Na próxima semana, teremos mais uma Super Quarta com reuniões dos comitês de política monetária no Brasil e nos EUA para decidirem os próximos passos dos juros base da economia em cada país. O foco do comentário abaixo será, assim, sobre o desafio do Banco Central do Brasil (BCB) na condução da política monetária. A fim de projetarmos quais as decisões serão tomadas e a comunicação adotada, devemos entender e explorar o cenário econômico nacional e internacional, principalmente em relação a inflação e atividade econômica.

Depois da surpresa positiva com o PIB brasileiro do primeiro trimestre, os primeiros indicadores de atividade econômica do segundo trimestre começam a apontar uma recuperação mais consistente da economia. Dentre eles, as vendas no varejo e os serviços, ambos medidos pelo IBGE, vieram mais fortes que o esperado no mês de abril. Além disso, a expectativa do mercado para o crescimento do PIB de 2021, indicado pela pesquisa Focus do BCB, subiu de 3,96% para 4,36% e mantém a porta aberta para novas revisões altistas.

O ponto principal para o Comitê de Política Econômica (COPOM), porém, ainda é a dinâmica da inflação. O IPCA do mês de maio divulgado na última quarta (09/06) veio em 0,83%, acima do teto das expectativas de mercado, e chegou em 8,06% na variação anual, i.e., contra o mesmo mês do ano anterior. Com isso, as expectativas para a inflação no final do ano já começam a superar em muito o teto da meta de 5,25%, nossa projeção no momento encontra-se em 5,7% para o IPCA no ano. Para piorar, a inflação de 2021 parece começar a contaminar as expectativas para 2022, que já se encontram acima da meta de 3,5%.

Outros fatores nacionais e lá de fora podem ainda influenciar a dinâmica da inflação futura. Primeiro, os preços das commodities no mercado internacional continuam em alta, o que dificulta a queda nos preços de alimentos e bens industriais internamente. Segundo, a crise hídrica pode tanto influenciar na geração de energia e deixar a conta de luz mais cara quanto dificultar a irrigação do cultivo agrário e impactar a produção, o que também afetaria o preço de alimentos. Por último, a combinação de avanço da vacinação, reabertura da economia e extensão do auxílio emergencial podem pressionar a demanda por serviços e elevar os preços dos itens desse grupo acima do esperado.

Há ainda uma luz no fim do túnel. Pelo lado positivo, o COPOM pode atuar para amenizar a aceleração da inflação ao elevar a taxa de juros. Dado o cenário descrito acima, vemos, então, que o Banco Central não terá outra escolha a não ser de continuar subindo a taxa Selic. Já na semana que vem, esperamos uma alta de 0,75 pontos percentuais na taxa para 4,25% ao ano e projetamos agora que ela chegará a 6,50% ao ano no final de 2021. Ou seja, que a sinalização de normalização parcial adotada até a última reunião seja também deixada de lado pelo comitê.

O cenário posto da inflação no Brasil para os períodos de 2021 e 2022 é bastante complicado. Choques inflacionários estão elevando as expectativas de inflação para o biênio e as perspectivas são de piora. Todavia, ressaltamos que o Banco Central ainda tem uma janela de oportunidade para atuar elevando os juros e reafirmando o compromisso da autoridade monetária com o centro da meta de inflação para os próximos anos.

Por Adriano Valladão, economista modalmais.