A semana passada não foi de vida fácil para Bolsonaro, como têm sido todas as recentes. O presidente e o poder Executivo como um todo, têm sido pressionados ao extremo por três questões principais, a saber: o risco político, o quadro fiscal em deterioração e a crise sanitária. E se quisermos colocar mais uma, elegeríamos a questão climática.

No ambiente político, o presidente terá que dar solução nessa semana para o orçamento de 2021 aprovado pelo Congresso, com a equipe econômica alegando que da forma como está é inexequível. Mais para o final de semana surgiram alternativas de usar sobras do Bolsa Família e cortes em ministérios, especialmente o do Desenvolvimento Regional (disputa primazia com Paulo Guedes), sem querermos fazer qualquer alusão, para manter emendas parlamentares e elevar gastos subestimados como o do INSS. A hipótese de cortar emendas desgastaria Bolsonaro e sua base de apoio, o que poderia tornar sua gestão infernal.

Mas o Brasil “suis generis”, ainda não tem o orçamento de 2021 aprovado, mas já divulgou a LDO (lei de diretrizes orçamentária) de 2022. Estimando déficit da ordem de R$ 170 bilhões e com o governo querendo autorização para ajustar salários de servidores públicos. Exatamente no momento onde a escassez de recursos impera, o teto de gastos se mostra insuficiente para ajuste fiscal e profissionais estimam que superávit fiscal só lá para os idos de 2030, e com a dívida bruta superando 100% do PIB, quando a média dos emergentes se situa pouco acima da metade disso.

Já a crise sanitária mostra o país com recordes sucessivos de contaminação pela covid-19, recordes também de óbitos e, até aqui, com pouco mais de 12% da população vacinada. Só para comparar, os EUA indicam que metade de sua população já recebeu pelo menos uma dose da vacina, e ainda assim, as contaminações e internações seguem em expansão. Aqui alguns estados começam a flexibilizar o isolamento e o risco de voltarmos a ter recordes se ampliam. Faltam vacinas para imunizar. O SUS, com sua extensa rede, foi meio que afastado do processo vacinal e não buscamos por vacinas e insumos (IFAs) com a celeridade requerida. Resultado, tem sido exaustiva a busca por imunizantes e vamos demorar bastante para atingir a tal “imunidade de rebanho”.

Mesmo com tudo isso ainda temos curtos circuitos que advirão da instalação da CPI da covid-19 para investigar a atuação do governo, o tratamento precoce que a ciência teima em dizer que não recomenda e a atitude negacionista do presidente sobre vacinas, uso de máscaras e em não dar crédito para as estatísticas de óbitos que superam 370 mil e contaminados beirando 14 milhões. Nessa semana que passou, em tom sarcástico o presidente declarou que o vírus matou o mosquito-da-dengue.

Já com relação à questão climática, na ordem do dia mundial, o Brasil tem sido muito cobrado e na semana que passou não foi diferente. Fomos cobrados pela pandemia (onde viramos meio párias) e pelo clima, com severas críticas do parlamento Europeu. Além de sermos cobrados por uma ação imediata contra o desmatamento. A missão americana na América do Sul, não esteve por aqui, o que parece ser sintomático das pressões exercidas. É bem verdade que Bolsonaro não tem praticado seus discursos de 2020, quando negou o envio de recursos externos para a Amazônia, puxando o mote da soberania do País.

Ainda no final de semana que passou, tivemos o encontro de ex-chanceleres de peso. Na reunião, atitude do antigo chanceler Ernesto Araújo foi extremamente contestada, foi posta em dúvida a atuação do novo titular do ministério das Relações Exteriores e Rubens Ricupero disse que a carta encaminhada a Biden estava com um amontoado de mentiras.

Nessa semana o presidente participará da Cúpula do Clima e terá que suavizar ainda mais seu discurso, sob pena de fechar ainda mais as portas para solucionar o problema do desmatamento, que urge dispor de recursos.

Como se vê, a semana parece ser fundamental para mudarmos nossa postura como país que quer crescer de forma ordenada, atrair investimentos e ter relações profícuas com o resto do mundo e os países líderes.

Vamos torcer para termos boa presença!

Alvaro Bandeira é economista chefe e sócio do Modalmais