Para todos os efeitos, o primeiro semestre de 2020 foi absolutamente sem precedentes. O choque da pandemia provocou o fim do ciclo de crescimento econômico que preponderou ao longo da década passada e suas sequelas ainda serão sentidas por meses. Apesar disso, os dados que temos sobre o final do segundo trimestre mostram uma recuperação econômica mais acelerada do que o antecipado. Ainda assim, os riscos de ressurgência das contaminações, como exemplificado esta semana pelo avanço do COVID19 nos EUA, reforçam a tese de que a recuperação está sujeita a percalços significativos.

No cenário externo a semana foi encurtada pelo feriado americano do dia quatro de julho, antecipado para hoje (sexta-feira, três de julho). Até quinta-feira, indicadores relevantes mostraram a velocidade com a qual a economia americana está se recuperando uma vez relaxados os protocolos de isolamento social. Especificamente, o mercado de trabalho voltou a surpreender. O Payroll mostrou criação de 4.8 milhões de vagas ao longo do mês de junho, com especial destaque para a criação de vagas de trabalho no segmento de lazer e entretenimento. A taxa de desemprego caiu novamente e está agora em 11.1%. Ainda assim, o acumulado do ano é extremamente negativo. Fato é que, em termos líquidos, o mercado de trabalho americano sofreu consideravelmente com a crise.

Por outro lado, a divulgação das minutas do FOMC na última quarta-feira reforçou a nossa expectativa de que o Banco Central americano adotará forward guidance em algum momento do segundo semestre, provavelmente na reunião de março. Essencialmente, a mensagem que fica é que por mais que tenhamos surpresas com os dados econômicos americanos no momento, este ainda é um cenário de extrema incerteza para o FED, o que motivará manutenção de política monetária extremamente acomodativa por longo período de tempo.

O que preocupa nos EUA é o avanço da pandemia. Nesta semana vimos um reforço dos dados das últimas três, com aumento considerável no número de contaminados e algumas regiões do Texas apresentando stress no sistema de saúde. Comentamos anteriormente que este seria o delimitador evidente de qualquer movimento de reabertura. Isto é, os governos estão dispostos a seguir com relaxamento de isolamento social até correrem o risco de colocar o sistema de saúde sobre stress excessivo. Quando isto acontecer, os movimentos de reabertura serão revertidos. Não esperamos que isto ocorra da forma como foi em fevereiro e março, mas a experiência da China e de países europeus sugere que teremos alguns momentos em que surtos localizados terão de ser contidos através de quarentenas localizadas. Com isto, o processo de retomada deverá ser permeado por momentos de maior apreensão sobre o crescimento.

Para encerrar o comentário internacional, os dados de PMI divulgados ao longo da semana surpreenderam positivamente tanto na Europa como na China. Assim, reforça-se a tese de que, a nível global, o pior momento da crise econômica ocorreu entre março e abril, com retomada cíclica a partir de então.

No Brasil, a semana destacou-se por tranquilidade política. Na realidade, devemos reconhecer que este tem sido um vetor relevante ao longo do último mês, com efeitos positivos para a articulação e consequentemente para uma futura possível retomada da agenda de reformas.

Sobre a economia, destaca-se principalmente a divulgação da produção industrial do mês de maio, que mostrou avanço de 7% em relação a abril. Como relatado em nosso comentário completo sobre o dado, o avanço verifica-se principalmente por conta de uma base de comparação (i.e. a produção industrial em abril) extremamente deprimida, o que mecanicamente torna os avanços atuais mais impactantes em termos de variação percentual.

Ainda assim, a retomada brasileira deverá ser mais lenta do que a retomada da economia global ao longo do tempo. Em parte, isto se explica pela manutenção de nível de contaminação por COVID19 ainda razoavelmente elevado no país, o que levanta incerteza sobre o real momento em que conseguiremos superar a primeira onda da doença.

A combinação de retomada cíclica da economia junto a taxa de juros extremamente baixos deverá permitir cenário favorável para ativos de risco. No entanto, destacamos a forte recuperação da bolsa desde meados de março e reforçamos que os riscos no horizonte são consideráveis: elevação novamente das contaminações, volatilidade ensejada pela corrida presidencial americana e riscos relativos ao orçamento no Brasil são apenas alguns dos elementos que estamos monitorando. Ainda assim, a ampla liquidez global deverá contribuir para a valorização de ativos reais (com diferenciação entre classes de ativos), enquanto a ancoragem das taxas de juros em patamar baixo permanecerá como indutor do movimento para a bolsa.

Por Felipe Sichel, estrategista Modalmais.