Semana de grande volatilidade nos mercados de risco em todo o mundo, com bruscas mudanças de sinais (negativo e positivo) e uma agenda lotada de eventos importantes com capacidade de mexer com os mercados. Aqui, não foi diferente, tendo que assimilar o comportamento internacional, e as dificuldades internas que não são poucas.

No cenário global uma discussão se fez presente, ampliando a volatilidade dos mercados e a aversão ao risco. Passou a existir a percepção de que os mercados poderiam estar numa bolha, depois de sucessivos recordes históricos de pontuação da Nasdaq e do S&P, e mesmo a volta do Dow Jones ao patamar temporário de 29 mil pontos, situação que não acontecia por seis meses. Aqui, de forma diferente, a Bovespa ainda mostrando perdas em 2020 de cerca de 12%, e se considerada em dólar, chegando a algo como 40%.

Durante a semana, nos EUA, depois das convenções partidárias, a diferença de Joe Biden em relação a Trump estreitou para 7% (vindo de 12%), o que pressupõe maior volume de ruído e acirramento de posições, até as eleições de 3/11. Trump segue falando em possibilidade de fraude e, segundo noticiário, teria dito para os eleitores votarem duas vezes (pelo correio e em loco). Já Biden, defendeu a igualdade racial, numa posição de maior confronto com Trump. Também registramos novas escaramuças contra a diplomacia chinesa, que Xi Jinping prometeu responder convenientemente.

Aparentemente a presidente da Câmara, Nancy Pelosi e o secretário do Tesouro, Mnuchin conseguiram acordo informal para não travar algumas áreas de governo nos próximos meses (shutdown), mas também não tivemos nenhuma informação relevante sobre o novo pacote de estímulos fiscal negociado entre Republicanos e Democratas, apesar de caminhar para um pacote menor onde haja consenso bipartidário. Mnuchin acredita ser possível chegar a isso ainda na próxima semana. Dirigentes regionais do FED também fizeram coro durante a semana sobre a necessidade de novo pacote fiscal para minimizar impactos e voltar a impulsionar a economia, como forma de pressionar o parlamento.

No Reino Unido, dificuldades crescentes para firmar acordos comerciais com a União Europeia, com aumento de tom nas negociações. Além disso, alguns membros do BOE (BC inglês) não descartam a alternativa de juros negativos, enquanto o BCE vai sendo pressionado para novos estímulos para a região, diante dos novos dados de atividade e também com a deflação anunciada para o mês de julho. No Japão, surgiu um candidato para ocupar a vaga da renúncia de Shinzo Abe. Yoshihide Suga defende maior flexibilização da política monetária, e o BOJ (BC japonês) parece querer melhorar sua visão da economia, depois dos últimos dados. Já a China quer manter política monetária apropriada, prudente e flexível depois de atuar sobre os juros de referência.

Falando de indicadores de conjuntura, a semana contemplou a divulgação de índices de atividade misto, para diferentes países, e forte melhora do PMI composto brasileiro de agosto, subindo para 53,9 pontos e mostrando expansão da atividade. Nos EUA, o PMI composto evoluiu para 54,6 pontos, mas o ISM encolheu marginalmente para 56,9 pontos. Na China, o PMI de serviços em alta para 55,23 pontos e o industrial em queda para 51 pontos.

Na Turquia, o PIB do segundo trimestre caiu 9,9% (inflação subindo para 11,77% em agosto, e na Itália contração de 12,8%. Já na Índia, o PIB do segundo trimestre do ano de 2020 (encerra em partido em março) mostrou forte queda de 23,9% e na Austrália encolhendo 7%. Na Alemanha, a inflação medida pelo CPI (consumidor) mostrou deflação de 0,1%, enquanto as vendas no varejo de julho caíram 0,9%, mas na comparação anual, com expansão de 4,2%. Na zona do euro, vendas no varejo de julho com queda de 1,3%, muito em função da Espanha e Itália, deflação no CPI de 0,2% e taxa de desemprego subindo para 7,9%.

Nos EUA, o principal dado foi mesmo o Payroll de agosto com a criação de vagas nos setores público e privado, ampliando vagas em 1,37 milhão, dentro da previsão e taxa de desemprego encolhendo para 8,4%. Tivemos ainda o déficit na Balança Comercial de julho crescendo forte em 18,9% para US$ 63,6 bilhões, de previsão de ficar US$ 58,6 bilhões. Citamos também o petróleo em queda no cenário internacional diante da percepção de queda de demanda e preços ainda em desequilíbrio. Desequilíbrio também para o dólar no mercado internacional, diante das incertezas em diferentes países sobre a manutenção da recuperação econômica, inclusive nos EUA. O Livro Bege, uma síntese da economia mostrou indicadores evoluindo satisfatoriamente mesmo sem novos estímulos, mas anotaram certa desaceleração no emprego.

No segmento local, melhora na relação entre Bolsonaro e Paulo Guedes, mas em compensação piorou entre Paulo Guedes e Rodrigo Maia, presidente da Câmara. Maia divulgou que Paulo Guedes proibiu a equipe econômica de conversar com ele, e afirmou que a interlocução será a partir de agora com o ministro Luiz Eduardo Ramos. Isso é certamente ruim, mas não é definitivo. O governo também encaminhou o projeto de reforma administrativa, tido como na direção correta, mas sem impacto nas contas públicas já que direitos dos servidores atuais foram mantidos. Porém, o projeto tenta acabar com um monte de penduricalhos dos servidores, e cria 5 categorias, onde somente uma tem estabilidade.

A ênfase na reforma administrativa é de certa forma ruim, pois retira o foco da reforma tributária cujo poder de ajustar as contas públicas é maior e deixa em aberto a situação do ano de 2021. Aliás, o período trouxe a divulgação do PLOA (Projeto de Lei Orçamentária Anual) de 2021, considerada uma peça irreal, já que não contempla recursos do Fundeb recentemente aprovado, o Renda Brasil e o programa de investimentos Pró-Brasil. Portanto, não tirou o estresse dos investidores com relação ao teto de gastos (grande preocupação para sinalizar compromisso com ajuste), LRF (Lei de Responsabilidade fiscal), ainda, a regra de ouro.

Na semana foi anunciado pelo IBGE o PIB do segundo trimestre com contração de 9,7%, encolhendo no semestre de 5,9%. O PIB da indústria caiu 12,3%, serviços com -9,7% e a agropecuária com alta de 0,4%. Somos salvos por ela e pelo desempenho da indústria extrativa, por conta do petróleo e, principalmente, do minério de ferro (ainda o efeito Brumadinho). O consumo das famílias encolheu 12,5% e de governo em 8,8%. A formação bruta de capital fixo (FBCF) caiu 15,4% no trimestre e a taxa de investimento em relação ao PIB muito fraca em 15%, não dão margem para preparar trimestre melhor para frente. O saldo da balança comercial de agosto mostrou superávit de US$ 6,6 bilhões, podendo sinalizar superávit para o ano ao redor de US$ 58 bilhões.

A semana mostrou o dólar novamente em queda, aliviando tensões e, na Bovespa, destacamos a grande fuga de investidores estrangeiros na virada do mês de R$ 1,9 bilhão, encerrando agosto novamente negativo em R$ 449,1 milhões e o ano com saídas líquidas de R$ 85,4 bilhões. Mais para o final do período, o mercado americano, principalmente o Nasdaq com ações de tecnologia, realizou forte e trouxe especulações sobre bolha estourando, o que não parece provável. Mas certamente existem ações fora da realidade.

Principais indicadores da semana

IBOVESPA -0,88% (101.241)

DOW JONES -1,81%

NASDAQ -3,26%

DÓLAR -2,23% (R$ 5,294)

Perspectivas

O próximo período começa com os feriados da Independência no Brasil e do Trabalho nos EUA, logo na segunda-feira, com os mercados tendo ajustes na sessão de 4/9 e na dependência do que acontecer na Ásia e também na Europa; além do noticiário que ocorra. O final de semana mais longo gera apreensão seja por nossos problemas internos, ou ainda, os riscos de declarações eleitorais nos EUA entre Trump e Biden.

Outro vetor fica por conta da contaminação pela covid-19 que parece ainda longe de deixar de assustar, muito embora o noticiário indique aceleração de testes da fase três e sucesso na aplicação de vacinas em cobaias humanas, como da vacina chinesa e russa. Outra discussão ocorre em função do pacote de estímulos nos EUA e do acordo de não travar órgãos do governo americano por falta de recursos.

Aqui, seguimos torcendo para que o governo siga tranquilo e sem dissenções internas que dificultam atuação, e também com os outros dois poderes (Legislativo e Judiciário). Mas o foco central será novamente a questão fiscal e manutenção do teto de gastos, além dos problemas relacionados com o meio ambiente.

Do ponto de vista da análise técnica, durante a semana e por algumas vezes, o Ibovespa atuou abaixo dos 100 mil pontos (chegou a trincar 98 mil pontos alto), e o rompimento do patamar de 98 mil pontos poderia provocar aceleração de vendas e trazer o mercado mais para baixo. O melhor dos mundos seria se conseguíssemos superar com consistência a faixa de 104 mil pontos, mas isso parece mais complicado.

Bom fim de semana e feriado!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais