A semana ultrapassada, como prevíamos trouxe postura mais proativa dos investidores em todo o mundo, a partir, principalmente, da aceleração do processo vacinal em todo o mundo, mesmo com alguns países ainda vacinando pouco e, outros, com problemas de suprimentos de imunizantes para dar sequência. O período também foi marcado por mais farmacêuticas solicitando autorização emergencial, o que agrega boas perspectivas. Já pelo lado dos indicadores de conjuntura divulgados no período ficou a sensação de que mais deve ser feito em termos de políticas, monetária e fiscal, para apoiar a recuperação econômica global.

Aqui, o lado político acabou predominando com eleições para às duas casas do Congresso Nacional, mensagem do presidente e o início do ano legislativo. As declarações do presidente da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, soaram como música para os investidores em termos de reformas e compromisso de dar sequência a pauta, mas também trouxeram insegurança quanto a abrangência das reformas e velocidade de aprovação. Também tivemos alguns sustos que terminaram bem (Petrobras e responsabilidade fiscal) e os indicadores de conjuntura com leve viés positivo.

Refletindo tudo isso, os mercados reagiram com comportamento mais para o positivo, com novos recordes históricos de pontuação para o S&P e Nasdaq nos EUA, e a Bovespa retornando ao patamar de 120.500 pontos (ainda sem grande fixação), como tínhamos previsto e retorno consistente de investidores estrangeiros nos primeiros dias do mês de fevereiro.

No cenário externo, e no que tange ao processo vacinal, vá foi possível identificar que a quantidade de pessoas vacinadas já supera o de contaminados e, em alguns países, já é possível identificar redução no número de hospitalização e também em óbitos. Países já começam a preparar flexibilização de restrições, principalmente nas escolas, mas seguem preocupados com novas cepas do vírus detectadas em diferentes países e regiões. Destaque para Portugal que colapsou sua estrutura de atendimento exportando doentes para serem tratados em outros países. Porém, se projetado para os próximos meses, a situação pode ser mais suavizada pela disponibilidade de imunizantes e controle da pandemia. A OMS (Organização Mundial da Saúde) destaca que 75% das vacinas aplicadas se restringem a somente 10 países.

A semana foi marcada pela divulgação de indicadores PMI em diferentes países para o mês de janeiro, e, como tônica geral, houve desaceleração e contração das atividades, tanto industrial, como de serviços e composta. Vários países mostraram indicadores abaixo de 50 pontos, o que evidencia contração da atividade. Podemos citar desaceleração na China, Japão, países da zona do euro e também no Reino Unido; muitos em lockdown parcial. Destaque positivo quase que somente para os EUA, em patamar recorde.

Isso originou declarações de formadores de opinião e de dirigentes de bancos centrais sobre a necessidade de novas rodadas de estímulos, notadamente fiscal, por conta da perda de renda, principalmente nas pequenas empresas. O BCE (BC europeu) também destacou que mudanças climáticas podem impor severa ameaça à estabilidade financeira. Christine Lagarde, presidente do BCE, tem insistido muito nisso. Também citamos todas as tratativas feitas por Joe Biden e sua equipe para ampliar o estímulo fiscal o mais perto possível daquela proposta de US$ 1,9 trilhão. A secretária do Tesouro, Janet Yellen, acrescenta que os benefícios na recuperação econômica seriam maiores que os riscos do estímulo.

Ao longo da semana, nos EUA, tivemos a divulgação do Payroll de janeiro com a criação de vagas nos setores público e privado, com a criação de somente 49 mil vagas, aquém do previsto e com dirigentes do FED dizendo que o desemprego real é maior que o mostrado, havendo espaço incremental. O saldo da balança comercial americana em dezembro mostrou déficit de US$ 66,6 bilhões, a taxa de desemprego caiu para 6,3% e o salário médio por hora trabalhada, em base anual cresceu 5,38%. Lá, as encomendas à indústria tiveram expansão em dezembro de 1,1%, quando o esperado era +0,7%. Os investimentos em construção de dezembro com +1%, de previsto em +0,8%.

Na zona do euro, a taxa de desemprego ficou estável em dezembro em 8,3%, vendas no varejo com expansão de 2% e o PIB do quarto trimestre em contração de 0,7% e queda anual de 5,1%, menor do que estava sendo prevista. Na Itália, o PIB teve queda de 2% no quarto trimestre e contração em 2020 de 6,6%. Aliás, na Itália, depois da dissolução do gabinete de Conte, Mario Draghi (ex-BCE) tem chance de se tornar primeiro-ministro, mas tem até o final de semana para confirmar coalizão.

O banco central da Austrália manteve a taxa de juros básica estabilizada em 0,10% e prorrogou a compra de ativos. Já o BOE (BC inglês) manteve a política monetária estabilizada, com juros de 0,10% e compra de ativos de 895 bilhões de libras e estimou contração do PIB de 4% em 2020 e perspectivas incertas. O BCE estendeu operações de swap com sete bancos centrais da Europa até março de 2022, e disse impossibilidade de atuar sobre dívidas dos países da zona do euro.

No segmento local, o lado político foi dominante com abertura do ano legislativo e inúmeras declarações e reuniões. Bolsonaro relacionou nos encontros que teve com os novos presidentes de Câmara e Senado 35 prioridades (demais, não), mas o Congresso vai se concentrar na reforma tributária e administrativa, PEC Emergencial e pacto federativo, o que já seria excepcional, dependo da rapidez e profundidade. Mas, no congresso, a expectativa para isso é de seis ou oito meses para aprovação, com prioridade para formatação da CMO (Comissão Mista do Orçamento), com instalação na próxima semana. Houve, de fato, muitas dúvidas sobre a real vontade de que isso ocorra, juntamente com a privatização da Eletrobrás, elencada por Bolsonaro.

Bolsonaro e Paulo Guedes afiançaram que não vai ter carga aumentada de impostos, e receberam do Congresso o ônus de terem que indicar cortes de gasto para manter o teto estabelecido, já que o Congresso quer a extensão do auxílio emergencial. Bolsonaro e Paulo Guedes também indicaram a não interferência na fixação de preços pela Petrobras e querem mexer na carga e/ou dar maior previsibilidade para o ICMS cobrado, podendo reduzir também PIS /COFINS, para satisfazer os caminhoneiros. O que se espera é convivência harmônica entre os poderes e proatividade e aceleração das reformas e ajustes.

O IBGE anunciou a produção industrial de dezembro com expansão de 0,9%, e, contra igual período de 2019 +8,2%, no teto das projeções e com destaque para bens capitais com alta no mês de 2,4% e queda em 2020 de 9,8%. Nos últimos oito meses, houve expansão da produção industrial de 41,8%, mas isso não muda muito a percepção de desaceleração para o primeiro trimestre de 2021. Houve muita recomposição de estoques, a base de comparação baixa, inflação e dólar afetando o setor de alimentos, junto com a redução do auxílio emergencial.

O saldo da balança comercial em janeiro foi negativo (déficit) em US$ 1,12 bilhão e o fluxo cambial de janeiro foi positivo em US$ 2,8 bilhões, sendo que pelo canal financeiro, ingressaram US$ 3,6 bilhões. Bancos terminaram janeiro vendidos em câmbio em US$ 33,2 bilhões, a posição cambial líquida estava em US$ 288 bilhões e a base monetária do final do mês estava em R$ 406,9 bilhões.

Na Bovespa, até o último dia 3/2, os investidores estrangeiros tinham alocados recursos no montante de R$ 702,9 milhões, deixando o saldo do ano de 2021 positivo em R$ 24,3 bilhões. A safra de balanços do quarto trimestre também mexeu bastante pontualmente com o preço das ações e Petrobras e Vale com grande oscilação em função do bom resultado de produção anunciado e negociações acertadas com o governo de MG sobre acidente em Brumadinho com indenização de R$ 37,7 bilhões.

Indicadores da Semana

Bovespa +4,48% (120.240)
Dow Jones +3,89%
Nasdaq +6,01%
Dólar R$ 5,38 (-1,57%)

No final da semana, a Bovespa conseguiu superar rapidamente o patamar de 121 mil pontos de seu principal índice, tendo como instrumento de fôlego a demonstração de entendimento entre Executivo e Legislativo, e a disposição inicial de dar sequência na pauta de prioridades estabelecidas. Também podemos citar o processo de vacinação ganhando musculatura e já tendo vacinado mais de 3 milhões de pessoas. É muito pouco ainda, mas temos que considerar nossa expertise em vacinação, mas ainda sem poder contar com doses suficientes para sermos mais rápidos.

No cenário externo, ao processo vacinal também vai ganhando corpo, mas permanecem dificuldades para países mais pobres obter imunizantes. Além disso, países desenvolvidos preocupados com novas cepas do vírus surgidas, que podem adiar a retomada das economias. Mas, com vacinas tudo parece melhorar. Apesar disso, o vetor mais importante passa a ser mesmo o pacote fiscal americano que Biden deseja aprovar com bipartidarismo, em montante próximo de US$ 1,9 trilhão, com cheque cidadão adicional de US$ 1.400 e aumento do salário mínimo para US$ 15 por hora. É esperado que, em duas semanas, isso possa ser votado no Congresso americano.

Aqui, além de sermos influenciados por isso, vamos ter o impacto da safra de resultados do quarto trimestre, e por todo o noticiário político sobre reformas e ajustes, ninguém arrisca muito o que pode sair e nem em que prazo. O que sabemos é que a janela para aprovação é curta, e deve estar fechada lá pelo mês de outubro, sobretudo para as questões mais polêmicas que envolvam a população, já que, por essa hora, estará entrando no foco a sucessão presidencial e estadual.

É nesse contexto de volatilidade que podemos ter realizações de lucros, e a proximidade do vencimento de derivativos agrega mais oscilações. Todavia, entendemos que o ambiente ficou um pouco mais favorável e a Bovespa pode almejar o objetivo na máxima já alcançada em 125.323 pontos, mas vamos precisar de bons mercados no exterior e fluxo continuado de recursos de estrangeiros na Bovespa. Não deveríamos perder mais o patamar pouco acima dos 118 mil pontos, sob pena de acelerar realizações.

Bom final de semana!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais