Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do banco modalmais

A semana que está começando deve ser bastante intensa e, de certa forma, inesperada. Tudo isso por conta do recesso do Congresso por aqui e, no Hemisfério Norte, por conta das férias de verão, que reduzem o volume de operações no mercado de risco e, teoricamente, a volatilidade.

Mas nada disso parece vingar neste ano tão diferente afetado pela covid-19 e sua variante Delta, que começa a se espalhar pelo mundo, que já comemorava a regressão, mas pode estar entrando numa terceira onda, o que acaba retardando a recuperação da economia global. Por sorte, até aqui, apesar de mais contagiosa e com a vacinação adiantada em países desenvolvidos e alguns emergentes, como o Brasil (45% da população vacinada em pelo menos uma dose), os níveis de hospitalização e óbitos têm declinado, mas ainda assim representam risco considerável.

Os EUA discutem se vão obrigar novamente o uso de máscaras pelo vacinados (até então liberados), começam a estudar a necessidade de dose de reforço mesmo com as vacinas eficazes contra a nova cepa e pensam em restringir o fluxo de estrangeiros. A Alemanha se assusta com a contaminação crescendo novamente, assim como boa parte da Europa e da Ásia, e os países pobres podem ser mantenedores do vírus e das novas cepas.

Junto a isso, vem o dilema de bancos centrais e governos. Começar a estudar e, eventualmente, retirar estímulos fiscais e monetários diante desse quadro de indefinição. Deixar a inflação variar em alta, torcendo para que seja em boa parte realmente transitória. Começar a reduzir compras de ativos e a liquidez, interferindo nos juros e, com isso, trazendo enorme dificuldade para empresas e governos que se endividaram com juros baixos. Como temos alertado, ninguém tem a resposta certa e todos terão que aprender com essa inédita crise sanitária, que pode se transformar também em crise do sistema financeiro. Ainda bem que esse parece ser um problema para ser resolvido no médio e longo prazo, mas os mercados agem e reagem de forma antecipada.

Mas, voltando para a semana em curso, a agenda está cheia! Vamos ter a divulgação do PIB americano do segundo trimestre, que parece ser o ápice da recuperação na próxima quinta-feira, e a decisão do FOMC (comitê de política monetária), do FED, onde a expectativa é de manutenção da política monetária, mas será preciso avaliar o comunicado, depois da inflação acima do esperado. O pressuposto é que venha em tom mais duro, relatando discussões sobre o “tapering”, onde não existe consenso entre membros votantes e não votantes. Já o PIB americano parece sinalizar para expansão em 2021 talvez acima de 7% e inflação mais próxima de 3%.

Nesse emaranhado de agenda, ainda teremos resultados do segundo trimestre de empresas importantes como Apple, Facebook, Alphabet (Google) e Tesla; dentre outras, mexendo pontualmente com a precificação dos ativos, num cenário recente de novos recordes de pontuação dos principais índices.

Aqui não será diferente, e teremos resultados de Vale, Ambev, Tim e do setor bancário; dentre outros, sendo esmiuçados para projetar o restante do ano, diante de algumas quebras de safra pelo frio intenso em regiões e preços das commodities no exterior, com a China eventualmente desacelerando e restrições como as mostradas para o setor siderúrgico. Basta ver, por exemplo, que o minério de ferro registrou queda de 9% na semana passada em Qingdao.

Ainda vamos ter que conviver com os ruídos produzidos pelo ajuste do Imposto de Renda, com 20 entidades pedindo a rejeição integral do PL, dificuldades de aprovação na volta do recesso e o Senado querendo assumir o protagonismo acelerando o IVA federal (imposto de valor agregado). Além disso, as discussões patrocinadas por Bolsonaro sobre voto impresso sem apoio de congressistas e todas as idiossincrasias produzidas pelo presidente.

Aliás, nesse ambiente político incerto, se abrem boatos de toda ordem, como fusão de partidos (PSL, Progressista e DEM), recriação do Ministério do Planejamento – forçada pelo Centrão, ainda mais poderoso -, medidas populistas, Bolsa Família turbinado e presidente tentando recuperar a aprovação popular e ampliar base de apoio parlamentar.

Colocando tudo isso no liquidificador, o resultado é a continuidade da volatilidade dos mercados de risco, tanto aqui como no exterior. Vamos precisar de muito sangue frio e bons conselhos para atravessar as próximas semanas.

De nossa parte, acreditamos que nosso pessoal treinado possa dar suporte para decisões de investimento, diante dos fatos que vão surgindo.

Alvaro Bandeira