A semana ainda foi positiva para os mercados de risco no mundo, como consequência da enorme liquidez global, e do prenúncio de ainda maior liquidez decorrente de novos estímulos no Japão, Europa e a novela do pacote fiscal americano. Os investidores reduziram a aversão ao risco por conta do início de imunização das populações de países mais desenvolvidos, e foram as compras em ações, com índices batendo recordes no Japão e EUA, e na Bovespa quase zerando as perdas do ano em índice batendo acima de 115000 pontos, como vínhamos projetando. Aqui, o Congresso voltou a trabalhar depois de passado o segundo turno das eleições municipais, mas, por enquanto, sem aprovar medidas substantivas, e basicamente liberando recursos escassos.

A segunda onda de contaminação pelo copvid-19 seguiu grassando no mundo, com países importantes como os EUA e a Alemanha batendo recordes de contágio e também de óbitos. Isso ensejou declaração consternada da primeira ministra alemã Angela Merkel e mais medidas de restrição de contato em diferentes países, além de lockdown parcial em regiões. Isso também aflorou a necessidade de novos estímulos fiscais e monetários na tentativa de evitar nova desaceleração ou duplo mergulho em economias.

Tanto isso é verdade que o BCE (BC europeu) em sua reunião de política monetária havida na semana optou por manter juros estabilizados, mas ampliou o QE (quantitative easing), engrossando a compra de títulos em 500 bilhões de euros, indo para i,85 trilhão de euros e estendeu prazos de compra de títulos e de refinanciamento. Na sequência, Christine Lagarde fez menção que o fundo de r3ecuperação da região deve ser operacional rapidamente, coro engrossado por Merkel. Também falou em maior flexibilidade para ordenar compras de títulos, e pode ir recalibrando ferramentas.

Outra situação difícil flagrada durante o período foram as marchas e contramarchas no pacote fiscal americano e o Brexit. O pacote fiscal virou uma novela sem fim, onde Republicanos e Democratas não conseguem chegar a um acordo. Num momento pacote vai sair, e em outro não. Pelo menos durante o período os Republicanos pediram uma votação bicameral e bipartidária para aprovar estímulos de US$ 908 bilhões, e as últimas notícias indicam boas chances de sair, mas sem precisar data.

Já sobre o Brexit temos a mesma novela. Vamos ter acordo, seguido de notícias de que não haverá. Durante a semana se falou em controle de fronteira, área de pesca, medicamentos, carnes etc.; mas logo em seguida tivemos notícias sobre divergências profundas relatadas pela União Europeia, seguida de declarações do primeiro ministro britânico Boris Johnson de que possivelmente não haveria acordo, ou não haveria acordo ainda em 2020. O presidente do BOE, por conta disso falou que o sistema financeiro está preparado para Brexit sem acordo.

Na semana ainda tivemos as questões diplomáticas entre a China e os EUA, envolvendo também Hong Kong. Acões de 21 empresas chinesas não terão mais acompanhamento do índice S&P, chineses restringiram viagens de autoridade americanas a Hong Kong, sanções contra chineses e também sanções contra a Turquia endossadas pela União Europeia, por provocações no mar Mediterrâneo. Tudo isso constou do cardápio da semana e trouxe forte oscilações em commodities e mercados acionários e dólar fraco no mercado internacional em muitos dias. Destaque para alta do petróleo em algumas sessões e destaque absoluto para o minério de ferro nas negociações Qingdao, incorporando sequência de 10 pregões de alta e a tonelada do minério vazando para cima a cotação de US$ 160.

Em termos de indicadores, as exportações chinesas cresceram 21,1% em novembro, as importações com +4,5% e superávit na balança comercial crescendo para US$ 75,4 bilhões, vindo de anterior em US$ 58,4 bilhões. Segundo o PBOC (BC chinês), as reservas cambiais estavam em US$ 3,18 trilhões, engordando US$ 51,8 bilhões em novembro. Lá a inflação medida pelo CPI de novembro desacelerou para 0,5%. No Japão foi anunciado um pacote de estímulos de 73,6 trilhões de ienes, e o PIB do terceiro trimestre expandiu 5,3%, com taxa anualizada de 22,9%. Na África do SUL o PIB cresceu à taxa anualizada de 66,1%, e na zona do euro o PIB do terceiro trimestre teve aumento de 12,5%, mas no ano ainda encolhe 4,3%.

Na Alemanha, o superávit na balança comercial de outubro foi de 18,2 bilhões de euros, fruto de exportações crescendo 0,8% e importações com +0,3%.  A produção industrial de outubro cresceu 3,2%, quando o previsto era alta de 1,5%. A deflação pelo CPI foi de 0,8% em novembro e taxa anual também em deflação de 0,3%. No Reino Unido a produção industrial encolheu anualizada 5,5%, de previsão de -6,6%.

Nos EUA os pedidos de auxílio desemprego da semana atingiram 137000 posições para 853000 pedidos, quando o esperado era que ficasse em 730000. A inflação medida pelo CPI (consumidor) de novembro foi de 0,2%, assim como o núcleo, perfazendo inflação anual de 1,2% e núcleo de 1,6%. O PPI (atacado foi de 0,1% e núcleo igual.

No cenário doméstico, passada as eleições municipais de segundo turno, os parlamentares voltaram ao trabalho e deram algum adianto em votações pendentes. O senado aprovou a nova lei do gás, mas com mudanças, retirando do texto base as térmicas inflexíveis e tendo que voltar para votação na Câmara. A Câmara votou o exto-base sobre o Fundeb com a divisão de recursos entre os Estados e o Congresso marcou votação da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentária) para o próximo dia 16/12, e seria muito positivo se fosse aprovada, pois liberaria o Tesouro para execução.

Já a divulgação do relatório da PEC Emergencial ficou para o início de 2021, o que gera atraso significativo de matéria importante. Temos que considerar ainda que com o STF proibindo as candidaturas de Alcolumbre para o Senado e Rodrigo Mais para a Câmara, o processo volta à estaca zero, e daqui até fevereiro vai gerar muito ruído e barganhas. Rodrigo Maia falou grosso nessa semana contra o governo dizendo ter “ livro de 3 volumes” com promessas da equipe econômica e dizendo querer votar os temas realmente importantes. Já Bolsonaro disse que a pandemia está no “finalzinho”, quando a contaminação e óbitos cresceram, e o ministério da Saúde não tem a menor ideia sobre vacinas, com baixa disponibilidade para compras, o que deve atrasar muito a imunização.

Na economia, o IBGE anunciou as vendas no varejo de outubro com alta de 0,9%, contra igual período de 2019 com +8,3%. O varejo ampliado expandiu 2,1% no mês e 6,0% contra igual período. A expansão dos últimos seis meses foi de 32,9%, mas em 12 meses ainda mostra contração de 1,4%. Também anunciou o volume de serviços prestados em outubro com +1,7% em outubro e +15,8% nos últimos 5 meses seguidos de crescimento. Em 12 meses tem contração de 6,8% e ainda estamos 16,6% aquém do pico ocorrido em 2014. A inflação oficial de novembro acelerou para 0,89% (anterior em 0,86%)e no ano acumula alta de 3,13% e em 12 meses de 4,31%. O índice de difusão segue alto em 66,8%, e alimentos transportes e habitação foram responsáveis.

O Bacen também divulgou sua decisão sobre política monetária fechando a porta de nova quedas da Selic, e deixando subentendido que pode retira o forward guidance já na reunião de janeiro, abrindo a possibilidade de mexer a Selic para cima logo no início do segundo semestre.  Também anunciou duas operações extras de swap cambial na semana que ajudara a taxa cambial em queda no período, junto com maior fluxo de ingresso.  No mercado acionário, depois de os investidores estrangeiros terem aportado recursos na Bovespa em novembro de R$ 33,3 bilhões, os ingressos seguiram em dezembro e até 09/12 já tinham entrado recursos de R$ 6,54 bilhões, mas com saídas líquidas no ano de R$ 45,0 bilhões, depois de terem atingido quase saídas de R$ 90,0 bilhões. Na B3, o número de pessoas físicas estava em novembro em 3,2 milhões, e o valor de mercado das empresas listadas (407) era de R$ 4,47 trilhões.

INDICADORES DA SEMANA

BOVESPA                           DOW JONES                                   NASDAQ                            DÓLAR

 

PERSPECTIVAS

Vamos começar lembrando que existem muitas incertezas rondando o mundo nesse momento, porém com certo viés para o positivo.  Só lembrando, o pacote americano de estimulo fiscal virou uma novela que não tem mais data para terminar (mas vai acabar saindo), O Brexit é outra encrenca sem resolução e possivelmente não mais em 2020. Há ainda as retaliações mútuas dos EUA e da China, envolvendo agora também Hong Kong, sanções contra a Turquia endossadas pela União Europeia.

Há vacinas que precisam chegar as populações e com todos os problemas de logística, e contaminações recordes e óbitos também em diferentes países. Mais restrições de contato estão sendo impostas lembrando que os frutos do contato social no dia de Ação de Graças estão sendo colhidos agora, e o das eleições municipais por aqui também.

Mas aparentemente existem boas perspectivas para quase todos esses temas elencados (e mais alguns), e permeando tudo isso a liquidez internacional que tende a reduzir a aversão e ampliar o apetite ao risco. Portanto é só uma questão de se ter cautela.

Aqui, o fluxo de recursos canalizado tem feito a diferença e propiciado a recuperação do mercado acionário, quase zerando a conta de 2020. Mas além das incertezas externas temos todas as nossas domésticas, que também indicam prudência. Governo e Congresso terão de serem ágeis em encaminhar e discutir propostas de reformas e ajustes que são duras, num prazo bem curto para sinalizar que queremos acertar o país (?). Mas temos eleições para o Congresso que podem atrapalhar e a vontade mais populista impressa no governo.

Função disso, pensamos que os mercados podem desacelerar um pouco e trabalhar em zona de acumulação entre 113000 e 116000 pontos, semelhante ao que aconteceu de meados de dezembro de 2019 a meados de fevereiro de 2020. Porém, se houver fluxo o objetivo pode ser novamente a faixa de 120000 pontos.

Bom final de semana

Alvaro Bandeira