O principal destaque do período foi a volatildade dos mercados de risco no mundo, incluindo o Brasil. Em praticamente todas as sessões, tivemos mudanças de sinais nas principais bolsas do mundo, e boa parte disso pode ser explicada pelo comportamento do dólar frente outras moedas importantes, e também nos emergentes, com destaque para o real. Aqui, quadro político mais tranquilo, mas ainda assim com momentos de preocupação com relação aos indicadores de conjuntura e, principalmente, com as incertezas futuras.

No cenário externo, relações diplomáticas entre os EUA e a China desgastadas e pressões americanas sobre aliados quanto a adoção de tecnologia chinesa, notadamente em 5G. Entrou também no radar as discussões sobre o Brexit entre a União Europeia e o Reino Unido, principalmente depois de o parlamento britânico aprovar que a Irlanda do Norte segue pela jurisdição alfandegária de Londres, o que fere protocolo do Brexit. Nesse meio tempo, o Reino Unido: tenta acordos bilaterais; anunciou o maior acordo da história com o Japão, e aproveitou para alfinetar a União Europeia. A União Europeia diz que o reino Unido não se empenha por um acordo e os bancos da região seguem pressionados por definições de atuação.

Já com relação ao Covid-19, a contaminação voltou forte em países e regiões, o que deixou investidores ainda mais estressados sobre a recuperação econômica. Na Europa, a infecção aumentou devido ao menor isolamento e, na semana, foram registrados mais casos na Europa que nos EUA. Enquanto isso, a Índia assumiu a segunda posição no ranking de contágio no mundo. Também alguma frustração com vacinas que estavam sendo testadas pela Astrazeneca, que suspendeu testes da terceira fase, mas deve conseguir manter cronograma. Enquanto isso Trump segue com seu discurso de ter vacinas sendo aplicadas até o final do ano.

Outro aspecto que sensibilizou os investidores foi a preocupação com o pacote fiscal americano para manter a economia em recuperação, onde Republicanos e Democratas não chegaram a um acordo. Durante a semana, o Senado (democratas) barrou estímulos de US$ 300 bilhões dos Republicanos e tornou a situação ainda mais tensa, mesmo com Nancy Pelosi propondo acordo perto de US$ 2,0 trilhões, quando o pleiteado era de US$ 3,5 trilhões. Nossa sensação é que em algum momento vão chegar a bom termo, mas é fato que a novela já dura mais de um mês.

Falando das eleições de 03/11, é de se prever maiores ruídos a partir de agora, principalmente por conta do próximo debate dos dois candidatos. Joe Biden propôs na semana tributar lucro de empresas americanas que produzem em outros países e que vendem no mercado local. Trump, por sua vez, seguiu aplicando sanções para autoridades chinesas e novas empresas, obtendo também respostas da China de tamanho semelhante, o que torna as relações diplomáticas mais tensas.

O BCE (BC europeu) fez reunião sobre política monetária e, como esperado, manteve estável, o que significa taxa de depósito em -0,5%, refinanciamento em zero, e uso emergencial recursos para compras de ativos no montante de 1,35 trilhão de euros. Mas, Christine Lagarde (presidente) mostrou disposição de ajustar os instrumentos. O consenso é que a região cresce de forma desigual e mais estímulos são necessários. O Conselho Europeu é que aprovou em reunião 6,2 bilhões de euros adicionais para resposta ao Covid-19.

Em termos de indicadores de conjuntura, a China mostrou superávit na balança comercial em queda para US$ 58,9 bilhões (anterior em US$ 62,3 bilhões), fruto de exportações em alta de 9,5% e importações declinando 2,12%. Isso também mexeu com preço das commodities. As reservas internacionais da China estão em US$ 3,16 trilhões, em alta pelo terceiro mês seguido. A inflação pelo CPI de agosto anualizada ficou em 2,4% e no atacado (PPI), com deflação de 2,0%. Novos empréstimos de agosto cresceram US$ 187 bilhões e a base monetária mostrava expansão anualizada de 10,4%.

Na Alemanha, a produção industrial cresceu 1,2%, bem abaixo do esperado e o superávit comercial de julho foi de 18,0 bilhões de euros. A inflação pelo CPI de agosto ficou estável em base anualizada e deflação no mês de 0,1%. Na zona do euro, o PIB encolheu 11,8% no segundo trimestre, mas veio melhor que o previsto de -14,7%. O PIB da África do Sul caiu 51,0% no segundo trimestre e, no Japão, taxa anualizada de -28,1%, na maior queda desde 1980. Nem por isso o Japão está pressionado para novas medidas, depois do Covid-19 ter arrefecido por lá. Na Rússia, queda do PIB de 8,0%.

Nos EUA, o relatório Jolts sobre criação de vagas mostrou 6,6 milhões criadas, acima do mês anterior de 6,0 milhões. Os pedidos de auxílio desemprego da semana ficaram estáveis em 884000, e pedidos continuados com +93000, no total de 13,4 milhões. A inflação medida pelo PPI foi de 0,3% em agosto e pelo CPI em 0,4% e acumulando 1,3% contra igual período de 2019. Os estoques no atacado encolheram 0,3% em julho, mas pesquisa feita indica que a recuperação está sendo mais rápida que o previsto. Trump fala em recuperação em “V”, fazendo coro com seus principais secretários.

De qualquer forma, a semana foi tensa, não só pelas discussões de bolha ou não no mercado acionário americano — com forte pressão vendedora e alguma recuperação nas gigantes de tecnologia —, mas também no segmento de câmbio (dólar fraco e dólar forte) e taxa de juros, tendo como fator adicional leilão de títulos de 30 anos com demanda em queda. Lembramos ainda que a semana embutiu 19 anos do ataque terrorista ao WTC.

No segmento local, a situação política esteve mais calma, mas ainda assim alguns estresses com o governo questionando supermercados sobre altas de alimentos, com posição contrária da área econômica (percepção que só traria ruídos), Paulo Guedes saindo da linha de frente das negociações por conta dos desentendimentos com Rodrigo Maia e reformas sem andar no Congresso. Na medida que em que as eleições se aproximam, vai ficando mais difícil agilizar o andamento de questões que dependem do Congresso. Com isso, queremos nos referir às reformas administrativa e tributária, Pacto Federativo (agora com o Jabuti do Renda Brasil) e enormes preocupações com o teto de gastos que pode vazar já no próximo ano, rolagem da dívida e orçamento irreal.

Na semana, Luiz Fux tomou posse como presidente do STF e, em discurso, pediu o entendimento dos três poderes. Com relação à operação Lava Jato, disse não haveria recuo, pois foi uma conquista da sociedade brasileira. Mas, mesmo com o Governo buscando austeridade, a CNJ aprovou novos penduricalhos para juízes que atuam em mais de uma vara. O governo está colocando no Pacto Federativo o programa Renda Brasil, mas até isso permanece complicado, por conta dos Estados na pindaíba.

Na economia, o IBGE anunciou a inflação oficial de agosto pelo IPCA em 0,24%, vindo de 0,36% e acumulando no ano 0,70%; e, em 12 meses, com 2,44%. Já o IGP-M da primeira prévia de setembro de +4,41%, acumula alta de 14,47% em 2020, e atinge em 12 meses 18,01%, em completa dissintonia com o índice oficial. O IBGE também anunciou vendas no varejo de julho, com alta de 5,2%, mas com encolhimento no ano de 1,8%. Já o varejo ampliado, expandiu 7,2% no mês de julho, e mostra queda acumulada de 6,2% em 2020. Já o volume de serviços prestados, cresceu 2,6% em julho, mas no comparativo com o mesmo período de 2019, soma queda de 11,9%. Receita bruta nominal de serviços aumento 1,4%, mas tem queda de 12,8 contra julho de 2019. Já a safra estimada pelo IBGE, está em 251,7 milhões de toneladas de grãos, com expansão prevista de 4,2%.

No mercado, muita volatilidade na Bovespa com ações ligadas ao segmento de mineração energia e bancos, volatilidade também no câmbio e preocupações com a rolagem de dívida, com operações fortes feitas durante o período. Na Bovespa, os investidores estrangeiros fizeram algumas alocações pequenas de recursos na semana, de tal ordem que setembro (até 09/09) ainda permanecia negativo em R$ 335,9 milhões, com saídas líquidas em 2020 de R$ 85,69 bilhões. No último dia da curta semana, o Ibovespa chegou a vazar o patamar de 98000 pontos, que representa risco para pressões renovadas.

Principais indicadores da semana

IBOVESPA: -2,84% (98363)

DOW JONES: -1,66%

NASDAQ: -4,07%

DÓLAR: R$ 5,34 (+0,86%)

Perspectivas

O próximo período começa com as mesmas preocupações de períodos anteriores no planos externo e interno. Investidores terão que acompanhar se, teremos ou não, pacote fiscal sendo aprovado nos EUA e se outros países precisarão lidar com maiores estímulos para mitigar a influência na economia da volta da contaminação e restrições de contato.

Com as eleições americanas cada vez mais próximas, deve catalisar a atenção pela disputa entre candidatos e o primeiro debate entre Trump e Biden agendado para 29 de setembro. A partir daí, devemos ter muitos ruídos, pesquisas e investidores estressados. Além disso, acusações de interferências da Rússia e da China, como ocorreu nessa semana, apurada pela Microsoft.

No cenário local, com a aproximação das eleições, o principal problema parece ser o andamento de questões importantes que dependam do Congresso, além das eleições de presidentes das duas casas do Congresso. Como vínhamos alertando por meses, a partir de agora não dá para pensarmos em votações importantes até o final do ano. Temos ainda a pressão do STF sobre Bolsonaro com arguição entre ele e Moro.

Há ainda as questões relacionadas com a área econômica que precisam ser melhor endereçadas no orçamento de 2021, programa Renda Brasil e Pró-Brasil, teto de gastos, LRF (lei de responsabilidade fiscal) e regra de ouro, nível de endividamento e rolagem; além de tudo, mais do que se relaciona com segurança jurídica e marcos regulatórios palatáveis, para atração de investimentos.

Do ponto de vista da análise técnica, seria oportuno garantir que não perderemos o patamar rabiscado na semana de 98000 pontos, sob pena de acelerar quedas e apontar para 94000 pontos e depois 90000 pontos. Melhora mesmo, só se e quando conseguirmos ultrapassar o patamar de 104000 pontos de forma consistente.

Bom final de semana.

Alvaro Bandeira
Economista-Chefe do banco digital modalmais