Tem sido citação recorrente em nossos comentários o ambiente político tenso, basicamente deflagrado pelo presidente Bolsonaro e suas colocações muitas vezes imprudentes. Nas últimas semanas, o tom do governo – e também da oposição – tem se ampliado drasticamente, e isso não só afeta todos os mercados (Bolsa, juros e, principalmente, dólar) na precificação dos ativos, como também mexe com o fluxo de recursos carreados para o país.

Nossa maior preocupação está na necessidade de o Brasil dispor de investidores externos alocando recursos de forma perene em suas diversas vias, mas, sobretudo, na necessidade de acelerar reformas estruturantes na economia, visando a saída da pandemia (quando começar a ocorrer) e garantindo segurança jurídica a todos os empreendedores, sejam eles locais ou internacionais.

Isso não tem acontecido nas últimas semanas, fartamente visualizado pelo comportamento do câmbio deslocado e a queda mais recente do mercado acionário. Não deveria ser assim, já que o real é ainda uma das moedas mais desvalorizadas frente ao dólar, e o mercado acionário sobe quase a metade da alta do mercado americano, que bate sucessivos recordes de pontuação. Aqui, depois do real ter batido em queda abaixo de R$ 4,90 na semana passada, voltamos a R$ 5,32, só cedendo depois de o Bacen intervir vendendo contratos de swap cambial, retornando ao patamar de R$ 5,25 agora.

No segmento Bovespa da B3, beiramos ingressos de investidores estrangeiros da ordem de R$ 49 bilhões no acumulado do ano, mas com o mês de julho sinalizando saídas, e volume acumulado retrocedendo para R$ 47,3 bilhões até 07/07. Podemos agregar a essa estatística dados oferecidos pela Anbima, indicando captação recorde no primeiro semestre de R$ 253 bilhões, mas sendo 82% em debêntures e R$ 35 bilhões em IPOs. Imaginem o que teria sido se não tivéssemos os desentendimentos entre os três poderes e o real desvalorizado, que torna tudo mais barato para os estrangeiros.

Caindo na real, com a tensão política só aumentando, fica difícil acreditar que tudo possa andar rápido nos ajustes necessários para a economia, com bancos centrais de países desenvolvidos já discutindo a retirada de estímulos monetários e/ou fiscais por parte dos governos. Isso vai reduzir a liquidez do sistema financeiro global e encarecer juros, além de prejudicar países emergentes problemáticos (o Brasil é sempre citado neste quesito). Como consequência, estamos deixando passar um bom momento para repensar e ajustar nossa economia, enquanto a situação global é ainda bem amigável.

Só para ilustrar, na semana passada, o presidente lançou palavrão contra a CPI da covid-19 em sua live tradicional, fez afirmação sem comprovar de desvios de R$ 260 milhões por Omar Aziz, presidente dessa CPI, chamou o presidente do TSE e membro do STF de imbecil, aventou a possibilidade de não haver eleições em 2022 se o voto não for impresso e, como sempre, detonou pesquisas de opinião (todas) que mostraram o descenso de sua aprovação pessoal e de governo. Abriu a chance de crime de responsabilidade e prevaricação (no caso da compra de vacinas Covaxin), e membros importantes da CPI, como Simone Tebet, dizem já terem elementos para mais um pedido de impeachment. Tivemos a prisão da CPI de Roberto Dias, declarações de Omar Aziz sobre banda podre das Forças Armadas e nota dura de repúdio do Ministério da Defesa, assinada pelos ministros militares.

Dissemos tudo isso para deixar claro que o tom foi elevado em demasia e, se os ânimos não serenarem, nada sairá neste fim de ano. Basta catalogar todos os ruídos sobre os ajustes no imposto de renda, mobilizando mais de 120 entidades empresariais para adiar votação, a pressão em almoço com Paulo Guedes de lideranças empresariais no fim de semana, e uma volta atrás de Paulo Guedes, dizendo que pode mandar um substitutivo do imposto, já que ruídos existem em sua própria equipe econômica que atribui a maldade fiscal à Receita Federal.

Diante de tudo, fica nossa torcida para que a situação não estresse ainda mais, mas diante do perfil do presidente, acaba sendo pouco provável.

Alvaro Bandeira é economista-chefe e sócio do banco modalmais