A tônica do período ultrapassado pode ser definida como de indecisão dos investidores com relação ao futuro de curto prazo dos segmentos de risco no mundo. Mercados mostrando alternância de comportamento intra e entre pregões, motivados, principalmente, pelas incertezas de retomada da recuperação econômica global. Por aqui, não foi diferente, tendo como agravante as discussões sobre reformas, orçamento e a postura do Senado que derrubou vetos do presidente Bolsonaro.

Com relação às incertezas no plano mundial, podemos exemplificar com a ata do BCE (BC europeu) divulgada durante o período, quando a palavra incerteza foi usada 20 vezes para explicar situações. Podemos agregar ainda o fato de Democratas e Republicanos não terem ainda conseguido acordo com relação ao novo pacote de estímulos fiscais, mesmo com a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, ter dito que Democratas poderia aceitar um pacote pela metade, mas com revisões futuras. Isso tem impedido tendência mais consistente dos mercados americanos, mesmo com o índice Nasdaq (e também o S&P) terem batido recordes de pontuação na semana.

Ainda sobre os EUA, durante o período continuaram as pressões sobre a China, apesar de o governo americano declarar que estão cumprindo os acordos comerciais da primeira fase. Porém, reuniões que estavam agendadas sobre o tema foram canceladas, e haverá inicialmente reuniões por teleconferência. Mas as pressões sobre tecnologia 5G e bloqueio de acesso à gigante Huawei continuaram, assim como pressões sobre países aliados dos EUA para exclusão de empresas de tecnologia chinesa. Os EUA também iniciaram novas sanções contra o Irã e empresas aéreas dos Emirados Árabes, por vínculo com o país.

O presidente Trump também teve alguns reveses políticos com críticas abertas na convenção dos Democratas que oficializou Joe Biden como candidato e Kamala Harris como vice. O ex-assessor de Trump, Steve Bannon, foi preso por fraude na arrecadação de fundos e o juiz decidiu que Trump deve liberar registros tributários aos promotores de NY. Na convenção democrata, Trump foi responsabilizado pelo desastre no combate a covid-19, e Biden discursou no terceiro dia prometendo tirar o país da crise, formar coalisão de governo e combater a pobreza.

De outra feita, o Reino Unido e a União Europeia mantiveram o impasse nas negociações comerciais pós-Brexit e a União Europeia disse que as instituições financeiras do Reino Unido terão que esperar para operarem. Angela Merkel, da Alemanha, descartou relaxar regras sanitárias por conta do avanço da covid-19. Falando em contágio, vários países e regiões reforçaram medidas de isolamento, mas, em contrapartida, começam os testes com as vacinas e possíveis aprovações de imunização, já a partir do próximo mês de outubro.

Na economia, o período foi marcado pela divulgação de indicadores PMI da atividade industrial, de serviços e composto; para o prazo agosto em diferentes países. Como regra geral ainda mostrando recuperação, mas em alguns casos mostrando desaceleração. No Japão, o PMI composto estável em 44,9 pontos e na Alemanha em queda para 53,7 pontos, vindo de anterior em 55,3 pontos, em função de retração em serviços.

Na zona do euro, queda no segmento industrial e também em serviços, com o índice composto caindo para 51,6 pontos de anterior em 54,9 pontos. Já no Reino Unido, o índice composto subiu para 60,3 pontos (anterior em 57 pontos), o maior nível em 82 anos. Ainda no Reino Unido, as vendas no varejo de julho expandiram 3,6%, quando a previsão era de +1,4%. Nos EUA, o PMI composto de agosto subiu para 54,7 pontos também no maior nível em 18 meses. Ainda nos EUA, os pedidos de auxílio-desemprego da semana anterior cresceram 155 mil posições para total de 1,14 milhão. As vendas de imóveis usados expandiram 24,7%, com a maior expansão desde 2006. Apesar disso, Trump, seus secretários e dirigentes regionais do FED seguem indicando a necessidade de mais estímulos fiscais.

A ata do BCE (BC europeu) divulgada no período deixou patente que a recuperação econômica da zona do euro não está clara e está explícito a discordância de países com relação à ajuda emergencial aprovada de 1,35 trilhão de euros, querendo que esse seja o teto de ajuda. A ata do FOMC do FED veio repetindo termos colocados em reuniões anteriores, só que com tom mais duro. Mostraram a recuperação da economia por diferentes indicadores, mas destacaram a preocupação com o endividamento e insolvência das empresas não financeiras e também com a reaceleração do contágio pela covid-19, antes que as vacinas estejam disponíveis.

A OPEP anunciou que a Arábia Saudita e a Rússia reafirmaram corte de produção e crença no reequilíbrio do mercado de petróleo, e a gigante Aramco cancelou joint venture com a China para construção de refinaria de US$ 10 bilhões.

No segmento doméstico, além de claramente sermos influenciados pelo ambiente global indefinido, os investidores ainda têm que reverberar os problemas políticos e econômicos, e que não são poucos. Como antecipávamos nos comentários da semana anterior os grandes vetores do período em tela foram os ruídos com a reforma tributária, a manutenção ou não do teto de gastos (sem maquiagem) e os vetos que seriam analisados e votados pelo Congresso Nacional.

O grande susto ficou por conta da derrubada do veto de reajuste de salários dos servidores públicos até final de 2021 pelo Senado, o que provocaria dispêndios da ordem de R$ 130 bilhões. Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes foram enfáticos em afirmar que assim seria impossível governar o país e o péssimo sinal dado pelo Senado da República. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi a grande liderança e conseguiram manter os vetos no início da noite de 20/8, aliviando tensões. Porém, os investidores ainda ficaram reticentes.

Há grande preocupação com o encaminhamento do orçamento de 2021 até o final desse mês, e como o governo irá lidar com as pressões de gastos. Também causou e vai continuar causando grande ruído, a reforma tributária, com ou sem a CPMF camuflada, além das alíquotas faladas para a CBS, considerada alta para o que está sendo colocado de não aumento da carga em relação ao PIB. O governo fala em 12%, enquanto estudos indicam que a taxa neutra seria próxima de 10%. Além disso, alguns setores teriam grande aumento de tributos.

Na economia, a pesquisa semanal Focus do Bacen veio novamente tranquila. Inflação oficial subindo para 1,67%, PIB melhorando com queda de 5,52% (anterior em -5,62%), produção industrial com queda de 7,68% (anterior em -7,87%), dólar estável em R$ 5,20 e superávit comercial também em US$ 55 bilhões. Falando em balança comercial, o superávit acumulado até a segunda semana de agosto estava em US$ 33,4 bilhões. Com o dólar estressado, o Bacen fez intervenções em 20/8 de venda à vista de US$ 1,04 bilhão e no dia seguinte de mais US$ 650 milhões, operações não previstas.

O monitor do PIB da FGV, apontou contração do segundo trimestre em -8,7%. A Receita Federal mostrou a arrecadação de julho em R$ 116 bilhões, acumulando nos sete meses do ano R$ 782 bilhões. As desonerações no ano atingiram R$ 64,1 bilhões. No que tange ao CAGED (Cadastro Geral de Emprego e Desemprego), no mês de julho foram criados 131 mil empregos formais, mas no ano o saldo líquido ainda está negativo em R$ 1,1 milhões.

Já o fundo soberano da Noruega, que tem patrimônio de US$ 1,15 trilhão, vem sacando recursos de forma sistemática do Brasil. Hoje detém US$ 5,2 bilhões, e em final de 2019 detinha US$ 7,6 bilhões. Em renda fixa deixou de constar de sua posição os US$ 2 bilhões. O fluxo de investidores estrangeiros na Bovespa até 19/8 estava positivo em agosto com R$ 2,88 bilhões e no ano, com saídas líquidas de R$ 82,03 bilhões.
Indicadores da semana
BOVESPA +0,13% (101.521)
DOW JONES – estável
NASDAQ +2,65%
DÓLAR +3,32% (R$ 5,607)

Perspectivas

Continuamos a recomendar alguma prudência na assunção de posições mais arriscadas e de curto prazo. Na nossa visão, a volatilidade dos mercados deve permanecer intensa e as incertezas vão permear o posicionamento dos investidores no mundo e aqui com maior razão ainda. No exterior, permanecem vivas as incertezas com a nova onda de contágio pela covid-19, antes que as vacinas estejam disponíveis para aplicação massiva nas populações.

Também vamos ter pressões sobre a China e aliados por parte do governo Trump e muitos ruídos decorrentes da disputa eleitoral americana daqui a até 3/11. As negociações comerciais entre o Reino Unido e União Europeia também estarão na ordem do dia.

Aqui, vamos seguir com os nossos conhecidos vetores da área política, com o presidente tergiversando o populismo para reeleição, ao mesmo tempo que o país exige que ajustes sejam feitos na economia, sem ferir regra de ouro, LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) e teto de gastos. Mas a situação mais calma com Paulo Guedes e o Congresso parecem ser pontos positivos.

No que tange a análise técnica, não deveríamos perder o patamar de 100 mil pontos e depois 98 mil pontos, sob pena de o mercado reajustar ainda mais. Bom seria se conseguíssemos superar a zona dos 104 mil pontos com consistência, para ganhar maior tração e deixar para trás a congestão que já dura mais de um mês nessa área.

Bom final de semana!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais