A questão política local está complicando bastante a recuperação da economia e também dos mercados de risco por aqui, sujeitos a grande volatilidade diária e eventuais mudanças bruscas de sinais. Três fatores maiores preocupam: a CPI da Covid, as reformas que ninguém sabe como serão encaminhadas (tributária e administrativa) e as novas situações que surgiram no final da semana passada.

Comissões de inquéritos no país sempre trouxeram muitos ruídos e poucas conclusões, mas essa é diferente, pois lida com mais de 400 mil mortes e a suspeita negacionista levantada de que o governo atrasou a compra de imunizantes e insumos para fabricação de vacinas, foi negligente com uso de máscaras e isolamento social e ainda provocou aglomerações. Além disso, muitas críticas sobre antecipar movimentos óbvios de kits de intubação e suporte hospitalar.

Já sobre reformas, na semana passada, tivemos a dissolução da comissão da Câmara e a ideia de fatiar a reforma tributária, colocando a Câmara e o Senado meio que em rota de colisão, o que só atrapalha o avanço. Essa postura de fatiar a reforma tem a oposição da área fiscal e, além disso, deixa todos sem a visão do todo de como seria, atrasando decisões presentes e futuras de investimento. Certamente, seria mais fácil de ser aprovada, mas haveria sempre uma “espada de Dâmocles” sobre a cabeça dos investidores, principalmente aqueles com horizontes mais dilatados para retornos. Entraria em conflito com a segurança jurídica necessária.

As novas situações que surgiram se referem ao noticiário do fim de semana, que pode ter desdobramentos na retomada dos trabalhos no parlamento a partir de terça-feira. A mídia passou a denunciar um orçamento paralelo de cerca de R$ 3 bilhões em 2020, no Ministério do Desenvolvimento Regional, para apoiar parlamentares da base do governo, apelidada de “tratoraço”, com compras superfaturadas de equipamentos e maldosamente assemelhada ao conhecido escândalo dos “anões do orçamento”.

Tudo isso junto já seria mais que suficiente para provocar enormes ruídos na imprensa oficial, sempre criticada por Bolsonaro. O presidente, conhecido por ser “pavio curto”, passou ao ataque para tentar tirar o foco da CPI, mas parece ter errado a mão e, com isso, acirrou posições antagônicas. Voltou a criticar governadores e prefeitos sobre o fechamento de estabelecimentos, defendeu tratamento precoce contra a covid-19, falou do exército nas ruas e da possibilidade de decreto para acabar com o isolamento (alegando Artigo 5º da constituição), citou a xaropada e CPI enchendo o saco, aglomerou, andou de moto com garupa (Luciano Hang, da Havan) e sem equipamento de segurança, criticou a metodologia do IBGE sobre desemprego e soltou portaria permitindo aumento de salário para reservistas e servidores inativos.

Além disso, teria permitido o inchaço da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco) para acomodar indicações do centrão que domina a empresa. Tudo isso pode ocasionar desdobramentos nas próximas semanas e deixar os investidores ainda mais nervosos, o que limita o ingresso de recursos pelo canal financeiro, muito embora siga forte o superávit da balança comercial.

Como temos afirmado, somos totalmente a favor do entendimento entre os três poderes para dinamizar a aprovação de reformas e iniciar a reconstrução eficiente do Brasil junto a investidores locais e estrangeiros. Daqui de nossa tribuna, nos limitamos a narrar os fatos como foram colocados, mas torcemos pela paz do país e por decisões no sentido de dar melhor perspectiva de vida para as gerações que virão. Queremos que o Brasil e os brasileiros de hoje comecem a preparar o país para voltar ao rumo do progresso. Isso não é pedir muito.

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do banco modalmais