Semana de largo estresse para os investidores no mundo com os mercados de risco, ressalvando a performance do mercado acionário americano com batimentos de recordes de pontuação. Já no Brasil, a pressão foi ainda maior por conta da preocupação com o quadro fiscal, ausência e demora na chegada das vacinas, e também pelo clima político tenso, que de resto já tínhamos alertado que deveria ocorrer. Isso mesmo considerando que ainda estamos em período de recesso no Legislativo e Judiciário.

O pano de fundo da preocupação global é, sem dúvida, a expansão da contaminação pelo covid-19, suas variantes também surgindo, com infrequente reinfecção, as medidas de restrição impostas por diferentes países, com lockdown em regiões e a necessidade de apoio fiscal, já que as economias não estão se recuperando da forma esperada.

Isso fica claro, por exemplo, quando a Alemanha deixa aberta a possibilidade de contração do PIB no último trimestre de 2020 e primeiro de 2021, ou mesmo quando altera a projeção de crescimento de 2021 de 4,4% para 3,0%. A própria Alemanha está estendendo o lockdown, o mesmo acontecendo com regiões da Inglaterra e também em Portugal.
Já aqui alguns estados estão ampliando restrições, como em São Paulo nos finais de semana, sem contar os problemas da região norte que seguem graves, mesmo depois de maior empenho do governo e setor privado em ajudar.

A expectativa com o efeito vacinas também esvaziou um pouco por conta da vacinação mais lenta que o esperado em vários países, enquanto outros, como Israel, estão adiantados. Agora mesmo nos EUA, Biden acredita ser possível vacinar 100 milhões de pessoas em 100 dias. Mas na China, também temos nova onda do covid-19, justamente quando se aproxima o Ano-Novo e feriado prolongado em 12/02, quando a população teoricamente viaja para as províncias. Os chineses esperam conseguir esforço vacinal até lá para reduzir impacto.

A semana no exterior foi também de decisões de bancos centrais sobre política monetária. O BOJ (BC japonês) manteve a política estabilizada, mas declarou que pode flexibilizar ainda mais na próxima reunião de março, mexendo também na estrutura de juros dos JGBs de 10 anos. O BCE (BC europeu) também manteve a política estável com taxa de depósito negativa em 0,50%, refinanciamento zero e compra de ativos (PEPP) emergencial de 1,85 trilhão de euros. Também disse que pode fazer mais. O Canadá manteve os juros básicos em 0,25%, menor taxa, e a Turquia em 17%, mas podendo apertar a política em próximas reuniões.

Mas não foi só isso. Todos os bancos centrais seguem preocupados com a recuperação das economias de forma desigual e incerta, e dizem que maiores estímulos são requeridos. Podemos escolher Christine Lagarde como porta-voz disso em coletiva ao dizer que a ampliação da pandemia é risco e amplo estímulo se faz necessário para apoiar a economia, e que a ressurgência do covid-19 deve ter levado a economia da zona do euro para contração no quarto trimestre. Aposta na aprovação e rápida implementação do fundo de recuperação para a região. A União Europeia também busca ampliar prazo para ratificar acordo comercial com o Reino Unido.

Os indicadores de atividade PMI de janeiro que foram anunciados na semana também vieram mostrando desaceleração em diversos países. No Japão, o índice composto (indústria e serviços) encolheu para 46,7 pontos, de anterior em 48,5 pontos. Na Alemanha, queda para 57,0 pontos no industrial e composto voltando para 50,8 pontos. Na zona do euro, o composto caiu para 47,5 pontos e no Reino Unido forte contração do composto para 40,6 pontos, quando o previsto era que ficasse em 46,0 pontos. A única alta anunciada foi nos EUA com o industrial subindo para 59,1 pontos e composto em 59,0 pontos. Isso, inclusive, melhorou o mercado americano na última sessão da semana.

Na zona do euro, a confiança do consumidor de janeiro caiu para -15,5 pontos de previsão de -14,8 pontos. No Reino Unido, as vendas no varejo cresceram em dezembro 0,3%, mas a previsão era de +1,5%, deixando a expansão anual em 2,9%. Dados de conjuntura melhores só mesmo na China quando o PIB de 2020 mostrou expansão de 2,3%, com o quarto trimestre mostrando alta de 6,5%, lá as vendas no varejo de dezembro expandiram 4,6%, mas em 2020 tiveram encolhimento de 3,9%. A produção industrial de 2020 expandiu em 2,8% e no mês com +7,3%. A taxa de desemprego ficou estável em 5,2% e investimentos em ativo fixo cresceram 2,9% em 2020.

Nos EUA, tivemos a posse de Joe Biden e Kamala Harris em 20/02, sem a transmissão de cargo por Trump, mas com a carta de praxe para seu sucessor. Biden em seguida lançou algumas medidas, dentre elas, a volta ao Pacto ambiental de Paris e retorno para a OMS (Organização Mundial da Saúde) e suspendeu o oleoduto para o Canadá e a construção do muro na fronteira com o México. Biden também vai apresentar medidas de estímulo fiscal, mas segundo noticiário deve ser menor que a pretendida e sua aprovação pode acontece r somente em março. Trump voou para a Flórida, mas o processo de impeachment aprovado na Câmara vai chegar ao Senado e McConnell pediu semanas para que a defesa possa atuar. De qualquer forma, os investidores reagiram bem ao novo presidente e a forma menos intempestiva de gestão e uso das redes sociais.

No segmento local e na área política, Bolsonaro voltou a dar declarações polêmicas, dizendo que quem define onde o povo vai viver (democracia ou ditadura) são as forças armadas, para logo em seguida dizer que os militares seguem os anseios do povo. Também disse que por sua vontade o projeto de venda de terras para os estrangeiros não vai andar e reforçou que não pretende elevar a carga fiscal do país e fazer reforma tributária em 2021. Ocorre que os candidatos apoiados pelo presidente falaram sobre extensão do auxílio emergencial ou Bolsa Família turbinado. Também disseram não ser a privatização da Eletrobrás prioridade (a ação caiu) e que a rigidez do teto de gastos pode ser relativizada. Isso mexeu negativamente com os mercados e ajudou na escalada do dólar e juros, já que a questão fiscal se deteriora.

Mas o pior ficou mesmo com a logística das vacinas, ou melhor, a ausência de vacinas para aplicar na população. Na prática, durante a semana, só tivemos aqueles 6,0 milhões de doses do Coronavac, com show de vacina proporcionado em São Paulo e Rio de Janeiro. A Índia só disponibilizou no final da semana (2,0 milhões de doses) e o país seguiu sem vacinar minimamente. Rodrigo Maia chegou a manter encontro com embaixador da China para liberar insumos e a imprensa alegando represália em função das declarações de ministros e familiares do presidente contrárias ao país.

Na economia, nessa semana, não se ouviu falar do ministro Paulo Guedes. O Copom manteve a Selic estabilizada em 2,0%, mas retirou a orientação futura (forward guidance) abrindo espaço para elevações futuras dos juros. A discussão fica por conta de fazer isso em março ou mais para a frente, mas o Copom manifestou preocupação com a inflação subjacente em alta e fora da meta, as incertezas reinantes e a necessidade de perseverar em reformas. Aliás, o ex-presidente do Bacen Armínio Fraga disse que governo vai ser reativo a reformas, e que a tributária pode andar um pouco, mas a administrativa não tem apoio.

O saldo da balança comercial até a segunda semana de janeiro estava negativo em US$ 2,63 bilhões e no ano também negativo em US$ 1,57 bilhões. O fluxo cambial até 15/01 estava positivo em US$ 2,91 bilhões, tendo havido entrada pelo canal financeiro de US$ 3,24 bilhões. A posição cambial líquida estava em US$ 287,65 bilhões.
Durante a semana, as ações líderes voltaram a ser pressionadas na venda, e a Bovespa sofreu bem mais realizações que outros mercados, absorvendo os problemas na economia e na política. Mas os investidores estrangeiros seguiram alocando recursos, e até a sessão de 20/01 já tinham ingressado com recursos no montante de R$ 21,62 bilhões.

INDICADORES DO PERIODO

BOVESPA -2,46% (117.380 pontos) DOW JONES +0,59% NASDAQ +4,19 DÓLAR R$ 5,48 (+3,39%)

PERSPECTIVAS
Função do feriado em 25/01 (fundação de São Paulo,) a semana é mais curta na Bovespa e ainda vamos ter que ajustar a precificação de nossas ações ao pregão do dia no exterior que também mostra grande volatilidade. Mas é nossa sensação que o noticiário pode melhor em função da aceleração vacinal no mundo e alguns acertos na política local.

No exterior, o covid-19 e variantes pesquisadas (inclusive a brasileira) seguirão dominando as preocupações de dirigentes e investidores e os mercados tendem a refletir isso. Os investidores também vão ter que se adaptar a forma de Biden governar e as diretrizes que serão levadas a cabo pela nova e competente secretária do Tesouro Janet Yellen (ex-presidente do FED). Vamos ver como caminhará a interação com os republicanos, depois das críticas feitas por McConnell para as primeiras medidas adotadas por Biden, mas se dizendo disposto a trabalhar em conjunto, com bom senso.

Aqui será preciso avaliar como Bolsonaro seguirá reagindo sob pressão, inclusive com o tema sempre lembrado que processo de impeachment, principalmente por sua atuação diante da pandemia. As críticas de parlamentares, empresários e nas redes sociais seguem fortes.

Na semana passada, dizíamos que o mercado não deveria perder o patamar de 119.000 pontos sob pena de precipitar mais, e foi exatamente isso que aconteceu, e passamos rapidamente por isso. Agora, teríamos como zonas de suporte as faixas em 115.000 e 114.000 pontos, que, se forem perdidas, podem sinalizar novamente para a casa de 110.000 pontos. Esperamos que não ocorra.

Bom final de semana.

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais