Vivemos em tempos de uma crise absolutamente sem precedentes na história recente, seja por conta do seu fato gerador (saúde), seja por conta da resposta massiva adotada por autoridades para suavizar seus efeitos. Ante ambos os fatos, surge naturalmente o questionamento sobre a trajetória da recuperação da atividade ao longo dos próximos meses. Os dados divulgados nos EUA e na China ao longo da semana podem trazer informações relevantes para os próximos meses e os preços de ativos.

Nos EUA as vendas no varejo surpreenderam positivamente para o mês de junho, com destaque especial para itens subjacentes que são utilizados diretamente para projeção de PIB. O comportamento do consumidor americano enseja otimismo, mas levanta-se a preocupação com os próximos meses por conta do avanço da pandemia nos estados do sul dos EUA (que já está se fazendo sentir no mercado de trabalho) e dos riscos atrelados a não extensão do auxílio desemprego suplementar por conta da crise.

O beige book do FED (um compilado de evidências anedóticas sobre a economia) traz informações relevantes para o cenário que o Banco Central americano contempla: por mais que tenhamos recuperação evidente da atividade ao longo dos últimos meses, o nível ainda permanece extremamente baixo se comparado com o começo do ano e, especificamente, os riscos para a continuidade deste movimento são elevados. Ou seja, como mencionado pela integrante do board da autoridade monetária Lael Brainard esta semana: devemos ter implementação de forward guidance ao longo dos próximos meses.

O que vemos como risco central nos EUA no momento é o avanço da pandemia. Como mencionado acima, membros do FED já alertam para o impacto dos surtos nos estados do Sul sobre os dados de desemprego de maior frequência. Se isto vai se intensificar ao longo do tempo depende essencialmente da dinâmica da doença, o que somente reforça a incerteza que permeia as projeções para este semestre.

Na China, os dados do PIB do segundo trimestre surpreenderam positivamente o mercado. O resultado vem na sequência da reabertura da economia e massivos estímulos monetários e fiscais. Ainda assim, o PIB acumulado no ano permanece em terreno negativo. Espera-se de qualquer forma que a China alcance crescimento próximo a 2% ao longo deste ano e o movimento intenso de crescimento da economia após o choque do COVID-19 é sem dúvida um vetor positivo para a atividade global.

Na Europa, a decisão do Banco Central Europeu trouxe poucas novidades para os mercados. A instituição manteve os parâmetros de política monetária inalterados conforme amplamente esperado. De forma relevante, Christine Lagarde (chair do ECB) reforçou a flexibilidade em torno dos programas de ativo e, principalmente, a expectativa em torno da aprovação do fundo de auxílio que está em discussão entre os líderes da Zona do Euro.

O Brasil teve mais uma semana determinada pela discussão política em torno da reforma tributária. Enquanto esperamos pela apresentação da proposta do governo, a Câmara deu o ponta pé inicial nas discussões da PEC-45. Enquanto isso, o presidente do Senado Davi Alcolumbre, já pressionado pelos vetos presidenciais ao novo marco legal do saneamento, teve de adotar postura mais combativa, evidenciando a separação entre Câmara e Senado neste quesito. Ainda assim, a sinalização no final da semana parece positiva quanto ao avanço da reforma ao longo dos próximos meses.

De resto, poucas novidades ao longo da semana. Nossa expectativa permanece razoavelmente inalterada: o elevado desemprego global levará a manutenção da taxa de juros (global e local) em patamares muito estimulativos por longo período de tempo. Tudo o mais constante, isto deveria beneficiar alocações bolsa.

Ao mesmo tempo, a expectativa de redução dos riscos fiscais na economia brasileira pode levar a uma queda nas taxas de juros mais longas, o que seria positivo para a recuperação da atividade econômica. O cenário permanece com riscos (avanço da pandemia nos EUA, principalmente), mas as chances são grandes do fator liquidez preponderar no momento.

 

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.