Numa semana de poucos indicadores sendo divulgados tanto aqui como no exterior, os investidores se fixaram em temas mais ligados à política, diplomacia e também de olho nos processos eleitorais. Porém, o cenário básico continuou a ser o aumento da contaminação pela covid-19 principalmente na Europa. Por aqui, a questão central continuou a ser o quadro fiscal em deterioração, as declarações do presidente Jair Bolsonaro e a inação, já antecipada por nós, do Congresso Nacional.

No segmento externo, o aumento da contaminação pela covid-19 em diferentes países tem tirando o sono dos dirigentes. Há um movimento de restringir o contato social novamente, fala-se em novo lockdown e até se estima que a Alemanha possa ter “duplo mergulho” em sua economia, caso tenha que impor maiores restrições de contato.

Situação semelhante ocorre em outros países e também nos EUA, com recordes de contágio sendo diariamente batidos. Porém, depois de meses lidando com a pandemia, uma segunda onda não causa os mesmos efeitos em termos de lotar hospitais e em número de óbitos.

Mas, na verdade todos aguardam pela liberação emergencial de vacinas para aplicação na população, para evitar nova desaceleração das economias. O presidente Trump, por exemplo, durante o último debate eleitoral com Biden em 22/10, anunciou que seria possível começar a ministrar vacinas em poucas semanas.

Enquanto isso não acontece, governos e bancos centrais estudam o uso de outras ferramentas de apoio e estímulo para as economias, com ampliação de ajuda para empresas e fomento de empregos, como fez a União Europeia, que estuda a adoção de juros negativos, ou ampliam a liquidez, como o Japão. Nos EUA, a situação de um novo pacote de estímulo fiscal não desata entre Republicanos e Democratas, mas pode ter desfecho favorável na próxima semana, sem muito tempo hábil para ser anunciado antes das eleições de 3/11 (seria positivo para Trump). A Casa Branca já aceita estímulos da ordem de US$ 1,9 trilhões, mas ainda é preciso definir que setores, empresas e parte da população seria beneficiada.

Falando do processo eleitoral americano, tivemos o último debate entre Trump e Joe Biden, dessa feita bem mais positivo em termos de discussão de ideias, mas ainda assim um pouco tumultuado. Segundo alguns analistas políticos, Biden teve leve vantagem, mas não afeta o que já se tinha. Porém, Trump ainda faz comícios importantes nesses dias, incluindo regiões fundamentais como a Flórida (encontro em 23/10). Biden se posicionou melhor, mas não quis se expor muito e vacilou em alguns momentos. Mas temos que considerar que boa parte dos eleitores já votaram antecipadamente pelo correio e, para esses, a eleição já é passado.

Fica restando as discussões sobre o Brexit entre a União Europeia e o Reino Unido que nessa semana acalmou um pouco, com a União Europeia querendo retomar negociações e o Reino Unido também mais disposto. O Reino Unido, por sua vez, anunciou um grande acordo com o Japão no pós-Brexit. Do lado diplomático, os EUA seguiram com críticas contra a China e pressões internacionais contra a gigante de tecnologia Huawei (inclusive sobre o Brasil) e prometendo sanções contra países (Rússia, China e Irã) por interferência de hackers nas eleições americanas.

Em termos de indicadores de conjuntura, começamos a semana com a China anunciando bateria de dados sobre o mês de setembro, com o PIB do terceiro trimestre expandindo 4,9% na comparação anual (previsão era +5,3%), produção industrial anualizada de +6,9% para setembro (maior que prevista), vendas no varejo com +3,3% e investimentos em ativos fixos com expansão nos nove meses de 2020 de 0,8%. As vendas de moradias cresceram 6,2% no ano. No Japão, as exportações de setembro encolheram 4,9%, bem mais que o previsto para setembro, mas o governo avalia que a economia está melhorando, enquanto o BOJ pode flexibilizar ainda mais a política monetária.

A semana foi também de divulgação de indicadores PMI da atividade de serviços e indústria em diferentes países para o mês de outubro. Como regra geral mostrando alguma desaceleração em serviços, mas chegando a surpreender na indústria acelerando crescimento na Alemanha e zona do Euro. No Reino Unido, as vendas no varejo de setembro subiram 1,5%, quando o esperado era alta de 0,5%.

No segmento doméstico, os investidores estiveram preocupados com a deterioração fiscal e como isso será tratado diante da necessidade de eventualmente ter que seguir com o auxílio emergencial ou outra forma de ajuda. Também preocupou muito a necessidade de rolagem de dívidas que vencem no primeiro quadrimestre do ano em montante da ordem de R$ 643 bilhões, algo como 15% do total, cotejado com alguma dificuldade presente de colocação de títulos. O secretário do Tesouro, Bruno Funchal, chega a aventar novos pagamentos pelo BNDES e Bacen, como foram feitos recentemente. Com isso, os juros dos títulos mais longos estiveram sempre pressionados.

O presidente Bolsonaro deu declarações importantes. Causou grande ruído e mal-estar o seu veto para compra de 46 milhões de doses de vacina chinesa, questionando seu ministro da Saúde, Pazuello, ele próprio acometido pela covid-19. Bolsonaro também declarou que não aumentou a carga tributária e nem irá aumentar no pós-eleições. Resta ver de onde sairão os recursos para eventualmente estender o programa de auxílio ou programas ligados a renda mínima, sem que a regra de ouro e teto de gastos seja ferido. Por enquanto, as agências de classificação de risco só olham para onde caminha o governo para reverem suas posições.

Em termos de indicadores, a nova pesquisa semanal Focus do Bacen veio tranquila com a inflação de 2020 subindo para 2,65% (anterior em 2,47%), PIB com queda menor de 5%, e produção industrial também melhorando com -5,98%. Saldo da balança comercial estimado para o ano em US$ 57,56 bilhões, e já acumulando até a terceira semana de outubro um superávit de US$ 45,45 bilhões. O fluxo cambial até 16/10 estava negativo em US$ 1,06 bilhões, acumulando no ano um fluxo negativo de US$ 19,7 bilhões. A saída pelo canal financeiro monta a US$ 53,4 bilhões.

A Receita Federal anunciou a arrecadação de setembro em R$ 119,8 bilhões, acumulando no ano de 2020 R$ 1,02 trilhões, o menor volume desde 2010, muito disso em função da pandemia e postergação de tributos. As desonerações do ano já atingem R$ 87,7 bilhões. E o Bacen anunciou o saldo em conta-corrente de setembro com superávit de US$ 2,32 bilhões, o melhor da história. Mesmo assim, foi também afetado pela pandemia, mas no ano ainda mostra déficit de 6,48 bilhões. Os investimentos diretos no país (IDP) de setembro ficaram em US$ 1,6 bilhões, ainda contraídos, e no ano somam US$ 28,5 bilhões. A previsão oficial era de US$ 50 bilhões de ingressos. Segundo o Bacen, no ano saíram recursos em ações de US$ 17,1 bilhões e em fundos com saídas de US$ 822 milhões.

No mercado acionário, destaque na semana para o setor bancário com boas altas e Petrobras que começa a andar mesmo com petróleo instável no mercado internacional. Destaque também para o início de negociação dos BDRs na Bovespa, de empresas transacionadas no mercado americano para clientes do varejo (antes era só para investidores qualificados), dando acesso de forma simples para aquisição de posições em ações como Google, Apple, Facebook, Tesla, J&J; numa lista enorme de empresas. Na Bovespa, até a sessão de 21/10, os investidores estrangeiros já tinham alocado recursos no montante de R$ 2,8 bilhões, mas o saldo do ano ainda era de saídas líquidas de R$ 84,9 bilhões.

Indicadores da Semana

BOVESPA +3% (101.259)
DOW JONES -0,95%
NASDAQ -1,05%
DÓLAR -0,31% (R$ 5,628)

Perspectivas

Se ao longo da semana que passou tivemos poucos indicadores de conjuntura sendo anunciados aqui e no mundo, a próxima semana se mostra com eventos importantes que podem mexer bastante com os mercados. Lembrando que estaremos já na véspera da eleição para presidente dos EUA e com chance de questionamentos e outras situações como o controle (ou não) da Câmara e Senado americano que podem embaralhar muito a atuação do futuro governante. Além disso, seguem as tratativas sobre novo pacote de estímulo fiscal e, por trás de tudo isso, o aumento da contaminação pela covid-19 que pode obrigar novos estímulos fiscais e monetários e alterar a precificação dos ativos de risco e desequilibrar o câmbio.

Aqui, teremos a reunião do Copom, com a inflação pelo IPCA-15 anunciando alta forte (a maior para outubro desde 1995), reformas que não andam, privatizações que não evoluem, teto de gastos podendo ser rompido, LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) que precisa ser votada para não encilhar a execução pelo Tesouro em 2021; e por aí vamos.

Além disso, temos todas as inconstâncias do governo, as quais já estamos nos acostumando.

Isso mostra que ainda temos que conviver com muitas incertezas e isso é sinônimo de volatilidade para os mercados de ações, câmbio e juros.

Mas, de qualquer forma, precisamos manter esse patamar já conquistado na casa de 101 mil pontos, para acionar novos objetivos até 105 mil pontos. Porém, seguimos recomendando prudência na assunção de posições de curto prazo.

Bom final de semana!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais