RIO – As agências de classificação de risco devem esperar a votação da reforma da Previdência antes de tomar uma decisão sobre a nota de crédito brasileira, na avaliação de economistas. A proposta deve voltar a ser analisada em fevereiro. Não há consenso, no entanto, sobre qual será o posicionamento das instituições. Uma rodada de rebaixamentos no ano que vem não é descartada em caso de derrota do governo no Congresso, mas há quem veja espaço para um voto de confiança lastreado na expectativa de recuperação econômica.

Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, se encontrou com representantes das três principais classificadoras: Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch. Nesta quinta, a S&P informou que anunciará sua decisão sobre o rating brasileiro na semana que vem. A informação foi recebida com nervosismo pelo mercado, mas, no início da tarde, Meirelles descartou que a S&P tenha antecipado um rebaixamento da nota do Brasil.

Para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, um rebaixamento agora é improvável. Junto à S&P, que costuma ser a primeira a anunciar mudanças de nota, o Brasil tem nota BB, dois degraus abaixo do chamado grau de investimento, espécie de chancela para economias consideradas boas pagadoras. Em maio, a agência colocou o país em observação negativa, mas retirou esse alerta em outubro. A economista acredita que, no máximo, o país pode entrar novamente em observação negativa.

— Rebaixar, acho difícil. Já estava no radar das agências a dificuldade de aprovar (a reforma da Previdência). Além disso, dado que a gente tem eleição e que o debate está mais maduro, gerando a expectativa de que o próximo presidente tenha isso como um debate, as agências devem dar o benefício da dúvida ao Brasil — afirma Zeina.

A economista destaca ainda que o contexto do Brasil é mais favorável do que no passado, o que também deve ser considerado pelas agências.

— O Brasil não está uma confusão. A gente está falando de um país que, bem ou mal, tem uma agenda econômica muito mais clara e que está acelerando seu crescimento. Crescimento econômico, mesmo que seja pequeno, é um tremendo remédio, que ajuda a estabilizar o fiscal — pondera.

Álvaro Bandeira, economista-chefe da corretora Modalmais, também acha improvável uma mudança agora e espera que as decisões fiquem para fevereiro. Mas não vê um cenário tão favorável da economia.

— Seria prudente que as três principais agências aguardassem a definição até fevereiro para ver se vai ter ou não condição de votar (a reforma da Previdência). Isso vai ser o divisor de águas — afirma o analista, que vê com cautela a trajetória de recuperação da atividade. — Houve a liberação das contas inativas do FGTS, que aumentou as vendas no varejo, melhorou a produção industrial, reduziu comprometimento da renda. E uma taxa de inflação muito contida, além de taxas de juros mais baixas. Mas, isso tudo, sem encaminhar reforma, não só Previdência, mas tributária e privatizações, não vai ter um crescimento consistente.

LANGONI: PESO DAS AGÊNCIAS É MENOR

Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), também espera que as decisões sobre a nota de crédito brasileira fiquem para o ano que vem. Mas considera inevitável uma nova rodada de rebaixamento, caso a reforma da Previdência não seja aprovada.

— Se a reforma for derrotada ou adiada, é inevitável uma nova rodada de rebaixamentos a partir do segundo trimestre do ano que vem. Esse é o grande fator econômico — afirma.

Para Langoni, no entanto, o protagonismo das agências para medir o humor dos investidores tem diminuído nos últimos meses. Desde 2016, quando a Moody’s retirou o grau de investimento do Brasil, o país não tem o selo de bom pagador de nenhuma das três principais agências. Novos rebaixamentos, portanto, têm menos efeito prático sobre fluxos de capital para o país: a principal mudança de cenário foi em 2015, quando S&P e Fitch rebaixaram o país, o que afasta investimentos no país.

O economista destaca que o risco país brasileiro, medido pelos credit default swaps (CDS, espécie de seguro do investidor contra a desvalorização dos papéis), caiu pela metade em um ano, de 400 para 200 pontos base. Além disso, o investimento estrangeiro direto (IED) deve encerrar o ano na marca dos US$ 80 bilhões e repetir o montante no ano que vem, nas contas do especialista.

— Já há algum tempo, a importância da classificação de risco brasileira pelas agências tem sido muito relativa. Tem até perdido peso na formação da taxa de câmbio, na definição de fluxos externos de capitais — afirma Langoni. — Acho essa medida de risco país (medida pelos CDS) mais precisa, mais realista, porque capta melhor os avanços no ambiente de negócios, principalmente na eficiência do ajuste externo, com déficit em conta corrente hoje na faixa de 0,5% do PIB. E capta alguns avanços macroeconômicos importantes, que as agências de ratings não dão o peso devido — completa.

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Fonte: O Globo. em 21/12/2017 18:38