Companhias de siderurgia, além de Vale e Petrobras, foram as que mais se destacaram
RIO – A recuperação das commodities no mercado internacional e a mudança de governo no Brasil após o impeachment levaram, em 2016, a saltos de quase 200% entre as ações que compõem o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Companhias do setor de siderurgia, além da mineradora Vale e da estatal Petrobras, dominaram o ranking de companhias do Ibovespa que mais se valorizaram. A maioria desses papéis começou o ano operando em suas menores cotações em mais de uma década, deprimidas pelo fim do chamado superciclo dos produtos básicos, por graves problemas de gestão, que levaram a alto endividamento e baixa geração de caixa, e por três anos consecutivos de queda da Bolsa provocados pela recessão e pela paralisia política. Quarenta e nove das 58 ações que integram o principal indicador da Bolsa fecharam o ano em alta, favorecidas pela onda de otimismo que dominou o mercado. Graças a isso, as dez ações que mais subiram levaram a um aumento de R$ 243,8 bilhões no valor de mercado das oito companhias que correspondem a elas.

A mudança de expectativas também fez vítimas. O fortalecimento do real divisa que teve a maior alta frente ao dólar entre as 31 principais moedas do mundo levou à desvalorização de ações de empresas exportadoras, como Embraer e produtoras de papel e celulose.

A ação do Ibovespa que mais se valorizou em 2016 foi a Bradespar, empresa de investimentos que detém 21,2% do capital votante da controladora da Vale, a Valepar. A ação preferencial (PN, sem direito a voto) registrou disparada de 199,92% no ano que passou. O movimento foi proporcionado pelo desempenho da própria Vale, cujos papéis preferenciais (PNA, sem voto) subiram 129,2% e os ordinários, 98,2% (R$ 25,68). Segundo analistas, a principal razão foi a valorização do minério de ferro, cuja tonelada avançou 81%, encerrando o ano a US$ 78,87.

O rali do produto foi provocado pelo investimento em infraestrutura na China e, no fim do ano, pela eleição de Donald Trump e sua promessa de investir US$ 1 trilhão em obras. Além disso, grandes produtoras de minério pisaram no freio em 2016 em reação aos baixos preços do começo do ano. A alta do minério também ajudou as siderúrgicas, mas Álvaro Bandeira, do Modalmais, observa que foi mais determinante a decisão do governo chinês de cortar a produção de aço. Ele explica que havia uma supercapacidade produtiva no país asiático, que despejava aço barato no mercado global. Como resultado, a Metalúrgica Gerdau disparou 192% em 2016, enquanto sua controlada Gerdau subiu 133,3%. As rivais CSN e Usiminas saltaram 171,2% e 169%, respectivamente.

O setor de siderurgia foi um dos principais destaques, mas é preciso lembrar que ele estava praticamente com o pé na cova. O que o salvou foi o movimento de Pequim. Mas a melhora não deve se sustentar por muito tempo. Não aconteceram as mudanças necessárias para que essas siderúrgicas de fato se tornem rentáveis. O custo de produção, a logística e a demanda interna seguem sendo empecilhos avaliou Alexandre Wolwacz, da Escola de Investimentos Leandro&Stormer.

As ações da Petrobras saltaram 97,7% (ON) e 121,9% (PN). Uma razão, segundo Raphael Figueredo, da Clear, foi a própria alta do petróleo, cujo barril do tipo Brent subiu 23,3% no ano e foi favorecido pelo acordo de grandes países produtores para cortar a produção em 2017. Mas o analista destaca a mudança na gestão da companhia, com Pedro Parente assumindo o comando em maio e impondo uma nova política de preços. A ação ordinária da companhia, no entanto, cotada abaixo dos R$ 17, ainda está longe do seu pico de R$ 51,30 em 2008. Completa o top 10 do Ibovespa o Banco do Brasil, que subiu 99,4% no ano.

A ponta contrária do pregão foi dominada por empresas exportadoras, que sofreram muito com a queda do dólar. Mas há também algumas questão particulares. A Embraer, por exemplo, tem uma dívida elevada. A JBS afastou investidores por estar envolvida na confusão da política acrescentou Figueredo.

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De acordo com Alvaro Bandeira, companhias ligadas ao consumo interno também foram vítimas, é claro, da recessão. É o caso da Ambev, que não se beneficiou da bonança da Bolsa e caiu 4,8%. Segundo relatório de novembro do JP Morgan, seus preços vêm de cinco anos seguidos de reajustes acima da inflação, enquanto seu portfólio de produtos é mais orientado para os segmentos médio e alto do mercado consumidor. Com o aumento do desemprego, sua clientela foi atingida em cheio.

Veja íntegra no jornal Globo Online de 03/01/2017 por Rennan Setti