A semana inspira os investidores e pode trazer maior volatilidade aos mercados. Antes de tudo, temos que considerar que os indicadores do mercado americano voltaram a bater sucessivos recordes, o mesmo acontecendo em outros países como Índia e Japão, tudo isso em meio a segunda onda de contágio pela covid-19. Aqui, não voltamos ainda ao patamar já quase alcançado de 120 mil pontos do Ibovespa, mas pelo menos, praticamente zeramos a conta de perdas do ano de 2020.

A semana é de última reunião do ano de bancos centrais como BOJ, BOE e FED; cada qual com suas especificidades. O governo japonês do primeiro-ministro Suga, já anunciou que prepara um orçamento extra de US$ 190 bilhões, e a economia por lá começa a mostrar sinais de melhora, seja na elevação dos indicadores de atividade industrial ou mesmo na confiança da indústria do segundo trimestre, divulgado na semana em -10 pontos. Portanto, não é de se esperar grandes mudanças, mas pode ampliar novamente a compra de fundos, como em diversas ocasiões.

Já o BOE (BC inglês) parece estar diante de um dilema. Temos uma novela digna daqueles dramalhões mexicanos do final do século, que em um momento parece que vai dar tudo certo, e em outro tudo errado, com relação ao Brexit. Faltam 15 dias para o encerramento do ano e ninguém sabe qual será o desfecho. Teremos ou não teremos acordos comerciais entre o Reino Unido e a União Europeia? Aparentemente todos estão preparados para a hipótese de desfecho sem acordo, mas mesmo assim ainda não seria o desfecho. A decisão do BOE, então, fica bastante complicada, mas tudo indica que guardaram um pouco de fôlego para tentar organizar a economia, depois que tiveram uma decisão das negociações com a União Europeia.

O FED também comunga dilema semelhante. Quando o pacote de estímulo fiscal ameaçava não sair, o consenso era que o FED seria mais benevolente e assim foi feito alongando prazos. Quando a hipótese de pacote ficava mais palatável, o consenso migrava para um FED um pouco mais duro, apesar de seguir indicando taxas de juros muito baixas por vários anos. Mas tudo indica que diante dos últimos dados de conjuntura apresentados, da postura dos membros do FOMC (Comitê de Política Monetária), falta de acordo entre Republicanos e Democrata, da chegada de um novo governo de oposição a Trump; alguma coisa será feita no âmbito do novo governo ou do FED.

Bem verdade que, nesse momento, a política fiscal faz mais efeito que a monetária em quase todos os países, dado que o problema maior é de perda de renda por parte das pequenas empresas e pessoas. Mas o bom de tudo isso é que a resolução está próxima, e, além disso, nas próximas semanas e meses já teremos os primeiros efeitos coletados da imunização massiva das populações dos países desenvolvidos e previsões provavelmente mais alvissareiras da recuperação econômica global. Isso se não vingar a notícia de nova cepa do vírus.

Bom, e o Brasil? Aqui estamos muito atrasados no combate a covid-19 (aqui ainda não dá nem para falar em segunda onda) por conta da inação do governo na área de saúde e troca de dois ministros no meio da pandemia, um presidente pouco sensível aos problemas da população (notadamente os mais pobres e não exatamente pela falta de dinheiro para sobreviver), por conta do negacionismo da pandemia (“gripezinha”, “coisa de maricas” ou “finalzinho da pandemia”), quando as estatísticas indicavam exatamente o contrário. Além do mais, ao longo do processo de contágio, a questão foi sempre tratada de forma política, e o mesmo acontece agora com as vacinas, quando o presidente pode ser acusado por crime de responsabilidade. O Brasil está completamente atrasado em negociações para aquisições de vacinas com as grandes farmacêuticas e o presidente alimenta briga (chegou a comemorar) com o governador de São Paulo sobre a vacina chinesa.

Notem que nem sequer abordamos todas aquelas questões que fazemos com grande insistência de que o país não tem recursos, que reformas precisam ser feitas em amplo espectro, que eleições iam atrasar tudo (agora no Congresso) e festas de fim de ano também, além das questões ambientais. É o que estamos chamando de vácuo de governança, onde todos falam e discutem, e ninguém tem razão

Não custa lembrar que estamos perdendo dias e meses preciosos que não só retardam a recuperação econômica de forma consistente, mas que podem tirar o país por um bom tempo do radar dos investidores no mundo.

Alvaro Bandeira e economista-chefe e sócio do banco digital modalmais