A semana pode ser encarada como contendo duas fases distintas: Um início forte do período para os mercados de risco, e uma segunda fase de crescimento da aversão ao risco e maior proteção pelos investidores buscando algum refúgio no dólar. Aqui não foi diferente, mas tivemos ruídos importantes na área política e na diplomacia.

Começamos o período tendo que incorporar os resultados das urnas dando vitória a Joe Biden nas eleições americanas, que como tínhamos levantado, os investidores já tinham antecipadamente adotado como novo presidente americano. Porém, também tivemos anúncios de vacinas e medicamentos eficientes no combate a covid-19 e países chegando acordos com farmacêuticas para vacinação massiva das populações. Outro fator importante ficou por conta da recuperação do preço do petróleo no mercado internacional, por conta do ambiente mais favorável para recuperação econômica e decisões da OPEP.

Tudo isso junto acabou produzindo forte alta nos mercados de risco do mundo que entraram num mini rali de alta, mas que na Bovespa produziu seis pregões seguidos de valorização e mais de 10 mil pontos de alta no Ibovespa. Reação semelhante nos mercados dos EUA e principalmente na Europa. Mas ainda assim, o Japão atingiu o patamar do índice Nikkei que não acontecia por 30 anos.

O segundo movimento dos mercados derivou exatamente da covid-19 e da percepção de que a contaminação em segunda onda começava a ganhar dimensões insuspeitas. Nos EUA, por exemplo, a contaminação em 24 horas chegou a superar 144 mil pessoas, com recordes sistemáticos diários, ao mesmo tempo, países como Japão e Coreia do Sul também atingiam recordes, se juntando com diferentes países da Europa. A primeira-ministra da Alemanha (que está em lockdown parcial), chegou a declarar que a segunda onda no país seria pior que a primeira e isso já afeta a economia em novembro.

A transição do governo americano também ficou complicada com a relutância e beligerância de Trump, com a judicialização do pleito e medidas adotadas durante o período. O pacote fiscal que o governo negociava com o Congresso foi passado para o líder do governo, Mitch McConnell, que por sua vez, nunca quis um pacote robusto e isso foi interpretado como maior dificuldade. Trump, em ordem executiva, proibiu americanos de comprar ações de empresas chinesas ligadas ao exército do país e desinvestimentos previstos até novembro de 2021. A China atacou Trump dizendo que era malicioso, abusivo e irracional. Mas as ações caíram forte em Hong Kong na sessão de 13/11.

Joe Biden, apesar das dificuldades impostas por Trump começou a fazer a transição querendo negociar com o Congresso os estímulos fiscais, mas, ao mesmo tempo, fazendo valer diretrizes sobre o meio ambiente.

Nesse aspecto, surgiram notícias de que prepara lista de países com discursos contrários à preservação do meio ambiente e o Brasil pode encabeçar. Aliás, Jair Bolsonaro até hoje não reconheceu o resultado do pleito americano, enquanto Xi Jinping já parabenizou, ainda que de forma tardia.

Durante a semana, formadores de opinião de alto calibre como os presidentes do FED (BC americano), BCE (BC europeu) e BOE (BC inglês) manifestaram suas preocupações e incertezas sobre os efeitos nas economias de uma segunda onda de covid-19 e falaram com ênfase sobre a necessidade de estímulos fiscais especialmente por parte dos EUA. A boa notícia ficou por conta do G-20, decidindo tratamento diferenciado e prosseguimento da suspensão de pagamentos de dívidas.

A semana não foi de divulgação de muitos indicadores de conjuntura. Na Alemanha, as exportações de setembro cresceram 2,3% e o superávit comercial foi de 17,8 bilhões de euros. O índice Zew de expectativas econômicas retroagiu para 39 pontos em novembro e a deflação pelo CPI (consumidor) anual está em 0,2%. Já na zona do euro, exportações com +4,1% e importações com +2,7% redundando em superávit de 24 bilhões de euros, maior que no mês anterior, de 21 bilhões de euros. Lá, o PIB do terceiro trimestre registrou expansão de 12,6%, enquanto Portugal cresceu 13,3%, mas mostra contração anual de 5,7%. A Índia mostrou recessão técnica pela primeira vez em sua história com dois trimestres negativos.

Na China, a inflação anualizada de outubro pelo CPI (consumidor) foi de 0,5%, enquanto o PPI (atacado) com deflação de 2,1%. Novos empréstimos na China ficaram menores que o previsto em US$ 104 bilhões. Nos EUA, a inflação pelo CPI anual foi de 1,2%, com núcleo em 1,6%, ainda sem chegar a meta de 2%, o que garante juros estabilizados por bastante tempo. Os pedidos de auxílio-desemprego da semana anterior encolheram 48 mil posições para 709 mil pedidos e pedidos continuados reduziram 436 mil para total de 6,8 milhões.

O petróleo registrou boa expansão de preços no mercado internacional, com russos e sauditas concordando em manter cortes de produção por mais alguns meses e a OPEP dizendo que pode fazer isso por cerca de três ou seis meses. Mas tanto OPEP, quanto a AIE reduziram expectativas de demanda em 2020, por volta de 9 milhões de barris/dia.

No segmento doméstico, destaque para a postura de Jair Bolsonaro sobre o Brasil ser um país de maricas (se referindo ao tratamento da covid-19), sua relutância em reconhecer Joe Biden e cumprimentá-lo e ainda pelo curto-circuito com o vice-presidente Mourão sobre estudos de expropriação de terras com registros de queimadas, ameaçando demitir quem abordar isso. Já Paulo Guedes falou em privatizações em 2021, inclusive do porto de Santos, na programação somente para 2022, voltou ao tema de contribuição sobre transações digitais para desonerar folha de pagamentos e disse que o Brasil pode crescer mais de 4% em 2021. Antes já versara sobre controle e redução do endividamento.

Pesquisas mostraram que a aprovação de seu governo encolheu, assim como queda nas pesquisas de candidatos em grandes municípios que foram apoiados por ele nas lives da semana. Porém, o que tem tomado tempo e talento de todos é o quadro fiscal, principalmente depois de declarações de Paulo Guedes dizendo que se houver segunda onda de contaminação os auxílios emergenciais serão estendidos.

Rodrigo Maia, presidente da Câmara, quer fazer esforço concentrado pós-eleições e lideranças do governo acham possível que, passada as eleições, possam votar de segunda-feira até sexta-feira matérias pendentes, até o recesso de final de ano. Mas não podemos esquecer que haverá segundo turno em muitas cidades importantes e, além disso, teremos as eleições da Câmara e Senado. Seria bom se isso realmente ocorresse, pois, a corrida do Brasil também é contra o tempo.

Em termos de indicadores de conjuntura, o saldo da balança comercial até a primeira semana de novembro mostrava superávit em 2020 de US$ 49 bilhões de projeção pela pesquisa semanal Focus para o ano de US$ 57,9 bilhões. O IBGE mostrou as vendas no varejo de setembro com expansão de 0,6%, menor que a mediana das projeções de +1,4%. Contra igual período de 2019, +7,3%. O varejo restrito ficou estável e o varejo ampliado mostrou alta de 1,2% e, no ano, contração de 3,6%.

O IBGE também mostrou o volume de serviços prestados em setembro com alta de 1,8%, mas no ano encolheu 8,8%. A receita bruta nominal registrou alta de 2%. O segmento de serviços está demorando mais a engatar alta consistente e com o término previsto do auxílio emergencial pode vir a sofrer mais, assim como o emprego.

Já o Bacen anunciou o IBC-Br de setembro, uma espécie de prévia do PIB com alta de 1,29%, melhor que o previsto, sendo essa a quinta expansão seguida e ficamos 2,5% abaixo do pico de fevereiro. Em 12 meses, ainda temos contração de 3,32%. Divulgou também o fluxo cambial até 6/11, que acumula no ano, saída de US$ 20 bilhões e pelo canal financeiro nesse ano de 2020 já saíram liquidamente US$ 51,5 bilhões. Já a posição cambial líquida estava em US$ 298,8 bilhões.

Dado positivo foi mesmo o volume de alocação de investidores estrangeiros na Bovespa que até 10/11 estava positivo em R$ 15,01 bilhões, mas no ano com saídas liquidas de ainda R$ 69,87 bilhões, mas já esteve próximo de R$ 90 bilhões. O grande ingresso aconteceu em 9/10 e 11/11, com a Bovespa subindo forte.

Indicadores da semana

BOVESPA +3,76% (104.723)
DOW JONES +4,08%
NASDAQ -0,55%
DÓLAR R$ 5,46 (+1,67%)

Perspectivas

A próxima semana reserva a reverberação das eleições municipais, onde o principal vetor estará em avaliar o sucesso de Bolsonaro com candidatos apoiados, já que ele chamou para si essa responsabilidade. Daí deve derivar sua postura no curto prazo.

Visualizamos dois cenários principais para a semana que está começando. O primeiro relacionado ao aumento da contaminação pela covid-19 em países importantes, e um segundo no âmbito doméstico, com as preocupações com a deterioração fiscal, afetada ainda pelos problemas do vírus.

Vamos ter que monitorar a atuação de países e como isso vai afetar a recuperação econômica por maiores restrições de contato social. Além disso, tem o fato relacionado ao pacote fiscal americano que pode não ter tamanho suficiente para acelerar a economia. Lembrando que nesse momento, estímulos fiscais são mais importantes que os monetários, e não são todos os países que possuem alguma folga fiscal.

Já internamente, o fato novo é o ingresso de recursos por parte dos investidores estrangeiros que, se continuar, pode ajudar na recuperação dos mercados e deixar o câmbio mais suave. Mas o movimento mais consistente só visualizamos se o governo expuser claramente o que pretende com reformas, privatizações, teto de gastos, endividamento público, LRF e outras questões que precisam ser endereçadas corretamente.

Olhando do ponto de vista da análise técnica, precisamos ganhar novamente o patamar de 105 mil/ 106 mil pontos do índice para abrir novamente o objetivo de 110 mil pontos. Lembrando que temos vencimento de derivativos na semana e indicadores importantes que serão anunciados.

Bom final de semana!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais