A semana ultrapassada incorporou intensa agenda de eventos com capacidade de mexer com a tendência dos mercados de risco em todo o mundo. Reunião do FOMC do FED sobre política monetária, indicadores de atividade em diferentes países, divulgação do PIB referente ao segundo trimestre do ano, safra de balanços do segundo trimestre; tudo permeado pela nova onda de expansão da covid-19, especialmente nos EUA. Além disso, os investidores ainda tiveram que absorver em suas previsões a deterioração das relações entre os EUA e a China, e o presidente Trump aventando a hipótese de adiar eleições americanas.

Aqui, não só fomos influenciados por isso, como tivemos o início da safra de resultados do segundo trimestre para companhias importantes do mercado, ruídos sobre a reformas tributária e outras que se fazem necessárias, discussões sobre teto de gasto e indicadores de conjuntura que vão exigir grande cuidado por parte do governo. Além disso, encerramento do mês de julho, com alguma disputa em torno do fechamento da taxa PTAX, e com o dólar mostrando grande volatilidade externa.

Resultado de tudo isso, novamente mercados com grande volatilidade e bruscas mudanças de sinais intra e entre sessões, mas com giro elevado de posições e nível especulativo ampliando, o que agrega ainda mais risco as operações.

No plano externo, o cenário de fundo continuou a ser a nova expansão da covid-19 em diferentes países que promoveram abertura social, notadamente nos EUA (Califórnia, Flórida e Texas), mas também na Espanha, na Índia, Rússia; e outros. Isso foi minimizado pelo desenvolvimento acelerado de vacinas por empresas em todo o mundo e postura agressiva dos EUA em negociar toda a produção da Pfizer e BioNtech. Alguns países e regiões adotaram novas restrições, como, por exemplo, a Alemanha sugerindo não viajarem para a Espanha.

A safra de balanços do segundo trimestre seguiu seu curso, só que dessa vez os resultados divulgados já não foram tão positivos com alguns prejuízos importantes de empresas petrolíferas, surpresa com Santander e GE e bom desempenho das gigantes de tecnologia como Amazon, Apple, Facebook; garantindo melhor performance da Bolsa Nasdaq.

Ao longo do período, também registramos elevação de tom na área diplomática entre EUA e China, com acusação de espionagem pelos EUA, o secretário Mike Pompeo, dizendo que a disputa não é entre EUA e China, mas sobre democracia e autoritarismo. O comitê do Senado dos EUA aprovando projeto de lei permitindo que os americanos processem a China pelos danos causados pela pandemia. A China também dizendo que vai responder racionalmente às acusações feitas de forma irracional e irresponsável, e acusando o FBI de intensificar ataques contra chineses nos EUA.

No meio de tudo isso, pressões americanas sobre os aliados, visando empresas de tecnologia chinesa como Huawei e ZTE, líder hoje na venda global de smatphones, e principalmente na tecnologia 5G. Tanto isso é verdade que, o nosso Itamarati colocou sob sigilo toda correspondência envolvendo a Huawei e assuntos da tecnologia 5G.

Ainda nos EUA, duas questões importantes. A decisão do FED sobre política monetária e a expectativa com novo pacote de estímulos de US$ 1 trilhão. A decisão do FED veio dentro do previsto, mantendo juros no intervalo entre zero e 0,25%, mas repetindo o mantra de que fará uso de todas as ferramentas para apoiar a recuperação da economia. No período, o FED anunciou extensão do prazo de empréstimos, compra de comercial papers. O presidente do FED, Jerome Powell, também disse que essas medidas emergenciais serão retiradas assim que a crise passar. Também estendeu as operações de swap cambiais com nove bancos centrais, incluindo o Brasil. Já sobre o novo pacote de estímulos que o secretário Mnuchin tanto queria, democratas e republicanos não chegaram a um acordo, mas parece ser somente uma questão de mais alguns dias de discussão, já que o recesso da Câmara em agosto foi cancelado.

Semana também de divulgação de PIB em diferentes países, todos com quedas históricas. Na Alemanha, o PIB do segundo trimestre encolheu 10,1%, aprofundando o processo recessivo do país. Na França, a queda foi de 13,8%, e na Espanha contração de 18,5%. No México, o PIB contraiu 17,3% e na Itália queda de 12,4%. Na zona do euro, o encolhimento foi de 12,1%. Nos EUA, o PIB do segundo trimestre encolheu 32,9%, mas a previsão era de queda de 35%.

Também destacamos que a União Europeia segue preocupada com o desempenho das economias do bloco, necessidade de novos estímulos e tudo fazer para que não haja retirada precipitada dos estímulos. O FMI também disse já ter realizado operações com mais de 72 países e anunciou recursos para a África do Sul de US$ 4,3 bilhões.

Destacamos ainda que os EUA e a China saíram na frente da recuperação econômica. O PMI industrial chinês de julho subiu para 51,1 pontos, mostrando expansão da atividade e o lucro industrial de junho crescendo 11,5% anualizado. Nos EUA, as encomendas de bens duráveis crescendo 7,3%, pedidos de auxílio-desemprego voltando a subir 12 mil posições, para 1,43 milhão de pedidos, gasto com consumo de junho com +5,6% e renda pessoal encolhendo 1,1%.

No cenário doméstico, algum ruído com o projeto de reforma tributária em sua primeira fase apresentada pelo ministro Paulo Guedes, com a equipe econômica querendo acelerar novas mudanças inclusive introduzindo o novo micro tributo sobre transações digitais, que o presidente da Câmara diz não haver clima para ser aprovado. Paulo Gudes e o relator da reforma na comissão mista do Congresso deram declarações que não pretendem elevar a carga tributária, mas visam a simplificação dos tributos. Porém, vários são os setores que identificam elevação da carga.

O presidente da Câmara também disse aguardar o encaminhamento da reforma administrativa pelo governo, já que não seria próprio o Legislativo interferir no poder Executivo. Maia também começou a tocar com as lideranças da Câmara, projetos para preservação do meio ambiente, que nas últimas semanas tem sido objeto de forte pressão por investidores externos.

Em termos de dados econômicos, o período foi de analistas melhorarem as projeções para o PIB do Brasil em 2020, agora tendendo para o intervalo abaixo de -6%. Isso coincide com a pesquisa Focus do Bacen que projeta agora contração de 5,77%. O saldo da balança comercial até a quarta semana de julho mostrava superávit acumulado de US$ 28,75 bilhões. O estoque de crédito total cresceu em junho 0,8% para R$ 3,62 trilhões, significando 50,4% do PIB. O endividamento das famílias ficou em 46,5% em junho e a inadimplência no crédito livre encolheu para 3,7%.

Já o déficit primário do setor público em junho foi de R$ 188,7 bilhões e no semestre a cumulando R$ 402,7 bilhões. O déficit nominal atingiu no semestre R$ 576,3 bilhões, algo como 16,66% do PIB. Já a dívida bruta estava em junho em 85,5% do PIB, vindo no mês anterior de 81,9%.

O resultado da Vale do segundo trimestre (US$ 995 milhões) mostrou dados mais positivos e permitiu que a empresa anunciasse pagamento de juros sobre o capital próprio no início de agosto e possível dividendo extra. Já o prejuízo mostrado por Petrobras de R$ 2,71 bilhões foi interpretado como de sendo um “fundo do poço” e a geração de caixa foi muito importante. No mercado acionário local, os investidores pessoa física e gestores de recursos têm dado saída para investidores estrangeiros que seguem sacando recursos. Até o dia 28/7, os investidores estrangeiros já tinham sacado R$ 6,6 bilhões, com saídas líquidas acumuladas em 2020 de R$ 83,1 bilhões.
Indicadores da semana
IBOVESPA +0,51% (102.912)
DOW JONES -0,15%
NASDAQ +3,69%
DÓLAR +0,30% (R$ 5,222)
• Julho com +8,4%

Perspectivas

A próxima semana embute a decisão do Copom sobre política monetária e nossa aposta majoritária de que irá cortar possivelmente 0,25%, levando a taxa Selic para o patamar de 2%, e aí pode haver até uma parada para sentir a recuperação da economia e como a covid-19 irá se comportar. Temos expectativa de que a nova expansão da pandemia, não será tão drástica quanto no primeiro movimento, portanto, a recuperação econômica global não será muito afetada em seu ritmo.

China e EUA lideram essa recuperação, e o Brasil como celeiro de produtos primários pode se recuperar com alguma agilidade. Porém, isso não exclui o empenho dos três poderes em arranjar bom termo de convivência e com isso agilizar reformas e ajustes que são necessários. Hoje, estamos mais otimistas com os acertos do lado político e formação de base parlamentar para dar sequência aos projetos do país.

Contudo, não podemos descartar a guinada mais populista do governo sobre acabar o flexibilizar teto de gastos, retirar investimentos desse teto, ou ainda outras soluções do Brasil de antigamente. Isso afastaria ainda mais os investidores estrangeiros do Brasil, como demonstrado pelo Tesouro nessa semana com repatriação de recursos, ou mesmo a saída da Bovespa.

Mas somos otimistas e isso pode fazer com que a Bovespa volte a ter o objetivo de chegar e eventualmente ultrapassar o patamar de 108 mil pontos. Só não deveríamos perder o patamar de 100 mil sob pena de atrasar a recuperação e agregar maior instabilidade.

Bom final de semana!

Alvaro Bandeira