A última semana plena do ano de 2020 transcorreu em clima de agenda pesada e noticiário com capacidade de mexer com os mercados em todo o mundo, e efetivamente mexeram. Mas as boas expectativas sobre imunização por vacinas autorizadas acabaram prevalecendo, e os indicadores do mercado acionário americano voltaram a bater recordes.

Aqui, se não batemos recorde de pontuação, pelo menos zerando as perdas do ano de 2020. Aqui, ainda pesou o atraso na contratação de vacinas e o quadro fiscal deteriorado, juntamente com declarações políticas sérias e disputas no Congresso nacional. O Congresso, por sua vez, voltou a votar pendencias e a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentária), mas também plantou alguns “jabutis em cima da árvore”, que cabe ao governo vetar.

A semana foi marcada por decisões dos bancos centrais mais importantes sobre política monetária, pela divulgação de indicadores PMI da atividade industrial, serviços e composta, bateria de indicadores de conjuntura da China e outros indicadores em países, mexendo com Bolsas, câmbio e juros. Destacamos ainda que o dólar no mercado internacional permaneceu fraco durante quase todo o período.

No cenário externo, tivemos reuniões de política monetária no FED (EUA), BCE (BC europeu), BOE (BC inglês) e BOJ (BC japonês); além de outros menos votados, como Rússia e México. No geral, nenhum deles mexeu em taxa de juros e de depósito, mas quase todos ajustaram políticas de flexibilização monetária (QE- Quantitative Easing). O FED manteve juros no intervalo entre zero e 0,25%, mas anunciou compra de treasuries adicionais em US$ 80 bilhões/mês, títulos lastreados em hipotecas em US$ 40 bilhões/mês e operações de overnight com taxa zero em montante diário no limite de US$ 30 bilhões. A coletiva do presidente Jerome Powell foi bem suave, mostrando que juros ficarão nesse patamar por bastante tempo e que podem usar de ainda maior flexibilização monetária para apoiar a economia. Aliás, esse foi o tom de todos os bancos centrais.

O BCE ampliou a compra de títulos da pandemia (PEPPs) em mais 500 bilhões de euros para 1,85 trilhão de euros e juros mantidos. O BOE manteve a política estabilizada, bem como o montante destinado para compras, na certa esperando os desdobramentos das negociações dos acordos pós-Brexit entre o Reino Unido e a União Europeia. O BOJ manteve a taxa de depósito negativa em 0,10% e meta de juros JGB de 10 anos em zero, mas ampliou compras de ETFs (Exchange Trade Funds) em 12 trilhões de ienes, aumentou compras de comercial papers e bônus corporativos em 15 trilhões de ienes e estendeu o prazo do programa de empréstimos em seis meses (setembro de 2021) para empresas afetadas pela pandemia.

Como se vê, a liquidez internacional só faz aumentar, deixando muitos recursos sobre as mesas, o que só faz aumentar o apetite ao risco por parte dos administradores de recursos. Isso explica em boa parte a volta de recursos para o mercado brasileiro em novembro e dezembro (até 15/12) e a performance das Bolsas pelo mundo.

Nos EUA, durante toda a semana, os investidores e gestores esperaram por um acordo entre democratas e republicanos sobre o pacote de estímulo fiscal. Mais para o final da semana, aparentemente os dois partidos estavam chegando ao consenso sobre estímulos da ordem de US$ 900 bilhões. Situação semelhante também com relação aos acordos pós-Brexit entre Reino Unido e União Europeia, mas o parlamento europeu deu prazo até 20/12 para definição. O que está pegando mais entre as divergências é a soberania sobre a atividade de pesca.

Semana também de indicadores de atividade PMI em diferentes países, no geral mostrando melhora. No Japão, o índice composto (indústria e serviços) de dezembro encolheu na margem para 48 pontos (ainda em contração), na Alemanha, alta para 58,6 pontos, na zona do euro, alta para 49,8 pontos e Reino Unido subindo para 50,7 pontos. Já a bateria de indicadores da China veio confirmando expansão. A produção industrial de novembro expandiu 7% na comparação anual, vendas no varejo com +5% e investimentos em ativos fixos com expansão em 11 meses de 2020 de 2,6%. As vendas de imóveis até novembro com alta de 9,3%.

Nos EUA, os indicadores anunciados já mostram efeitos dos recordes de contaminação pela covid-19. O índice de atividade industrial de NY em queda em dezembro para 4,9 pontos (anterior em 6,3 pontos), produção industrial de novembro com +0,4% (previsão era +0,2%). As vendas no varejo encolheram 1,1% em novembro, de previsão de queda de 0,3%. Pedidos de auxílio-desemprego também cresceram em 23 mil posições para 855 mil pedidos. A construção de novas residências expandiu 1,2% (previsão era -0,7%) e novas permissões com +6,2%.

O dólar, como dito, se manteve fraco durante todo o período e o petróleo observou alguma melhora, diante do encolhimento dos estoques. Mas o destaque absoluto foi para o minério de ferro, com nova e constante elevação de preço chegando a atingir na última sessão da semana a cotação de US$ 164,34 por tonelada na China, e claro, motivando forte alta das ações da Vale e siderúrgicas por aqui. Destaque ainda para o começo da imunização contra a covid-19, com a distribuição e aplicação de vacinas da Pfizer e Moderna, esperança de todos para recuperação mais acentuada da economia global.

No segmento doméstico, o lado político aflorou bastante, com declarações bombásticas de Bolsonaro sobre não tomar vacina, declarações sobre recursos de Queiroz em conta de esposa, inquérito do filho Flávio injusto. O STF votando sobre obrigatoriedade de vacinas pela população, posse de novo ministro no Turismo, declarações do vice-presidente sobre tecnologia 5G; e por aí vamos. Paulo Guedes e equipe econômica, também falaram em diferentes ocasiões sobre recuperação da economia e principalmente do emprego (zerando perdas até o final do ano) e garantindo manutenção do teto de gastos e reformas.

Já no Congresso, as disputas sobre o comando das duas casas (Câmara e Senado) começaram a acender, com MDB pleiteando candidatura própria para o Senado e muita discussão no entorno do candidato apoiado por Bolsonaro, Arthur Lira. Câmara e Senado fizeram algumas votações e aprovações importantes no período como a LDO de 2021 e texto base do Fundeb que segue para sanção presidencial, mas também colocaram alguns “jabutis na árvore”, como obras do ministério da Integração Regional e brecha para contratações; com o presidente podendo vetar alguma coisa, mas certamente com desgaste.

O período marcou também a divulgação do RTI (Relatório Trimestral de Inflação do Bacen), que veio mais realista da situação da economia, reduzindo queda do PIB para -4,4% (de -5%), piorando o consumo das famílias para -6%, investimento direto no país (IDP) em queda no ano para somente US$ 36 bilhões (de US$ 50 bilhões) e déficit melhor para US$ 7 bilhões, de projeção anterior de US$ 10 bilhões. O RTI corrobora com retirada do forward guidance no máximo em março e início do ciclo de alta da Selic no segundo semestre. Logo em seguida, tivemos coletiva de Campos Neto e Kanczuk, que foram muito próximos do que constava da ata da última reunião do Copom e comunicado.

Porém, as revisões feitas no PIB de anos seguintes mostram um Bacen menos confiante, apesar de indicarem alguma antecipação no ano em curso para justificar. A ata do Copom manteve os termos do comunicado e não mudou muito a percepção dos analistas sobre retirada do forward guidance e expectativa sobre alta da Selic.

O Bacen também anunciou superávit em conta-corrente em novembro de US$ 202 milhões e déficit no ano de US$ 7,5 bilhões. O IDP (Investimento Direto no País) foi de US$ 1,51 bilhão e, no ano, soma 33,4 bilhões, encolhendo bastante nos últimos dois meses. Já o fluxo financeiro até 15/12 estava positivo em US$ 860 milhões e bancos vendidos em câmbio em US$ 29,6 bilhões. O saldo da balança comercial até a segunda semana de dezembro acumulava superávit de US 49,9 bilhões. O IBC-Br do trimestre encerrado em outubro, espécie de prévia do PIB, subiu 6,4% e no mês, 0,86%, mas no ano mostra contração de 4,9%.

No mercado acionário, a Bovespa vazou para cima a faixa de 119 mil pontos, muito em função de altas em bancos, Petrobras, Vale e siderúrgicas e zerou as perdas do ano de 2020. Já os investidores estrangeiros seguiram alocando recursos em montantes elevados, Após investirem liquidamente em novembro R$ 33,3 bilhões, nos primeiros 16 dias de dezembro já alocaram R$ 11,6 bilhões, mas o saldo do ano permanece negativo em R$ 40 bilhões.

Indicadores da Semana

BOVESPA +2,49% (118.003)
DOW JONES +0,46
NASDAQ +3,05%
DÓLAR R$5,083 (+0,43%)

Perspectivas

Na verdade, as próximas semanas serão encurtadas pelos feriados de Natal e Ano Novo, ao mesmo tempo, os investidores vão parando suas atividades e resguardando resultados.

Portanto, seria de se supor menor volatilidade, extensiva também aos primeiros dias do novo ano. Mas 2020 foi diferente, e muita coisa ainda pode acontecer no mundo com relação ao contágio pela covid-19, imunização das populações e expectativa de retomada (ou não das economias). Além disso, novo governo nos EUA e possibilidade de pacote e decisão sobre o Brexit podem ser esperadas. Donde os mercados podem seguir acesos.

Aqui, nada diferente, já que além dos fatores mundiais temos nossos comezinhos problemas que vão interferir no desempenho da Bovespa e principalmente do câmbio. O Brasil está atrasado em termos de garantias para imunizar boa parte da população, mesmo com a MP do governo liberando R$ 20 bilhões para vacinas. Também temos que considerar um mês de janeiro cheio de ruídos sobre sucessão no Congresso e algumas votações que ainda podem ocorrer.

Outro diferencial está relacionado à performance dos investidores não-residentes, que fez a diferença no último mês e meio, alocando expressivo volume de recursos no mercado de risco. Caso esse fluxo continue, temos mercados ainda forte neste final de ano e alguma chance de rali. Porém, nossa suposição maior é de Bovespa lateralizada, com o índice trabalhando em faixa ao redor de 115 mil/118 mil pontos, mas pode chegar até 120 mil pontos sem grande esforço.

Bom final de semana!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais