A semana ultrapassada mostrou investidores agindo com maior prudência em todo o mundo, mas mercados ainda com intensa volatilidade, diante de uma agenda lotada de eventos importantes e com potencial de mexer com os mercados de risco. Aqui, não foi diferente, com investidores tendo que assimilar, adicionalmente, as confusões na área política que deixaram o ministro Paulo Guedes nos holofotes e ainda todas as preocupações com o quadro fiscal e medidas a serem adotadas no pós-crise da covid-19.

No plano internacional, a grande expectativa ficou por conta do discurso do presidente do FED, Jerome Powell, que poderia revisar as decisões de política monetária que seriam anunciadas na reunião anual de bancos centrais de Jackson Hole. O FED vai atuar olhando para a inflação média e admitindo períodos acima da meta de 2%, sem fórmula matemática e com grande flexibilidade, mas sem permitir inflação muito acima de 2%. Os mercados reagiram positivamente a essas declarações mais suaves em 27/8. Com isso, a leitura de juros baixos por alguns anos entrou no radar dos investidores.

Também tivemos uma semana de convenção Republicana, com Trump tentando acelerar o medo da população com um governo radical Democrata. Trump disse que num eventual governo de Biden, impostos seriam aumentados, regulação ampliada e os mercados quebrariam. Os EUA também impuseram sanção para 25 empresas chinesas, acrescentando que a mídia e líderes chineses querem Biden presidente. Lembramos ainda que a novela de novos estímulos fiscais em definição entre Republicanos e Democratas permaneceu no impasse, que já dura há mais de 15 dias.

Na Alemanha, Angela Merkel anunciou a extensão do programa de manutenção do emprego até 2021, ao custo de 10 bilhões de euros. Os indicadores de conjuntura da Alemanha sugerem que o terceiro trimestre será muito forte para a economia. No Japão, o primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou que renunciará por problemas de saúde, assim que tiver um sucessor. Mas nem o país pretende ampliar estímulos, mesmo estando à beira da deflação.

O BOE (BC inglês) negou que não tenha espaço para novas medidas de política monetária, e segue flertando com a possibilidade de juros negativos, principalmente depois de declarações do BCE (BC europeu) indicando que os juros negativos na região foram bem-sucedidos. Na França, a promessa de um plano de recuperação de cerca de 40 bilhões de euros, a ser anunciado no dia de setembro. No México, a tempestade tropical Laura interrompeu a produção de petróleo do Golfo, se transformou em furacão próximo da costa da Louisiana, para novamente perder força e virar tempestade. Já a OCDE, estimou que a contração do PIB dos países membros no segundo trimestre deve ficar próxima de 9,8%.

Falando de covid-19, o período se mostrou novamente complicado com países noticiando reinfecção de pacientes anteriores e maior volume de contágio. Alguns países e regiões intensificaram medidas de isolamento que vão comprometer a recuperação econômica, como nos casos da Índia e Coreia do Sul ou mesmo nos EUA, que voltou a ter aumento de contaminação, suscitando alerta de dirigentes do FED sobre a possibilidade de desaceleração.

Falando de indicadores de conjuntura no exterior, tivemos nos EUA uma nova leitura do PIB do segundo trimestre mostrando contração de 31,7%, mas ainda assim abaixo do previsto em 32,4%. Os pedidos de auxílio-desemprego da semana anterior encolheram 98 mil posições para total de 1 milhão e pedidos continuados encolhendo 223 mil (defasados em uma semana). As encomendas de bens duráveis subiram forte, em 11,2% em julho (previsto era +5%), sugerindo recuperação em “V” no curto prazo. A renda cresceu 0,4% e gastos com consumo em alta de 1,9% em julho, lembrando que o consumo representa próximo de 70% do PIB dos EUA. A confiança do consumidor de Michigan de agosto subiu para 74,1 pontos, mais do que estava previsto, que era em 72,9 pontos.

Na Alemanha, o PIB do segundo trimestre registrou contração de 9,7%, com taxa anualizada de -11,3%. O índice IFO de sentimento empresarial subiu para 92,6 pontos e a confiança do consumidor GFK de setembro em queda para -1,8 ponto, quando a previsão era de +0,5 ponto. Na França, o PIB observou contração histórica de 13,8% no segundo trimestre. No Canadá, o PIB encolheu no mesmo período 38,7%, mas o previsto era queda de 40%.
Na China, o lucro industrial de julho subiu 19,6% anualizado, bem maior que no mês anterior de 11,5%, muito em função da recuperação do setor automotivo. A China também seguiu expandindo a base monetária destinada a acelerar a recuperação da economia, voltando a alocar recursos em recompras reversas.

No segmento doméstico, o foco esteve no aspecto político, com os desentendimentos do presidente com seu ministro da economia e também com repórteres. Logo no início da semana, Bolsonaro fez saber que não encaminharia ao parlamento o texto do Renda Brasil, e deu prazo para que a equipe de Guedes entregasse até 28/8 as mudanças no projeto. A leitura foi de acirramento das disputas internas, ampliada pelo não comparecimento de Paulo Guedes no lançamento do projeto Casa Verde e Amarela. Apesar disso, a equipe econômica adotou R$ 300 como auxílio emergencial até o final do ano e Bolsonaro ampliou investimentos para R$ 6,5 bilhões em infraestrutura e verbas parlamentares, quando a equipe econômica falava em R$ 4 bilhões. Disputas também na passagem de recursos do Bacen para o Tesouro, com o CMN autorizando repasse de R$ 325 bilhões.

O Congresso aprovou e promulgou a PEC do Fundeb com recursos garantidos ao ensino público até 2026. Tudo isso só fez ampliar o estresse dos investidores com o quadro fiscal problemático (para dizer o mínimo) e determinou prudência operacional nas Bolsas e dólar vazando R$ 5,63. Porém, mais para o final do período, o quadro voltou a acalmar, com investidores aguardando a divulgação de novas medidas. No último dia do período, o STJ determinou o afastamento imediato do governador Witzel (PSC) do cargo, por supostos desvios em contratos emergenciais da pandemia, enquanto a PF fez buscas em endereços de sua mulher.

Na economia, a nova pesquisa Focus veio tranquila e com poucas e boas alterações, com a inflação subindo para 1,71% (anterior em 1,67%), PIB reduzindo a queda para 5,46% (de 5,52%) e produção industrial estável em -7,68%. Dólar e saldo comercial de 2020 estáveis em respectivamente R$ 5,20 e US$ 55 bilhões. Aliás, o superávit comercial acumulado até a terceira semana de agosto estava em US$ 34,9 bilhões.

A prévia da inflação oficial de agosto pelo IPCA-15 mostrou alta de 0,23%, desacelerando sobre o mês anterior de 0,30%. No ano, acumula inflação de 0,90% e em 12 meses de 2,23%. Em compensação, o IGP-M de agosto subiu 2,74%, acumulando alta em 2020 de 9,64% e em 12 meses de 13,02%. O fluxo cambial até 21/8 estava positivo em US$ 31 milhões, mas acumulava saídas em 2020 de US$ 15,8 bilhões. A posição cambial líquida estava em US$ 301,9 bilhões.

O Bacen anunciou que as concessões de crédito livre de julho atingiu R$ 287,7 bilhões em alta de 0,8%, com a pandemia influindo bastante. A inadimplência atingiu 3,5%, de anterior em 3,7% e o endividamento das famílias com o crédito imobiliário estava em 46,7%. Taxa de juros do rotativo do cartão de crédito subiu para 312,08% ao ano. O déficit do governo central em julho foi de R$ 87,8 bilhões. A dívida pública federal estava em R$ 4,3 trilhões com a participação estrangeira declinando para 9,04% do total. A necessidade de financiamento do governo em 2020 está em R$ 1,13 trilhão e já considera o repasse do lucro do Bacen ao Tesouro de R$ 325 bilhões.

No mercado local, muita volatilidade intra e entre pregões, dólar oscilando bastante e acalmando no final da semana, os DIs pressionados principalmente nos títulos de vencimento mais longos e na Bovespa, sem conseguir definir tendência mais consistente. Os investidores estrangeiros voltaram a sacar recursos da Bovespa, e até 26/8, quando o fluxo de agosto ainda estava positivo em R$ 681,5 milhões (já foi de R$ 3 bilhões), e no ano de 2020, com saídas líquidas de R$ 84,23 bilhões. Em compensação, a fila de IPOs e Follow-ons não para de crescer.

Indicadores da semana

BOVESPA +0,61% (102.142)
DOW JONES +2,58%
NASDAQ +3,39%
DÓLAR -3,42% (R$ 5,415)

Perspectivas

No mercado internacional, os investidores vão manter foco em dois temas dominantes: o aumento ou não da contaminação pela covid-19 em sua segunda onda, especialmente nos EUA, e ainda por lá, se Republicanos e Democratas vão conseguir algum acordo sobre pacote de estímulos fiscais, pelo menos onde haja consenso. Como assunto adicional, as pressões sobre a China e empresas chinesas da área de tecnologia. Além disso, daqui a até 3/11, data das eleições americanas, vamos ter que assimilar os ruídos da disputa eleitoral se acirrando.

No segmento local, vamos torcer para o presidente permanecer mais tranquilo (assim como terminamos a semana) e para não termos nenhuma defecção na equipe econômica. Além disso, para que tudo ocorra bem no encaminhamento das peças do orçamento de 2021 ao Congresso e que o programa que a equipe econômica está modificando seja aceito pelo presidente e a outra ala do governo. São muitas coisas que precisam caminhar certas para que os investidores reduzam o nível de estresse e passem a acreditar no bom e correto desempenho do governo.

Pela análise técnica, seria bom, termos alguma definição. Afinal, estamos há dois meses com o Ibovespa oscilando no intervalo entre 100 mil e 104 mil (com breves vazamentos de um lado e de outro), para que movimentos possam adquirir maior consistência. Enquanto isso, a volatilidade deve continuar forte.

Bom final de semana!

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais
Fonte: https://www.modalmais.com.br/blog/falando-de-mercado