O começo do ano já trouxe fortes movimentações no mercado global, com resquícios relevantes no mercado brasileiro. Parece, que as últimas duas semanas de clima tranquilo abriram espaço para uma semana com tantos eventos que não parece ter sido compactada em cinco dias.

No cenário externo, o começo da semana trouxe um resquício de 2021 com a eleição na Geórgia. Contra as projeções iniciais, mas em linha com as últimas pesquisas, os democratas garantiram os dois assentos do senado em disputa. Com isso, forma-se o cenário de Blue Wave, que havia surgido como alta possibilidade em outubro do ano passado.

Vemos o cenário como positivo. Por um lado, o embate político será menor do que no caso da oposição dominar o senado. Ao mesmo tempo, o fato da maioria ser atingida somente por conta do voto de minerva da Vice Presidente Kamala Harris garante que medidas mais contenciosas da plataforma de Biden não tenham possibilidade alta de serem aprovadas.

Assim, a expectativa é que tenhamos aprovação de um pacote fiscal estendido, o que contribuirá para a continuação do trade de reflação, com aumento da inclinação da curva de juros nos EUA e avanço nas bolsas. O dólar tem panorama misto, enfraquecendo-se somente se o efeito de avanço das bolsas for suficientemente grande para compensar o aperto das condições financeiras geradas pela abertura de juros. Nosso cenário base é que justamente isto ocorra.

Outro assunto de destaque é naturalmente o avanço da COVID-19. Neste sentido, infelizmente os dados seguem apontando para um ritmo lento de vacinação nos países que já a iniciaram (salvo algumas exceções) e fica evidente o descompasso entre um curto prazo muito desafiador e um longo prazo benigno por conta da aprovação da vacinação em massa e a passagem definitiva da pandemia.

No Brasil, para além das disputas em torno da vacina (note-se positivamente o anúncio da eficácia da Coronavac e a decisão do governo de comprar mais doses da vacina da Oxford/AstraZeneca), o destaque fica por conta da batalha política pela presidência da Câmara e do Senado. Por enquanto, vemos como mais provável a eleição de Arthur Lira na Câmara, mas reconhecemos que o processo é volátil.

Ao mesmo tempo, os riscos associados a ressurgência da pandemia podem levar a aumento do prêmio de risco local, mas esperamos que no médio prazo a perspectiva de vacinação se sobreponha aos desafios sanitários evidentes. Ainda assim, esperamos impacto na atividade do primeiro trimestre.

Finalmente, o real sofreu com a valorização do dólar global (no final da semana) e o ruído político local, tendo sucessivos desempenhos negativos ao longo da semana. Por outro lado, a bolsa parece o real beneficiário da ampla liquidez no mundo, atingindo novas máximas já no começo do ano.

Para frente, mantemos postura cautelosa em relação ao real, apesar de acreditarmos que ele esteja desvalorizado. A curva de juros pode apresentar mais flattening, enquanto a bolsa mantém tendência de alta.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais