Não é novidade para ninguém que a Petrobras sempre esteve no foco de todos os últimos presidentes da República, e quase sempre pelo lado negativo. Fazendo um sobrevoo nisso, diríamos que o presidente FHC terminou com o monopólio da companhia e seu sucessor surfou na onda do pré-sal e desenvolvimento do segmento de óleo e gás no país, mas começaram também os saques na companhia. A gestão da presidente Dilma foi caótica, mudando o regime dos leilões de campos e com saques ainda maiores (lembram da refinaria de Pasadena?). No final de seu mandato, a empresa estava quase quebrada. Dilma e seu ministro trapalhão seguraram os preços internos dos derivados com objetivo de manter a inflação baixa e reduzir artificialmente a taxa de juros básica.

Lembramos que o mesmo motivo que teoricamente sacou Roberto Castello Branco da presidência da empresa, já tinha provocado a saída do presidente anterior Pedro Parente, em função da convergência perversa de petróleo em alta no mercado internacional, e dólar valorizado em relação ao real.

Não sabemos os motivos que levaram Bolsonaro a “demitir” o presidente da Petrobras na última sexta-feira, 19/2. Porém, avaliando a gestão de Castelo Branco e seus diretores, diríamos que foi bastante positiva. Nessa passagem, a empresa ajustou seu balanço para impairment (Parente também havia atuado), reduziu nível de alavancagem e endividamento, focaram a empresa nas áreas em que é mais competitiva (prospecção e extração, principalmente em águas profundas), registrou ganhos de produtividade, contrariou números de empresas externas, atuando com quadro de pessoal.

Ou seja, atuaram diligentes na gestão de uma empresa que tinha sido sistematicamente canibalizada. Desconhecemos se houve desinformação entre Bolsonaro e Castello, lembrando também o episódio ainda não ultrapassado com o presidente do Banco do Brasil na virada do ano. A imprensa especula sobre a empresa ser acionada para fazer anúncios em redes ligadas ao presidente, mas não podemos apurar isso.

O fato que centramos aqui, é que vinha sendo bem gerida e obtendo resultados para os acionistas, inclusive a própria União. Nesse ponto, cabe lembrar que a Petrobras é uma empresa com ações espalhadas no mundo e no mercado local e o Conselho de Administração e Diretoria deve prestar contas a todos os acionistas sem interferência do controlador, quando a gestão for positiva, como de fato era.  Vamos esquecer também algumas manifestações que circulam nas redes de associação dos engenheiros da empresa. Onde estavam esses senhores enquanto a empresa era vilipendiada? Essa técnica de desconstrução já funcionou com Moro, Mandetta, Teich; e outros que foram afastados do governo.

Só que agora, a repercussão internacional é enorme. Os investidores começam a questionar países emergentes endividados, quando as taxas de juros começam a mostrar sinais de que podem subir. Certamente, diante dessa atitude, o prêmio de risco para investir e/ou emprestar ao Brasil se elevou, claramente prejudicando toda a economia, empresas, emprego e ajuste fiscal. O dólar que o Bolsonaro se disse incomodado pode ampliar alta, e os juros subiram. Além disso, todo o processo de ajuste e de reformas fica um pouco contaminado, assim como outras demandas importantes e até a autonomia do Bacen.

A situação ainda é muito recente e os mercados ficaram “irritadinhos”, como fala Bolsonaro. Mas também vai prejudicar o ingresso de recursos externos no país capitalizando empresas, as vendas de refinarias que estavam sendo negociadas e capitalização de empresas, no geral, que poderiam ajudar a reduzir o elevado desemprego e a qualidade baixa do emprego. Sem contar a possibilidade de processos abertos no exterior contra a empresa por investidores que se sentirem prejudicados.

Isso nos faz lembrar um ditado que diz: “devagar com o andor que o santo é de barro”.

 

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do banco digital modalmais