Com o recesso parlamentar no Brasil e o início do período de verão no hemisfério norte nota-se uma clara diminuição do fluxo de notícias e dados ao longo da semana. É interessante aproveitar este período para organizar os meses seguintes. Como o debate eleitoral ganhará espaço nas notícias daqui até o final do ano, aproveito para esboçar abaixo algumas formas de análise política advinda da teoria dos jogos.

Primeiramente, deve-se destacar, a título de cautela, que não há julgamento de valor nesta análise. Antes de mais nada, a teoria dos jogos versa sobre como indivíduos racionais atuam ante um espaço definido de interação com outros agentes. A decisão de onde os candidatos se posicionam no espectro ideológico vira, então, antes de mais nada, uma decisão estratégica sobre como ser eleito. Vale sempre ressaltar que, como toda analise teórica, o que vamos colocar aqui é uma simplificação da realidade, mas que traz alguns elementos úteis que ajudam na avaliação do cenário.

O primeiro modelo em questão é de uma cidade linear. Imaginemos que todos os eleitores de uma cidade, por exemplo 101 no total, situem-se ao longo de um eixo, cada um ocupando um espaço único (podemos imaginar este eixo como uma rua).

Ademais, para que o modelo funcione, temos de imaginar também que as preferências ideológicas destes indivíduos estão ordenadas. Ou seja, em uma ponta está o eleitor com pensamento mais à direita e, na outra ponta, o eleitor com pensamento mais à esquerda. Com isto, já mapeamos dois dos nossos 101 eleitores. Os 99 eleitores restantes são ordenados de acordo com sua preferência ideológica entre as duas pontas (ou seja, temos um contínuo de preferências ideológicas).

Os 50 primeiros eleitores são do campo da “direita”, o eleitor seguinte é “de centro” e os últimos 50 são da “esquerda”, totalizando os 101 eleitores que citamos no início.

Suponha-se agora que temos uma eleição com somente dois candidatos e que cada eleitor elege quem estiver mais próximo a ele ao longo do espectro ideológico. Adicionalmente, os candidatos podem se mover ao longo do espectro para tentar capturar mais votos. Finalmente, quem tiver mais votos ganha a eleição.

Começamos a nossa interação estratégica entre os candidatos (i.e., o “jogo”). Vamos supor de início que cada um dos indivíduos está em uma ponta do espectro de eleitores. Assim, o candidato da “direita” terá os 50 votos que estão da metade do espectro para a direita e o candidato da “esquerda” terá os 50 votos que estão da metade do espectro para a esquerda. O eleitor do meio permanece indeciso nesta situação.

Como quem capturar este último voto será o vencedor, os candidatos terão um incentivo para, cada um, dar um passo em direção ao centro e assim capturar o voto do eleitor indeciso. Se repetirmos este processo indefinidamente, eventualmente ambos os candidatos estarão no centro do espectro.

Ou seja, de acordo com este modelo específico, os candidatos vão eventualmente migrando para o centro de forma a capturar sempre uma maior parcela do eleitorado. Via de regra, este é um modelo interessante para iniciar uma análise quando temos dois candidatos ideologicamente muito antagônicos.

Vale a pena considerar alguns riscos deste modelo. Existe a possibilidade real da população não ser distribuída de maneira uniforme. Ou seja, pode existir uma concentração maior de eleitores em uma determinada parte do espectro ideológico. Se isto for verdade, então o incentivo dos candidatos para ir ao centro é obviamente menor. Este é um fator primordial: não sabemos de antemão como é a distribuição das preferências do eleitorado e, se os dois candidatos tiverem convicções diferentes desta distribuição, a atuação deles não será simétrica. Ou seja, a posição de equilíbrio não será no meio do espectro.

Aproveitaremos a semana que vem para comentar também o modelo de cidade circular, que impõe um equilíbrio diametralmente oposto do proposto no modelo linear.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.