O feriado do Carnaval de 2020 trouxe consigo uma ingrata consequência para o investidor brasileiro: na abertura da quarta-feira de cinzas, houve uma queda abrupta da bolsa, consequência do início da crise nos mercados gerada pela pandemia de COVID-19. Uma vez que a perspectiva para o ano é de saída da crise, nada mais natural do que esperar que fossemos efetivamente ter uma retomada dos negócios tranquila.

No cenário externo de fato vimos poucas novidades: segue valendo a dicotomia entre um curto prazo desafiador por conta das dificuldades impostas pelo isolamento social e um médio prazo benigno por conta do avanço na vacinação. Ao observador leigo, vale destacar que as experiências de vacinação acelerada, que estamos acompanhando, mostram o sucesso desta como solução efetiva para a crise do COVID. Ou seja, com aumento da vacinação a nível global, conseguiremos efetivamente sair desta crise.

Diga-se neste aspecto, que mantemos visão otimista quanto a vacinação no Brasil, apesar dos percalços vistos nesta semana (i.e., o término da disponibilidade de doses em algumas capitais). O que parece ocorrer no momento é que o atraso na distribuição de doses provocará um aumento na quantidade de vacinas disponíveis em março, ao invés de atrasar de forma definitiva o processo. Assim, a perspectiva de início da normalização da situação no terceiro trimestre segue válida.

O que nos preocupa é semelhante ao exposto na semana passada: o prolongamento da crise sanitária gerará pressões por maiores gastos e concessões do governo, de forma a tentar amenizar o impacto da perda de dinamismo econômico e da renda. Isto já pode ser visto na forma do auxílio emergencial e tem novo desdobramento com as reclamações do Presidente em torno da política de preços da Petrobrás. Diga-se que não esperamos intervenção na companhia, mas a retórica presente eleva a percepção de risco em torno da agenda de reformas e, portanto, pesa sobre os preços de ativos financeiros no Brasil.

Para frente, a elevação da inflação por conta dos reajustes de combustível e o risco em torno da questão fiscal fortalecem nossa expectativa de elevação da taxa SELIC já na reunião de março do COPOM, mesmo com o arrefecimento dos indicadores de atividade.

Assim, mantemos visão cautelosa sobre os ativos brasileiros. A curva de juros e o dólar embutem já parte dos riscos associados ao nosso cenário fiscal. No entanto, qualquer medida que seja vista como retirando mais o país da trajetória de reformas tende a provocar deterioração nos mercados. Neste sentido, necessitamos de sinalização clara tanto do executivo, como do legislativo.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais