A semana pode ser caracterizada como de grande alternância de comportamento dos mercados de risco em todo o mundo, a partir de uma agenda que foi lotada de eventos importantes com capacidade de mexer com os mercados. O tema recorrente do mercado foi sempre a preocupação com uma segunda onda de contágio pela covid-19, com os investidores oscilando entre o pessimismo de aumento da contaminação, óbitos e desenvolvimento de vacinas e medicamentos.

O acirramento dos ânimos diplomáticos entre os EUA e China também preocupou. Aqui, podemos citar as pressões de grandes investidores estrangeiros sobre a postura brasileira em relação à preservação do meio ambiente, vetos do presidente em itens do marco do saneamento e as discussões começando sobre a reforma tributária.

No que tange ao desenvolvimento de vacinas e medicamentos, a situação foi sempre bem favorável, com pelo menos duas empresas anunciando avanços (Moderna e Oxford) e início de novas fases de testes ainda no mês de julho e em mais de 30 mil pessoas. Porém, isso foi sempre confrontado com expansão do contágio, principalmente nos EUA com sucessivos recordes de fechamentos de regiões, mas envolvendo outros países, com a Índia, Japão e Bulgária. Na Europa, a situação parece mais tranquila. Os mercados reagiram bastante em relação ao noticiário internacional sobre esse tema.

De outra feita, as relações diplomáticas entre os EUA e a China azedaram ainda mais, e principalmente após o Reino Unido ceder às pressões americanas para não adquirir equipamentos da gigante de tecnologia Huawei, a maior na área de 5G. Os EUA seguiram pressionando outros países sobre isso, incluindo o Brasil, que mantem as melhores relações comerciais com a China e com o Congresso querendo participar dessa escolha de tecnologia sem viés político. A China prometeu respostas “calúnias maliciosas”, sem confrontar; ao mês tempo em que os EUA anunciavam novas sanções aos chineses. Mas Trump disse que não pretende aplicar novas sanções e que os acordos comerciais da primeira fase seguem vigorando entre os países.

A semana embutiu a decisão de vários bancos centrais sobre política monetária (Japão, Europa, Canadá, Coreia e outros), com uma parada para avaliação dos efeitos das medidas anteriores. Só a Indonésia é que reduziu a taxa básica em 0,25% para 4%. Apesar disso, houve discurso uníssono de que fariam mais se necessário para reduzir impactos da crise. Christine Lagarde, do BCE (BC europeu), disse que a região ainda precisa de estímulos, que a recuperação se mostra incipiente e incerta. Já Kuroda, do BoJ (BC japonês) disse que se as condições piorarem, poderá voltar a adotar medidas e corte de juros.

Vários dirigentes regionais do FED falaram ao longo da semana com alguns dizendo estarem revendo projeções de indicadores diante da segunda onda da pandemia e advertindo sobre a desaceleração da recuperação. Trump e seus secretários (Mnuchin e Kudlow) falando sobre novos estímulos com alguma divergência de caminhos para tal, e a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, querendo adiar o recesso parlamentar para votar pacote de estímulos no Congresso.

Em termos de indicadores de conjuntura destacamos bateria de dados do mês de junho anunciado pela China. O PIB do segundo trimestre mostrou expansão de 3,2%, a produção industrial cresceu em junho 4,8% (mais que o previsto de 4,4%), mas com vendas no varejo encolhendo 1,8%, de previsão de alta de 0,3%. Os investimentos em ativo fixos urbanos também caíram 3,1% no primeiro semestre e os investimentos externos diretos com alta de US$ 16,7 bilhões em junho, com taxa anualizada de 3,7%. As vendas de imóveis caíram 2,8%. Os dados vieram com comportamento misto e afetaram negativamente os mercados. O superávit da balança comercial de junho foi de US$ 46,4 bilhões (esperado era US$ 59 bilhões), fruto de exportações crescendo 0,5% e importações com +2,5%.

Já nos EUA aconteceu o oposto. As vendas no varejo de junho expandiram 7,5%, de previsão de crescerem somente 5,2%, enquanto os pedidos de auxílio-desemprego da semana encolheram 10 mil posições para 1,3 milhões e pedidos continuados ficaram em 17,3 milhões (defasados em uma semana).

Mas o índice de confiança do consumidor também caiu para 73,2 pontos em julho (previsão era de 77,8 pontos) novamente afetando o mercado. Ainda nos EUA, a semana começou com a divulgação da safra de resultados de diferentes empresas, com leve viés positivo em relação ao que estava sendo previsto. Citigroup, J&J e BofA surpreenderam positivamente, enquanto UnitedHealth e Wells Fargo pelo lado negativo.

No Reino Unido, a produção industrial expandiu 6% (previsão de +7,5%) e na Alemanha o índice Zew de expectativas econômicas caiu para 59,3 pontos em julho, pouco abaixo do previsto, enquanto a inflação pelo CPI (consumidor) de junho foi em alta de 0,9% anualizada. Na zona do euro, esse mesmo indicador subiu para 0,3%. Mais para o final da semana, houve reunião de cúpula da União Europeia, com a primeira-ministra Angela Merkel anunciando que ia ser duro fechar questão na criação do fundo de recuperação para a região.

Fato é que, foi uma semana de grande volatilidade nos mercados do mundo, e não foi somente no segmento acionário. O mercado de câmbio oscilou muito quando avaliamos pelo comportamento do dólar pelo índice DXY, oscilando intra e entre pregões. O petróleo também, diante da possibilidade de a OPEP fazer liberações progressivas de produção, a partir de demanda crescente pela recuperação das economias.

No segmento local, com o presidente Bolsonaro contaminado pela covid-19, o vice Mourão assumiu as funções executivas e teve encontro com grandes investidores estrangeiros que pressionaram o Brasil sobre clima e desmatamento. Mourão deu razão que estavam atrasados na prevenção e ficou de fornecer mais dados. Também ficou proibida queimadas pelos próximos 120 dias. Tais investidores também receberam endosso do presidente da Câmara que se comprometeu com a preservação. Porém, o presidente voltou “a campo” para dizer que o Brasil era uma potência no agronegócio e que a Europa era uma seita ambiental. Também fechou questão na candidatura Trump à reeleição, quando não precisa tomar partido.

A discussão sobre reforma tributária também voltou à baila, com Rodrigo Maia chamando o Congresso para discussão, Paulo Guedes falando em tributar transações do e-commerce em 0,2%, com efeito arrecadador forte e sendo bem criticado por muitos técnicos. Rodrigo Maia, que fez as pazes com o ministro disse não existir ambiente para aprovar qualquer nova CPMF. O presidente do Senado disse que projeto vindo da Câmara sobre a matéria não será votado, e Paulo Guedes disse que vai entregar o projeto de reforma do governo em 21/7, em ato simbólico para Alcolumbre.

Na verdade, os investidores não sabem o que consta do projeto modificado pelo governo, mas a leitura é que pior não pode ficar. Resta ver se teremos alguma forçada da CPMF e tributação de dividendos. Rodrigo Maia também acha possível prolongar a desoneração da folha de pagamentos por mais um ano e Bolsonaro pode ter vetos ao marco regulatório de saneamento derrubado pelo Congresso se não negociar alguma solução. Mas Paulo Guedes deu alento para o mercado com garantia de reformas e privatização.

A área econômica alterou a projeção de indicadores da economia, mas manteve a queda do PIB em 2020 estimada em 4,7%, com o secretário de política econômica Sachsida dizendo que quem fez projeções de queda do PIB acima de 6,5% está fadado ao erro. O saldo da balança comercial até a segunda semana de julho mostra superávit acumulado no ano de US$ 25,3 bilhões, com a projeção da pesquisa Focus semanal do Bacen apontando o ano em superávit de US$ 54 bilhões. O fluxo cambial do ano até 10/7 mostra saída de US$ 14,9 bilhões, a posição cambial líquida estava em US$ 300 bilhões e ganhos com operações em julho eram de R$ 4,2 bilhões (até 10/7).

A semana acabou sendo positiva para o mercado acionário local com a Bovespa voltando aos 102 mil pontos e dólar oscilando muito, mas sem se descolar. Os investidores estrangeiros é que seguiram sacando recursos por todo o período, com saídas em julho (até 15/7) de R$ 5,75 bilhões, e no ano ao nível recorde, saídas líquidas no montante de R$ 82,25 bilhões.
Indicadores da semana
IBOVESPA +2,85% (102.888)
DOW JONES +2,28%
NASDAQ – 1,07%
DÓLAR +1,16% (R$ 5,38)

Perspectivas

Nossa percepção é de que o volume de novos recursos para pressionar o mercado secundário já não está chegando com igual intensidade. Seja por conta do nível mais alto de preços, ou ainda por conta das operações de IPOs e Follow-ons que retiram parte dessa pressão. Os investidores estrangeiros também retiram recursos de forma sistêmica, avaliando ainda os riscos de exposição. Mas o giro de posições segue elevado, com investidores especulando mais e de forma mais arriscada, saindo de ações que já subiram forte e abrindo posição em outras que não subiram tanto, mas sem muita avaliação de risco.

No mundo continuará prevalecendo a percepção dos investidores em relação à nova expansão ou não da covid-19, e também sobre desenvolvimento de vacinas e medicamentos eficazes. Além disso, há que se avaliar os possíveis desdobramentos dos problemas diplomáticos entre os EUA, a China e as pressões exercidas pelos EUA sobre outros países. Um quadro mais suave nesses aspectos pode ensejar a manutenção da recuperação dos mercados.

Aqui, tudo fica um pouco mais complicado por conta da interface entre os três poderes e o encaminhamento de questões relevantes como a reforma tributária vetos e derrubada de vetos do presidente e projetos de como minorar os problemas das contas públicas no pós-crise. A equipe econômica terá que endereçar isso muito bem, sem a qual, a postura dos investidores será de refração.

Também vamos ter que avaliar como se comporta o fluxo de recursos canalizado para o mercado, depois do vencimento de opções. Pela análise técnica, não deveríamos mais perder o patamar de 98 mil pontos do Ibovespa sobe pena de atrasar a recuperação dos preços dos ativos. Do ponto de vista mais otimista, seria muito positivo passarmos as faixas de 103 mil e 105 mil pontos, para mirar objetivo ainda maior em 108 mil pontos.

Bom final de semana!