Os investidores locais e internacionais em ativos brasileiros podem estar se sentindo como em um piquenique à beira do vulcão, diante de tantas situações de desencontros nas informações no nosso país. Enquanto o governo teima em divulgar informações de que a economia está acelerando e a recuperação ocorre em formato de “V”, a leitura dos investidores é que temos e teremos muitos problemas à frente a serem sanados para que isso possa ser possível de acontecer.

Há enorme preocupação com o quadro fiscal em deterioração. Só para lembrar, o déficit estimado oficialmente para 2020 é de R$ 895 bilhões, podendo ser maior, quando antes da pandemia era de R$ 124 bilhões. Há enorme imobilismo no andamento e na aprovação das reformas tributária, administrativa e do pacto federativo; que seriam fundamentais para colocar a casa em ordem, mas aparentemente inexiste um endereçamento claro do que se pretende e de que forma isso será atingido no futuro. Reforma tributária fatiada, administrativa sem mexer nos servidores atualmente existentes, sem alterações em cargos comissionados em todas as esferas do poder público.

Igualmente, embora não seja a situação que resolverá definitivamente o problema do déficit, as privatizações e concessões também estão emperradas. Eletrobrás que seria a mais importante não anda e os Correios não são lá tão importante, pois o setor privado está dando seu jeito. Não resolve porque isso seria episódico e finito, e o Brasil precisa é de reformas estruturantes. No mesmo balaio, podemos colocar os marcos regulatórios que ainda geram dúvidas e questionamento legais e não agregam segurança jurídica para os investidores de mais longo curso e principalmente os estrangeiros que poderiam estar aportando capital e tecnologia.

Para sermos realistas, é claro que temos mostrado recuperação em muitos indicadores como vendas no varejo (serviços nem tanto), produção industrial, nível de atividade exportações, etc. Porém, temos que lembrar que saímos de níveis extremamente baixos. Por exemplo, a produção automotiva está vindo de praticamente zero e a indústria que, como um todo, teve forte encolhimento. Ok, a agricultura segue bem, e novos recordes devem ser atingidos nessa safra 2020/21, segundo previsão do IBGE.

Nossa dívida que no começo do ano estava pouco acima dos 75% do PIB, hoje se encontra em 88,8%, e pode atingir acima de 95% do PIB, e se algo desandar pode ir a 100%, o que para um país emergente e desequilibrado é extremamente alto. Junte a isso que, no primeiro quadrimestre de 2021 teremos que quitar ou rolar mais de 15%, um montante na média de R$ 643 bilhões. Os investidores têm pedido juros mais altos para títulos com vencimentos de médio e longo prazo, o Tesouro não tem concordado e feito operações mais curtas. Portanto, mesmos com expectativas inflacionárias abaixo das metas traçadas, temos tido alguns problemas de rolagem. Os estrangeiros que no passado detiveram mais de 20% de toda nossa dívida, hoje mal passam dos 9%.

Outro ângulo de visão indica que mesmo com o dólar no patamar em que está, acima de R$ 5,60, os investidores estrangeiros seguem sacando recursos. Mesmo com a Bovespa atrasada em relação a outros mercados, só em 2020 já saíram liquidamente algo como R$ 87 bilhões, sendo que em 2019 já tinha encerrado negativo em R$ 44,5 bilhões. Os investimentos diretos no país (IDP) ainda cobrem com folga o déficit em conta-corrente, mas é preocupante a queda demonstrada no último mês de agosto. A saída pelo canal financeiro de nosso fluxo cambial está em US$ 52,2 bilhões, pouco equilibrado pelo canal de exportações, mas com saídas líquidas até 9/10 de US$ 18,5 bilhões.

Enquanto isso, muitos querem que os auxílios emergenciais sejam prorrogados e sem especificar de onde virão os recursos. O mesmo acontece com a desoneração da folha de pagamentos e o programa Renda Cidadã. Muitos já são aqueles que querem que o teto de gastos seja vazado e sem esforços na contenção de despesas. Se for assim, estaremos no caminho célere para o downgrade pelas agências de classificação de risco, o que pode nos tornar temporariamente esquecidos pelos investidores externos. Na contramão de quase todos os países que estão buscando estímulos fiscais, aqui temos a solução fácil de ampliar a tributação.

Torcemos pela clarividência de nossos três poderes, numa questão que se apresenta como urgente. Como diria aquele ministro do passado: “Para problemas complexos, existem soluções simples e todas sempre erradas”.

 

Alvaro Bandeira

Economista-chefe e sócio do banco digital modalmais