Ibovespa teve 39% de valorização, a maior entre 18 índices acionários do mundo
RIO – Para a maioria dos brasileiros, 2016 foi péssimo para o bolso, com a continuidade de uma recessão profunda pelo segundo ano consecutivo, desemprego atingindo 11,9% e salários quando pagos achatados. Mas quem investiu no mercado financeiro não enfrentou dificuldades para ficar mais rico. A melhora das expectativas com relação à política fiscal trazida pela mudança de governo, aliada a uma valorização das commodities no mercado internacional, proporcionou ganhos superlativos e muito acima da inflação e do próprio CDI (referência de rentabilidade) em mercados como os de ações e de títulos públicos. Nesse contexto, o índice Ibovespa, referência da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), foi a aplicação imbatível de 2016. Ele registrou apreciação de 38,9% no ano, a maior entre os 18 principais índices acionários do mundo. Quando calculada em dólares, a valorização do Ibovespa foi de 69%, maior do que a de qualquer um dos 94 índices de referência do mundo.

A principal explicação foi a mudança de rota na política econômica promovida pelo impeachment, com a saída de Dilma Rousseff e a entrada de Temer. Foi determinante o fato de a equipe econômica indicada por Temer ter autonomia e ser, digamos, empoderada, tendo assumido como objetivo principal a redução da inflação para dentro da meta explicou Paulo Nogueira Gomes, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management. Essa postura acabou sinalizando um novo ciclo de queda de juros, o que beneficiou a Bolsa e também os títulos públicos prefixados e indexados à inflação.

O movimento da Bolsa este ano foi de recuperação, após três anos seguidos de perdas provocadas pelo ocaso do Império X, de Eike Batista, pelas implicações da operação Lava-Jato em empresas como Petrobras, pelo tombo das commodities e, mais recentemente, por causa da recessão econômica do país. Tanto que, apesar da forte alta deste ano, o Ibovespa encerrou 2016 aos 60.227 pontos, ainda abaixo do nível com que terminou 2012 e mesmo abaixo do patamar que chegou a ter na segunda metade de 2014. No pico de 2016, aliás, em outubro, o índice chegou a encostar nos 65 mil pontos, mas recuou com a vitória de Donald Trump e com a turbulência política dos últimos meses.

Como resultado da valorização da Bolsa, os fundos de investimento do tipo Ações Livre, que têm liberdade para escolher seus papéis, se valorizaram 24% no ano em média. Mas os fundos de ação fechados usado por pequenos grupos de investidores qualificados, com gestão exclusiva não conseguiram se beneficiar da bonança e perderam, em média, 4% em 2016.

Depois da Bolsa, os títulos públicos prefixados (que pagam uma taxa fixa já conhecida no momento da aplicação) e indexados (juros prefixados mais a inflação do período) foram os que entregaram maior rentabilidade aos investidores.

Esses papéis foram favorecidos pela percepção dos investidores de que os juros cairão de maneira mais acelerada nos próximos anos. O contrato de juros futuros DI com vencimento em 2021, por exemplo, começou o ano em 16,58% e terminou em 11,34%. Isso fez com que os títulos públicos que foram emitidos no passado, a taxas maiores, ganhassem valor.

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Após a mudança de equipe econômica e depois de a inflação mostrar que estava desacelerando, o mercado financeiro começou a projetar juros mais baixos para o futuro. Isso levou a uma intensa transformação nos preços dos títulos que circulam no mercado afirmou Sandra Blanco, consultora da plataforma de investimentos carioca Órama.

FUNDOS CAMBIAIS NA LANTERNA

Quem fica com o título na mão até o vencimento não é impactado pela mudança de preços, pois os papéis pagam o que foi combinado no momento da aplicação. Mas existe um mercado secundário, no qual os aplicadores podem resgatá-los antecipadamente e cujos preços variam, como se fossem ações, influenciados pelas condições econômicas. A valorização registrada em 2016 aconteceu nos preços dos papéis no mercado secundário.

Segundo o índice IMA Geral, calculado pela Anbima, os títulos do Tesouro se valorizaram 21% em 2016. Os papéis prefixados, em média, viram seu preço subir 23,4%, enquanto os indexados à inflação avançaram 24,8%. Sandra observou que o impacto foi absorvido de forma ainda mais intensa pelos títulos de prazo maior. Os prefixados com prazo acima de um ano, por exemplo, registraram valorização de 29,6%, enquanto os indexados vencendo daqui a mais de cinco anos avançaram 31%. Alguns papéis específicos chegaram a bater o salto da Bolsa: de acordo com o site do Tesouro Direto, o título indexado à inflação com vencimento em 2035 acumulou rentabilidade de 47,81% em 2016.

A boa rentabilidade dos títulos fez com que os fundos de renda fixa registrassem resultados, na média, por volta de 14%. Os fundos multimercados do tipo macro com ampla liberdade para montar suas carteiras conseguiram entregar retorno médio maior, de 19,3%.

No caso dos multimercados macro, vimos resultados mistos. Alguns conseguiram aproveitar a mudança na curva de juros e também as oportunidades na Bolsa, mas tivemos alguns que foram com muita sede ao pote. Ficaram muito expostos ao kit Brasil e aí entregaram parte dos resultados afirmou Sandra.

O kit Brasil é o jargão de mercado para a aposta em uma melhora da economia brasileira, com alta da Bolsa e queda de juros e dólar. Isso tudo aconteceu em 2016, mas houve percalços no caminho que atrapalharam quem estava otimista demais. A redução dos juros veio em ritmo aquém do que se esperava.

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Foi um ano cheio de eventos que trouxeram grande volatilidade, como Brexit e Trump. Mas, no fim, prevaleceram as questões internas afirmou Rodrigo Puga, sócio-gestor do home broker Modalmais.

Veja integra em o Globo online de 31/12/2016 por Rennan Setti