Passamos por mais uma semana de fortes emoções no Brasil e, infelizmente, a história permanece impressionantemente parada nos assuntos que determinaram grande parte do segundo semestre do ano passado: a possibilidade de se manter o teto de gastos ante o evidente risco em torno da resinstauração de auxílio emergencial por conta da aceleração da pandemia.

Na falta de notícias relevantes no cenário externo (exceção seja justamente feita à posse de Biden como 46º presidente dos EUA), devemos reverter a análise exclusivamente para nossa conjuntura local. Infelizmente, o destaque neste quesito permanece em torno da deterioração nos indicadores da pandemia e implementação de diversas medidas de isolamento em alguns estados (por exemplo, São Paulo). Sabemos que estas medidas tem um custo econômico. Assim, na medida em que cresce a expectativa de desaceleração da atividade, cresce também o risco de medidas fiscais de transferência (leia-se Auxílio Emergencial), o que também coloca pressão sobre o Teto de Gastos.

O risco neste sentido já foi amplamente debatido no ano passado: nossa precária situação fiscal necessita de garantias para que a credibilidade não se perca. As repetidas investidas contra o Teto somente demonstram como sua sustentação tem um custo alto e evidentemente há pouca confiança que o campo político realmente está disposto a pagá-lo.

Fora isso, as diversas idas e vindas em relação ao desenrolar da vacinação colocam ainda maior risco de que o cronograma seja atrasado de forma significativa, o que implica, novamente, em maiores riscos fiscais para o país.

Logo, vemos um cenário de abertura das taxas de juros, desvalorização cambial e queda da bolsa. Ou seja, todos os indicativos de uma deterioração no cenário macro do Brasil. As promessas feitas pelos diversos candidatos à presidência da Câmara e do Senado indicam que estes ruídos podem permear o restante do ano, o que coloca pressão sobre os ativos.

Ademais, tivemos a divulgação do Comunicado da reunião do COPOM de janeiro. Conforme nossa expectativa, a autoridade monetária retirou o forward guidance e deu sinais razoáveis de que se aproxima novamente do ciclo de elevação da taxa de juros. Preocupantemente, o Banco Central indica que os núcleos estão rodando acima do que é compatível com a meta. Ou seja, teremos em breve elevação da taxa SELIC. Mantemos nossa projeção da primeira alta em junho, com a taxa chegando este ano a 4%.

Assim, o cenário mostra-se evidentemente desafiador. Ainda acreditamos na tese de que pequenos ajustes estruturais podem ter grande efeito em termos de fluxo para o Brasil, visto que o efeito liquidez global é realmente preponderante. No entanto, as repetidas investidas contra o nosso arcabouço fiscal (leia-se, teto) garantem um cenário de excessiva volatilidade e constante temor em relação a sustentabilidade de nosso cenário macro.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.