A pandemia provocada pelo coronavírus mudou muito a situação das empresas e setores espalhados pelo mundo, trazendo fortes desequilíbrios que terão de ser resolvidos quando a situação de contágio estiver mais clara. Alguns setores foram fortemente afetados, enquanto outros souberam encontrar caminhos; outros, ainda, até se beneficiaram da crise global.

Olhando para Brasil, esse quadro parece idêntico em termos de desequilíbrio setorial, falta de insumos e componentes afetando e barrando o aumento da produção, ainda que para recomposição de estoques. As empresas também usaram estratégias diversas.

Aquelas que tinham bom potencial para se capitalizar fizeram isso (algumas empresas exatamente no tempo certo), enquanto outras aproveitaram juros baixos em todo o mundo e no segmento local para tomar dívida e passar a crise com certa tranquilidade. Citamos empresas de varejo conseguindo capitalização e Petrobras tomando recursos de dívida para proteger seu caixa e fluição dos negócios.

A Economatica e o Estadão elaboraram um estudo sobre grandes empresas de capital aberto no Brasil e chegaram à conclusão de que a ampliação do endividamento já vinha ocorrendo bem antes da pandemia, apesar de ter se acelerado na crise. Segundo o levantamento, feito com 239 empresas que divulgaram resultados do primeiro trimestre — e sem contar na amostra com Vale e Petrobras, que distorceriam os dados pelo tamanho —, houve ampliação sistemática.

De dezembro de 2011 a março de 2021, o volume total de empréstimos pulou de R$ 486 bilhões para R$ 1,21 trilhão, com aumento de 149,6%. Se descontada a inflação, ainda assim teríamos expansão de 66,7%. Em relação ao patrimônio líquido das empresas, a dívida chegou a 115,4% em março último, e em 2011 era de somente — se podemos classificar assim — 75,9%. Se incluída na amostra Petrobras e Vale o endividamento em março seria de R$ 1,7 trilhão.

Tem um ditado que diz “feliz é quem tem dívida”, pois é sinal que tem crédito. Ou seja, não necessariamente o aumento do endividamento é uma coisa ruim, desde que seja para ampliar o negócio de forma eficiente e melhorar retornos. Também podemos citar que, mesmo antes da pandemia, já notávamos o processo de consolidação em alguns setores da atividade produtiva e serviços, em segmentos como varejo, saúde e educação; processos de fusão e incorporação; e ainda nas concessões, o que sempre acarreta alguma dívida.

Porém, algumas empresas se abraçaram em dívidas para manter o negócio aberto, o que pode ocasionar problemas no futuro. Lembramos uma estatística recentemente divulgada pelo IIF — Institute of International Finance — que computou o endividamento global em US$ 289 trilhões, mas encolhendo no primeiro trimestre em US$ 1,7 trilhão, enquanto a dívida de países emergentes cresceu em US$ 11 trilhões, indo para US$ 86 trilhões. Destacamos que Brasil e Argentina, por motivos diversos, reduziram o endividamento externo. Isso representa 60% do PIB global, e antes da pandemia estava em 52%.

Portanto, a preocupação primeira é, sim, com o tamanho da dívida do mundo, que terá de ser ajustada, e com taxas de juros subindo no futuro. Contudo, mais que isso, preocupa o endividamento de países e empresas que foram feitos para passar pela crise e sem compromisso com o uso eficiente, que certamente mais para a frente terão problemas para quitar débitos ou mesmo quebrar.

A sorte é, ao que tudo indica, que os juros ainda levarão algum tempo para começar uma escalada mais sólida de ampliação, com a redução de estímulos monetários e fiscal. Ainda daria tempo de muitos tentarem adequar ou fazerem fusões. No entanto, processos de falências no futuro parecem ser inevitáveis.

É torcer para que os principais bancos centrais tenham capacidade de avaliar corretamente cada um dos momentos e agir de forma bem gradual para evitar uma nova crise que, aí sim, seria financeira e não de saúde pública.

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do Banco Digital modalmais