A semana foi marcada por uma agenda cheia de eventos, aqui e no exterior, com capacidade de mexer com os mercados. Além disso, no plano internacional, dois temas se destacaram, com as pressões diplomáticas entre os EUA e a China, e as discussões no Congresso americano (ainda sem acordo) para mais uma rodada de estímulos fiscais. Aqui, dados de conjuntura sendo anunciados e plano político conturbado, desta vez, sem a participação do presidente Bolsonaro.

No plano externo seguiram as pressões dos EUA contra a China no campo diplomático, depois das acusações de espionagem feitas por membros do governo americano, incluindo Donald Trump. O mesmo mostrou intenção de banir dos EUA as plataformas TikTok e WeChat, dando prazo de 45 dias para que isso aconteça, e que a Microsoft defina interesse em adquirir o negócio.

Apesar disso, prosseguiram as pressões sobre as empresas de tecnologia chinesa, e com os órgãos reguladores querendo enquadrar as empresas em regras dos EUA. Trump também criou outra frente de conflito ao sobretaxar produtos de alumínio com origem no Canadá, com resposta imediata canadense de que vai retaliar cada dólar que for cobrado adicionalmente.

Já sobre o novo pacote de estímulos fiscais, existia a expectativa que a situação tivesse resolução rápida, no início da semana, mas até o final do período não havia sido resolvido, com Trump ameaçando baixar diretriz executiva em 7/8, caso os Republicanos e os Democratas não cheguem a um consenso. Assim como no Brasil, o presidente americano quer desonerar impostos da folha de pagamentos. Junto com o presidente vieram muitos dirigentes regionais do FED, com discurso sobre a importância que novo pacote seja lançado para proteger empresas e manter a recuperação da economia. Kudlow, assessor econômico de Trump, declarou que os Democratas não estão interessados em acordo e o governo prepara redução de impostos.

Também durante a semana tivemos a decisão do BOE (BC inglês) sobre política monetária, mantendo juros estabilizados em 0,10% e compra de ativos no montante de 745 bilhões de libras. A decisão veio dentro do previsto, mas o tom do comunicado foi mais duro que o previsto, mesmo considerando que ficou expresso que podem flexibilizar mais e até adotar juros negativos. O banco central da Índia também manteve política monetária inalterada, com juros em 4%.

O período foi de divulgação de indicadores de atividade PMI e ISM para diferentes países ao longo de julho e, como regra geral, quase todos novamente acima dos 50 pontos, o que indica expansão da atividade. Em boa parte, isso acabou responsável por gerar tom otimista entre os investidores, mesmo com os problemas citados. O PMI industrial da Alemanha subiu para 51 pontos, na zona do euro para 51,8 pontos e no Reino Unido para 53,3 pontos. Até o do Brasil subiu para 58,2 pontos, vindo de anterior em 51,6 pontos. Mesmo caminho foi seguido pelos indicadores de serviços e compostos. Isso suscitou revisões de PIB para um patamar melhor em diferentes países.

A semana mostrou alguns dados de conjuntura importantes. Nos EUA, o Payroll, a criação de vagas no conjunto da economia americana em julho, abriu 1,76 milhão de vagas, acima do que estava sendo projetado de 1,5 milhão, com declínio da taxa de desemprego para 10,2%, vindo no mês anterior de 11,1%. Os investimentos em construção de junho registraram encolhimento de 0,7% e as encomendas à indústria cresceram 6,2% em junho, de previsão de +4,5%. O déficit na balança comercial encolheu 7,5% para US$ 50,7 bilhões.

Falando em saldo da balança comercial, a China informou que teve superávit em julho de US$ 62,3 bilhões (anterior em US$ 46,4 bilhões), fruto de exportações maiores em 7,2% e importações com contração de 1,4%. Na Alemanha, o superávit comercial de junho foi de 14,5 bilhões de euros, com exportações maiores em 14,9% e importações com +7%. Ainda na Alemanha, a produção industrial cresceu pelo segundo mês seguido em 8,9% (previsão era +7,8%), mas no comparativo com igual período encolheu 11,7%. Lá, as encomendas à indústria cresceram 27,9% em junho, de previsão de somente +11%.

Durante o período, o ouro prosseguiu com rali de alta e com a onça-troy acima de US$ 2 mil, o minério de ferro na China também seguiu em alta forte e o petróleo oscilou bastante com a decisão da Arábia Saudita de reduzir preços para algumas regiões e corte de produção previsto no Iraque. Além disso, tivemos o grave acidente da explosão no porto de Beirute.

No segmento local, o lado político esteve conturbado durante toda a semana, permeado por discussões sobre a reforma tributária encaminhada pelo ministro Paulo Guedes. O presidente Bolsonaro por mais uma semana não foi protagonista de confusões. As confusões ficaram por conta de algum destempero de Paulo Guedes em live internacional, ao criticar posturas sobre desmatamento. Paulo Guedes seguiu afirmando que não vai elevar a carga tributária, que vai cortar despesas drasticamente em 2021 e que no final desse mandato o país estará crescendo entre 3,5% e 4%.

O Senado trouxe tensão aos mercados, e em especial ao mercado financeiro, ao aprovar o texto-base da limitação dos juros do cheque especial e rotativo do cartão de crédito até o final do ano, o que segundo a Febraban, vai desequilibrar o mercado e promover contração do crédito. O texto ainda será submetido a Câmara que pode não aprovar. O lobby segue forte em Brasília. Preocupação também com o déficit primário e teto de gastos, que sofre pressões para ser abandonado, desconsiderando obras e investimentos em infraestrutura. Além disso, o centrão, com quem o presidente vinha negociando apoio, começa a esfacelar, com o DEM querendo ressurgir e dificultando aprovação de projetos do governo.

Na economia, o saldo da balança comercial de julho mostrou superávit de US$ 8,06 bilhões, atingindo no ano US$ 30,38 bilhões, com a projeção da pesquisa Focus estimando superávit para o ano de US$ 55 bilhões. O IBGE anunciou que a produção industrial de junho expandiu 8,9%, mas em 2020 com queda de 10,9%. Houve avanço em 24 de 26 atividades consideradas. O IBGE também anunciou dados da PNAD contínua do trimestre encerrado em junho com a taxa de desemprego subindo para 13,3%, com a população ocupada declinando em 8,9 milhões, taxa de informalidade em 36,9% e extinção de 2,9 milhões de trabalho com carteira assinada. A expectativa é que a taxa de desemprego atinja o ápice ao final do ano com 16%.

Já o Copom, como previsto, reduziu a taxa Selic em 0,25% para 2%, e deixou uma fresta aberta para eventualmente reduzir mais, mas também alertando que o espaço agora é muito pequeno. A posição majoritária é que em setembro a taxa deve ser mantida estável, já que juros reais estão negativos.

A inflação oficial de julho foi medida pelo IPCA subiu para 0,36% (anterior em 0,26%), acumulando em 2020 +0,46% e em 12 meses com 2,31%. Foi a maior taxa para o mês desde 2016, mas foi pressionada pelos preços administrados, e sem pressão de demanda. Também destacamos que na semana, o BNDES fez a maior operação de block-trade da história com ações da Vale, envolvendo recursos de R$ 8,1 bilhões. Isso mexeu, inclusive, com as estatísticas de ingresso de recursos de investidores estrangeiros. Em três pregões do mês de agosto já ingressaram recursos no montante de R$ 3,2 bilhões, mas o saldo líquido do ano de 2020 está negativo em R$ 81,7 bilhões.

Ao longo da semana, foram divulgados resultados da Vale, Petrobras e Itaú referentes ao segundo trimestre, afetando pontualmente às três maiores participações do Ibovespa.
Indicadores da semana
IBOVESPA -0,13% (102.775)
DOW JONES +3,80%
NASDAQ +2,46%
DÓLAR +3,83%(R$ 5,42)

Perspectivas

O próximo período ainda será de intensa expectativa com alguns vetores importantes. No plano internacional, o cenário básico permanece sendo de avaliar a expansão da segunda onda da covid-19, cortejado com as expectativas de desenvolvimento de vacinas e maior isolamento social, caso as contaminações sigam aumentando. Porém, outra vertente será o possível consenso entre democratas e republicanos sobre novo pacote fiscal, ou decisão isolada prometida por Trump.

Também vai fazer preço nos ativos as pressões diplomáticas contra a China e Hong Kong, e eventuais desdobramentos, inclusive com possibilidade de retaliação canadense à imposição de tarifas ao alumínio pelos EUA. A semana também irá contemplar a divulgação de indicadores de inflação nos EUA e muitos discursos de dirigentes regionais do FED.

No âmbito local, vamos precisar avaliar as pautas do Congresso Nacional e a possibilidade de votarem sobre os vetos presidenciais para desoneração da folha e extensão de auxílios emergenciais. Certamente teremos mais ruídos sobre a reforma tributária, e vai ser decisivo para ver se o governo está conseguindo formar uma base de apoio mais sólida.

Do ponto de vista da análise técnica, estamos no meio do caminho entre perder o patamar de 100 mil / 98 mil pontos, ou ganhar faixa acima de 104 mil pontos, quando o mercado pode se firmar e tentar galgar projeção para 108 mil pontos.

Bom final de semana!

Alvaro Bandeira

Economista-Chefe do banco digital modalmais