Vale aproveitar esta semana de poucos desenvolvimentos econômicos ou políticos para comentar de forma resumida as principais perspectivas para a economia brasileira. Para todos os efeitos, nos aproximamos rapidamente do final do primeiro semestre e persistem incertezas significativas sobre a dinâmica econômica nos próximos meses.

Desde o final do ano passado mantemos a relevância de um sólido processo de vacinação que possibilitaria a reabertura sustentada da economia e a retomada da trajetória de crescimento. A vacinação dificilmente pode ser classificada como ótima neste momento, mas as expectativas seguem positivas. Chegamos agora a cerca de 20% da população vacinada em primeira dose, com cerca de metade destes já completamente imunizados.

O fluxo de oferta advindo da Fiocruz e também de vacinas da Pfizer ao longo dos próximos meses deve reforçar o ritmo. Conforme nosso relatório proprietário de oferta de vacinas, a expectativa central neste momento é que até outubro o país tenha vacinas o suficiente para imunizar a população acima de 18 anos ao menos em uma dose. Resta evidente que os riscos são em direção a atrasos, mas temos de reconhecer que o cronograma subjacente leva a esta conclusão.

O risco no momento refere-se justamente ao interregno entre o combate da pandemia necessariamente através de medidas fitossanitárias no momento e o salvo-conduto representado por vacinas. Como alguns vizinhos latino-americanos bem demonstram, permitir a retomada da interação social intensiva enquanto a quantidade de contaminados e o índice de retransmissão do coronavírus permanece elevado é uma combinação arriscadíssima. Por isso mesmo vemos o atual cenário de elevação na média móvel de contaminados como um enorme alerta para a trajetória de curto prazo da economia brasileira.

Por outro lado, o final do primeiro trimestre trouxe surpresas positivas na atividade. Mantemos nossa projeção de avanço de 0,7% do PIB neste período. Abril e maio devem ser os meses de retomada, com aumento na atividade do setor varejista e nos serviços. Por outro lado, os riscos elevados no parágrafo anterior colocam um ponto de interrogação em relação a virada do segundo para o terceiro trimestre.

Voltando aos vetores positivos, uma economia global em reabertura (ao menos os grandes blocos econômicos) somado ao estímulo monetário e fiscal elevado é um elemento positivo para o Brasil e definitivamente deve ser visto como um estímulo adicional sobre a atividade no segundo semestre.

Seguimos, no entanto, com problemas crônicos relacionados ao cenário fiscal. A dívida/PIB elevada deve ceder marginalmente este ano, seja por efeito de uma base maior (com o PIB nominal expandido fortemente a reboque da inflação), seja por conta de que mais PIB eleva a arrecadação do governo.

No entanto, o fator trajetória é muito mais relevante do que o nível da dívida/PIB. Neste sentido, fato é que o Brasil segue sem tomar decisões difíceis sobre a alocação dos recursos públicos, o que produz enormes desequilíbrios nas nossas contas nacionais. Ademais, o risco da reaceleração da pandemia deve ser encarado como um elemento que com certeza contribuirá para retomada da discussão em torno do auxílio emergencial, o que colocará ainda mais pressão sobre os gastos. A perspectiva de aproximação paulatina da eleição de 2022 somente torna a discussão mais complexa.

Finalmente, vemos aceleração da inflação este ano. Nossa projeção ainda está próxima a 5%, mas o viés é altista e possivelmente revisaremos este valor nas próximas semanas por conta da expectativa de um terceiro trimestre mais inflacionário do que o que supúnhamos anteriormente. Paralelamente, as expectativas do ano que vem começam a subir também, o que dificulta o objetivo declarado do Banco Central de manter a taxa de juros estimulativa apesar da normalização em curso.

Em suma, o cenário para a economia brasileira está longe de ser inequívoco. Somos otimistas quanto a vacinação e atividade, mas vemos riscos significativos advindos da inflação, fiscal e política. Assim, seletividade em relação a alocações sólidas faz muito sentido.

Por Felipe Sichel, estrategista modalmais.