A primeira semana de novembro trouxe finalmente a eleição americana, mas com surpresas significativas em seu desenvolvimento. Em consequência do foco que a apuração da eleição recebeu (merecidamente), os dados econômicos da semana ficaram absolutamente em segundo plano. No Brasil não foi diferente: apesar de relevantes divulgações macroeconômicas, a eleição americana junto com a proximidade da eleição municipal garantiu uma semana em que o mercado local simplesmente acompanhou o mercado externo.

No tema dominante do cenário externo, temos alguns pontos relevantes a pontuar. Primeiramente, apesar da provável vitória de Biden (considerando-se que escrevo no começo da tarde de sexta-feira), o resultado esteve longe do que era projetado ao longo das últimas semanas. Na realidade, fica evidente que as pesquisas erraram novamente (em alguns casos de forma bastante grotesca), o que irá retirar ainda mais importância de seu monitoramento no próximo ciclo eleitoral.

Ao mesmo tempo, o desempenho dos democratas no Senado e na Câmara foi pior do que o antecipado, o que garante que cada partido tenha um motivo para estar decepcionado. O processo eleitoral do senado deve ser finalizado somente em janeiro com a resolução da disputa na Georgia, mas garantia de maioria democrata na casa é praticamente impossível. Ou seja, ao invés do Blue Wave, teremos uma composição de governo dividido com os republicanos controlando o Senado.

A judicialização do processo eleitoral também enseja preocupação, em parte derivada do fato desta ser encarada muito mais como uma forma do presidente Trump protelar o resultado das eleições do que de fato capaz de alterá-los. Neste sentido, o fato de que grandes líderes do partido Republicano não tenham endossado as acusações de fraude promovidas pelo presidente reforça a tese de que o final do ano poderá ser bastante ruidoso, mesmo com a definição da vitória por parte de Biden.

Em termos econômicos, o cenário do governo dividido faz-nos projetar um fiscal menor para o ano que vem, apesar da política externa provavelmente tornar-se menos agressiva em termos comerciais. Somado ao cenário de taxa de juros muito baixas por longo tempo (reforçado na reunião do FED desta semana), temos um cenário de enfraquecimento do dólar e benefício de bolsas de países emergentes. Isto não significa que o movimento será uniforme. Provavelmente veremos diferenciação entre os países na medida em que o movimento se consolidar. Evidentemente, economias com o equilíbrio macro mais sólido serão mais beneficiadas.

No Brasil, a principal novidade foi a votação da Independência do Banco Central no Senado na terça-feira. A medida ainda tem de ser aprovada na Câmara, onde há indicação de que será apensada a uma outra medida que já iniciou a tramitação e, portanto, pode ser aprovada mais rapidamente.

De resto, a produção industrial do mês de setembro foi divulgada na semana, mostrando recuperação do nível que foi perdido com a pandemia. Por outro lado, a inflação fechada medida pelo IPCA de outubro mostrou novamente aceleração no mês e justifica as revisões nas projeções de inflação para o ano fechado.

Em termos de alocação, acreditamos na manutenção do movimento de alívio global em consequência da eleição americana. Como dito anteriormente, todas as eleições desde a Segunda Guerra Mundial estão associadas a bom desempenho dos mercados americanos, independente do vitorioso. No entanto, a judicialização do processo e o ciclo da pandemia (que segue se intensificando na Europa e nos EUA) podem colocar viés negativo neste movimento. Tudo mais constante, esperamos enfraquecimento moderado do dólar e avanço da bolsa. E vale o alerta: o cenário ainda pode mudar por conta da recontagem dos votos (apesar de ser pouco provável).

 

Por Felipe Sichel, estrategista do modalmais