Ayres (à frente) e Puga: oferta de crédito atrelada a investimentos e cartão Visa.

Modalmais vai ser transformado no banco digital do Modal. Aos produtos hoje disponíveis na plataforma de investimentos, como fundos, títulos de renda fixa e ações, serão adicionados serviços típicos de conta corrente em instituições bancárias de varejo: pagamento de contas, cheque especial, crédito pessoal e um cartão de débito com a bandeira Visa. A previsão é que o novo modelo esteja operacional entre março e abril.
“A ideia é permitir que o investidor tenha uma maior parcela da vida bancária dele aqui no Modal”, diz o sócio Cristiano Ayres. “Vai ser a primeira plataforma com estrutura aberta, atrelada a um banco no Brasil.”
Diferentemente dos caminhos trilhados por iniciativas puramente digitais no país, como a do Banco Original ou do Inter, a intenção não é, porém, privilegiar a oferta de crédito. A expectativa, de acordo com o executivo, é que isso represente uma pequena fração do negócio. A liberação da linha de empréstimo pessoal estará atrelada à garantia dos investimentos feitos via Modalmais.
“Se tiver algum ativo de liquidez mais longa, um CDB de cinco anos que não pode ser resgatado ou se o investidor é penalizado na antecipação, compensa tomar um empréstimo de curto prazo”, diz Rodrigo Puga, sócio do Modalmais.
O modelo do Modalmais se aproxima mais ao do BTG Pactual Digital, mas que ainda não oferece negociação de ações ou derivativos via home broker. A XP Investimentos, antes de planejar listar ações na bolsa ou se associar ao Itaú Unibanco, tinha um pedido no Banco Central (BC) para uma licença bancária desde 2015 e o sócio-fundador Guilherme Benchimol nunca escondeu a vontade de transformar o supermercado de investimentos num banco virtual.
Ao disponibilizar uma conta corrente convencional via Modalmais, de quebra o cliente passa a contar com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que assegura R$ 250 mil por CPF, prerrogativa que não existe na conta de investimentos oferecida pelas corretoras. Não haverá tarifas nos novos serviços. Um passo adiante pode ser a inclusão da modalidade crédito no cartão que já nasce múltiplo.
O projeto do Modalmais começou a ser desenvolvido há cerca de um ano, mas, desde a origem, a ideia era chegar nesse desenho, diz Puga. Já nesses primeiros dias de 2018, a plataforma começou disparando e-mails aos seus investidores comunicando a novidade e metade deles pediu o convite, conta o executivo.
No seu segundo ano completo de operações, a plataforma vai exibir lucro líquido de cerca de R$ 2 milhões no fechamento dos números de 2017. Já o banco fechou o primeiro semestre do ano passado com ganhos de R$ 7,7 milhões e tinha ao fim de junho R$ 2,9 bilhões em ativos, uma carteira de crédito expandida de R$ 1,12 bilhão e um índice de Basileia de 14%.
Segundo Ayres, ao ritmo observado em 2017, com a abertura de 15 mil contas por mês na plataforma, é possível chegar a 300 mil clientes em dezembro partindo da base ativa atual, de cerca de 130 mil investidores. No varejo, os quase R$ 4 bilhões em custódia podem encostar nos R$ 10 bilhões, ou até acelerar para R$ 15 bilhões com a distribuição via agentes autônomos, que começou a ser testada.
Para atingir esses objetivos, a grade de fundos também vai aumentar, dos quase 50 hoje disponíveis na plataforma para cerca de 200. Mas a ideia não é se posicionar como um “supermercado” de investimentos, diz Ayres, mas ser mais parecido com um “bistrô”, com um cardápio mais enxuto.
Segundo Puga, a intenção é ter ainda, com o auxílio da tecnologia, um serviço de alocação de ativos, personalizando a oferta, de acordo com o perfil, prazo e objetivos de investimentos. É o início de um modelo de inteligência artificial que a casa pretende desenvolver.
Para bancar os investimentos necessários na expansão do Modalmais, Ayres diz ter recursos suficientes dentro de casa, embora não descarte em alguns anos a hipótese de uma associação estratégica, especialmente se for para ter acesso ao mercado externo ou a novas tecnologias. Puga acrescenta que só pelo dinheiro, os sócios não dariam um passo desses. Uma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) seria um outro caminho possível, embora a plataforma seja “autogeradora de caixa”, com a diluição dos custos conforme se aumenta a escala.

Por: Adriana Cotias

Fonte: Valor. em 04/01/2018