem alguns membros que defendem passos ousados na política monetária e maior compra de bônus. Na China, o governo renovou o compromisso em estimular a atividade e alguns minerais subiram, como o cobre, por exemplo. Já o BCE (BC europeu) começa a discutir pequenas reduções na compra de PEPPs (pandemic emergency purchase programme).

Nos EUA, o saldo da balança comercial de julho mostrou déficit menor em 4,3%, para US$ 70,05 bilhões, de previsão de ser US$ 70,9 bilhões. Já os pedidos de auxílio desemprego da semana anterior encolheram 14.000 posições para 340.000, quando o esperado era 345.000. Pedidos continuados encolheram 160.000 para um total de 2,75 milhões (defasado mais uma semana). Encomendas à indústria cresceram 0,4% em julho. Ainda nos EUA, o presidente Biden se disse feliz com a decisão da OPEP+ de estender a oferta de 400.000 barris por mês até dezembro.

Na Índia, a contaminação pela covid-19 e variante Delta foi a maior em mais de dois meses. No mercado internacional, o petróleo WTI teve dia de boa recuperação em NY, subindo mais de 2% para terminar o dia com +1,73% e barril cotado em US$ 69,78. O euro era transacionado em alta para US$ 1,187, e notes americanos de 10 anos com taxa de juros de 1,29%. O ouro e a prata com quedas na Comex, e commodities agrícolas com desempenho de alta na Bolsa de Chicago. O minério de ferro teve mais um dia de queda em Qingdao, na China, com -0,98% e a tonelada cotada em US$ 142,02.

No segmento doméstico, o IBGE divulgou a produção industrial de julho em contração de 1,3%, pior que o esperado, mas no ano mostra alta de 11% e, em 12 meses, com +7,0%. Bens duráveis foram os vilões, com queda de 2,7%, afetados por descompassos na cadeia produtiva. Bens de capital ficaram com alta de 0,3%, mas tivemos o segundo mês seguido de queda, que acumula -1,5%. Houve recuo em 19 de 26 atividades.

Já a CNI (Confederação da Industria) anotou queda no faturamento real em julho de 0,4% e a Fenabrave reportou queda das vendas de veículos de 5,5% em agosto, o pior desempenho para o mês em 16 anos. As vendas de motos caíram 7%. Já a arrecadação de royalties da mineração até agosto foi de R$ 6,6 bilhões e supera todo o ano de 2020. Paulo Guedes criticou setores beneficiados por desonerações que só lutam por manter subsídios.

No âmbito político, a Câmara começou a votar os destaques da reforma do Imposto de Renda e, como combinado, aprovou a redução do imposto sobre dividendos para 15%, em vez dos 20% colocados no texto base. Mesmo assim, os investidores ficaram ressabiados e a Bovespa cedeu mais. Há ainda muitos jabutis na árvore (se estão lá, foi por enchente ou mão de gente), dessa reforma (ou tartaruguinhas como disse Paulo Guedes), não existe simplificação e todos os problemas persistem. Resta ver o que o Senado fará diante do que está ocorrendo na Câmara agora.

No mercado, dia de dólar operando novamente com viés de queda para fechar em -0,19% e cotado a R$ 5,18. No segmento Bovespa da B3, na sessão de 31/08, os investidores estrangeiros alocaram recursos no montante de R$ 160,5 milhões, fechando o mês de agosto com entradas de R$ 7,35 bilhões e o ano também com ingressos de R$ 47,01 bilhões.

No mercado acionário, dia de alta da Bolsa de Londres de 0,20%, Paris com +0,06% e Frankfurt com +0,10%. Madri em queda de 0,11% e Milão com alta de 0,20%. No mercado americano, o Dow Jones com +0,37% e Nasdaq com +0,14%. Na Bovespa, dia de queda de 2,28% e índice em 116.677 pontos. Nem mesmo a forte alta do petróleo foi capaz de tirar a Petrobras do negativo, além de bancos penalizados pelas mudanças do IR e desbancarização.

Na agenda de amanhã, teremos a divulgação de PMI de serviço e composto para diferentes países (incluindo Brasil) em agosto, as vendas no varejo da zona do euro em julho e, nos EUA, o payroll com criação de vagas no conjunto da economia, taxa de desemprego e indicadores PMI e ISM de agosto.

Boa noite!

Alvaro Bandeira
Economista-chefe do banco digital modalmais