O feriado de Ação de Graças nos EUA em 26/11 desequilibrou os mercados de risco com liquidez mais contida e pior precificação dos ativos de risco. Mas isso não impediu boa performance dos mercados, basicamente em função de Donald Trump ter autorizado a transição de governo para Biden e, principalmente, em função dos anúncios sobre vacinas e próxima distribuição para conter a segunda escalada do covid-19. Aqui, apesar da enorme preocupação dos investidores com a deterioração fiscal, a taxa cambial esteve relativamente bem-comportada e o segmento Bovespa manteve alta em todas as sessões, com o índice vazando os 111000 pontos.

No cenário externo, o presidente Trump aparentemente está conseguindo assimilar a derrota para Biden, e isso trouxe maior tranquilidade para a sucessão pacífica, depois de alguns Estados terem certificado a vitória. Biden por sua vez quer fazer maior aproximação com a Europa, vai anunciar sua equipe econômica na próxima semana e o noticiário deu conta que Janet Yellen (ex-presidente do FED) pode chefiar o Tesouro, com os investidores gostando dessa possível indicação. A vice-presidente Kamala Harris, por sua vez disse fazer esforço para aprovar pacote de estímulo fiscal.
A situação não é tão pacifica no que tange ao Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia. Na medida em que vai chegando a data fatal (virada do ano), as negociações de acordo pós-Brexit ainda mantêm quase as mesmas divergências, e muitos são os que seguem trabalhando com não acordo. Para complicar um pouco mais, o primeiro ministro Boris Johnson ampliou restrições de contato na Inglaterra, em função do aumento do contágio pelo covid-19. Já falando de vacinas, várias farmacêuticas pediram liberação de emergência e Donald Trump anunciou que a distribuição nos EUA deve começar na próxima semana.

Na zona do euro a situação também não é exatamente tranquila, já que a Alemanha tem chance de ter o PIB em queda no quarto trimestre, aflorando a possibilidade de duplo mergulho em toda a região do euro. Até por conta disso, o BCE (BC europeu) quer recalibrar os instrumentos de política monetária para a região já em dezembro, muito possivelmente ampliando compras de títulos. Os membros discutiram isso na última reunião. Posição semelhante adotou o FED que deve intensificar a compra de títulos para deixar o mercado mais funcional. Isso foi o que ficamos sabendo pelas atas do BCE e FED. Os dirigentes do FED que falaram ao longo da semana mantiveram o tom da necessidade de novos estímulos.

Aparentemente governos e bancos centrais começam novamente a se movimentarem diante da segunda onda de contágio. O Japão do primeiro ministro Suga diz precisar de mais estímulos da ordem de US$ 384 bilhões, mas o BOJ (BC japonês) registrou lucro na compra antecedente de ações. Já o PBOC (BC chinês) falou em tronar a política monetária mais flexível e direcionada, o que o primeiro ministro Li Keqiang tem dito constantemente. O FMI pede maior cooperação entre países e na reunião do G-20 ficou clara a ajuda aos países mais pobres para compra de vacinas e alivio para as dívidas.

Com relação aos indicadores de conjuntura, no geral tivemos alguns bons indicadores e outros nem tanto. Os indicadores de atividade industrial e serviços da Europa mostraram fraqueza (Alemanha, Reino Unido e zona do euro), enquanto nos EUA tiveram alta para 57,9 pontos, no maior patamar dos últimos 68 meses. Na Alemanha o PIB revisado do terceiro trimestre registrou alta maior de 8,5% (anterior 8,2%), o índice IFO de sentimento empresarial em queda para 90,78 pontos e a confiança do consumidor em queda -6,7 pontos em dezembro (de -3,2 pontos) com Angela Merkel dizendo que restrições deve durar até janeiro. O índice de sentimento da zona do euro também encolheu para 87,6 pontos em novembro.

A Coreia do Sul manteve juros estáveis em 0,50% e a Suécia em zero. Nos EUA as encomendas de bens duráveis de outubro expandiram 1,3% pelo sexto mês seguido, o PIB do terceiro trimestre na segunda leitura com expansão mantida em 33.1% anualizada, vendas de imóveis novos em contração de 0,3%, gastos com consumo com +0,9% e renda pessoal em queda de 0,7%, tudo para outubro. A confiança do consumidor de Michigan também em queda para 76,9 pontos e pedidos de auxílio desemprego com alta de 3000 posições para 778000, maior que o previsto de 733000
Destacamos ainda a expectativa dos investidores com relação ao petróleo, que fez mini rally em boa parte da semana, em função da possibilidade da OPERP+ (inclui Rússia) estender os cortes de produção e equilibrar oferta e demanda.

No segmento doméstico, nossa avaliação é de que o governo sofreu forte pressão política durante a semana, depois de declarações de Jair Bolsonaro feitas na reunião de cúpula dos BRICS e também do G-20 sobre meio ambiente, falando de demagogia na pauta ambiental. Com isso pode agregar riscos às exportações do agronegócio superavitário em US$ 75 bilhões nesse ano. Sofreu pressão também de políticos para sacar Eduardo Bolsonaro da presidência da Comissão de relações exteriores da Câmara, por declarações e ameaças contra a China.

Notamos também que o vice-presidente Mourão abriu nova frente de questionamento contra o presidente ao afirmar que a estratégia Chinesa abre boa brecha para intensificar o comércio com a China, exatamente quando se discute expurgar a gigante de tecnologia Huawei de concorrer nos investimentos em 5G.

A pressão não ficou só no presidente, sendo direcionada também contra Paulo Guedes e suas promessas não cumpridas. Guedes rebateu questões levantadas também pelo presidente do Bacen Campos Neto sobre ajustes, reformas e restauração da credibilidade do país. Depois ficou tudo bem entre eles. Mas membros do governo também fizeram cobranças, principalmente Bruno Funchal da secretária do Tesouro que, junto com Hamilton Mourão, se preocupa com a aprovação do orçamento de 2021 até o final do ano.

Durante o período o Senado aprovou a nova lei de falências que segue para a Câmara, e Baleia Rossi disse que o Congresso está próximo de um acordo sobre a reforma tributária. Também parece possível votar a LDO ainda em 2020, o que aliviaria o Tesouro Nacional.
Na economia a inflação medida pelo IGP-M de novembro subiu para 3,28% (anterior em 3,23%), acumulando alta no ano de 21,97% e em 12 meses com 24,52%. Já a pesquisa semanal Focus vem registrando altas seguidas da inflação oficial pelo IPCA, e a última estimativa de 2020 estava em 3,45%. Ainda na Focus o PIB voltou a melhorar para queda no ano de 4,55% e a produção industrial em -5,04%. O saldo da balança comercial na Focus mostra expectativa de superávit de US$ 57,73 bilhões, mas até a terceira semana de novembro o saldo acumulado de superávit era de US$ 50,35 bilhões.

O saldo em conta corrente de outubro foi positivo em US$ 1,47 bilhão e os investimentos diretos no país (IDP) foi de US$ 1,79 bilhão, em forte contração contra igual período de 2019 quando ingressaram US$ 8,22 bilhões. O déficit em conta corrente até outubro está em US$ 7,59 bilhões, e a previsão para o ano é de US$ 10,2 bilhões. Já o IDP acumulado em 2020 mostra ingresso de US$ 31 9 bilhões, com previsão oficial de US$ 50 bilhões. O fluxo cambial até 20/11 está positivo em US$ 1,16 bilhão, tendo ingressado pelo canal financeiro US$ 5,65 bilhões.

O governo central teve déficit de R$ 3,6 bilhões em outubro e em 12 meses ascende a R$ 725,6 bilhões algo como 9,8% do PIB. As receitas cresceram 9,6% em outubro e despesas com +21,8%. O estoque total de crédito em outubro estava em R$ 3,87 trilhões e a inadimplência em 3,1%. Já o IBGE apresentou dados da PNAD contínua do trimestre encerrado em setembro, com o desemprego subindo para 14,6% (agosto era de 14,4%), e faltou trabalho para 33,2 milhões de pessoas. A população ocupada era de 82,4 milhões e desocupados em 14,1 milhões. A ocupação formal, diferente dos dados apresentados pelo Caged, está baixa.

No mercado o grande destaque é para o ingresso de recursos de investidores estrangeiros na Bovespa. Até 25/11 tinha ingressado R$ 30,0 bilhões, mas o saldo do ano ainda estava negativo em R$ 54,9 bilhões, depois de ter arranhado saídas líquidas de quase 90 bilhões. Esse foi o grande diferencial e que tem feito com que a Bovespa mostre alta em 15 dos 19 pregões ocorridos no mês, mas ainda acumulando perdas no ano de cerca de 4,0%, enquanto indicadores no exterior voltaram a mostrar recordes históricos, como o Dow Jones acima de 30000 pontos.

INDICADORES DA SEMANA
BOPVESPA +4,27% (110575) DOW JONES +2,21% NASDAQ +2,96% DÓLAR R$ 5,337 (+0,70%)

PERSPECTIVAS
A próxima semana marca o fim das eleições municipais no Brasil, e as expectativas estarão voltadas para o retorno ao trabalho do Congresso nacional antes que o ano acabe. Todos esperam que haja esforço concentrado para discussão e votação de temas fundamentais, mas ser´[a preciso avaliar como ficarão as forças partidárias. Além disso não podemos esquecer que ainda existe a sucessão na Câmara (mais complicada) e no Senado, que podem dispersas discussões e votações.

No plano externo, os investidores continuarão avaliando a expansão da contaminação pelo covid-19, vis-à-vis eventual começo de distribuição de vacinas no mundo, começando pelos países desenvolvidos. Afinal Trump prometeu isso para a semana. Também será possível melhor avaliar os efeitos de novas restrições de contatos impostas por países e regiões.

Aqui vamos precisar analisar a pressão exercida sobre o governo e os questionamentos gerais sobre temas como reformas e ajustes, privatizações, teto de gastos controle do endividamento, votação do orçamento, extensão de auxílios, etc. Enfim, continuamos com muito para ser avaliado, e algumas questões sem resposta imediata. Mas será preciso sair da paralisia decisória, sem a qual os recursos estrangeiros não virão ou nos deixarão.

No mercado, depois de termos chegado próximo dos 12000 pontos do Ibovespa seria bom não perdermos mais o patamar de 110000 ultrapassado, para abrir faixa de objetivo entre 111000 e 116000 pontos do índice.

Bom final de semana
Alvaro Bandeira